O presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Aloizio Mercadante, destacou nesta quarta-feira (9) o papel estratégico dos bancos de desenvolvimento, especialmente no contexto do Sul Global, para fomentar pesquisa, tecnologia e inovação. As declarações ocorreram durante o seminário “A Transição Energética e a Sustentabilidade do Futuro”, realizado na sede do banco, poucos dias após a 17ª cúpula do Brics, no Rio de Janeiro.

Segundo Mercadante, o fortalecimento do bloco formado por países emergentes é crucial para impulsionar uma nova agenda global. “Os países do Brics estão puxando essa articulação do Sul Global para reconstruir o multilateralismo, com novo marco nas relações financeiras e maior cooperação entre nações em desenvolvimento”, afirmou.

O presidente do BNDES também valorizou a relação entre Brasil e China. “Se há quem se incomode com o êxito do crescimento chinês, esse alguém não é o Brasil”, disse, reafirmando o alinhamento entre os dois países na busca por um modelo econômico mais inclusivo e sustentável.

Em sua fala, Mercadante defendeu uma revisão no papel do Estado frente ao mercado diante da atual crise global. “Não temos modelos a copiar. Precisamos encontrar nosso próprio caminho, repensando a relação entre Estado e mercado e reconstruindo instituições multilaterais baseadas em respeito mútuo e cooperação entre as nações”, declarou. Para ele, o Sul Global deve ser “sujeito histórico construtivo” na construção de um novo pacto internacional.

A inovação, segundo o presidente do BNDES, é um campo onde o Estado precisa estar presente. “Inovação é risco. E se o Estado não estiver disposto a correr esse risco, o processo fica comprometido. Não há inovação sem Estado”, afirmou. Ele reforçou a importância de parcerias entre setor público, setor privado e mercado de capitais, mas frisou que o mercado sozinho não resolve desafios estruturais.

O embaixador da China no Brasil, Zhu Qingqiao, que também participou do evento, criticou políticas unilaterais e protecionistas, como as adotadas pelos Estados Unidos. “Alguns países abandonam compromissos como o Acordo de Paris e minam a ordem internacional, agravando instabilidades”, disse. “O Brics, como vanguarda do Sul Global, rejeita hegemonismos e defende um desenvolvimento baseado em benefícios mútuos.”

Durante o seminário, Mercadante apresentou os números do edital conjunto do BNDES com a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), voltado à seleção de propostas para a atração, instalação ou ampliação de centros de Pesquisa, Desenvolvimento Tecnológico e Inovação (PD&I) no Brasil. Segundo ele, foram recebidas 618 propostas, totalizando R$ 57,4 bilhões em investimentos, dos quais R$ 51,9 bilhões foram solicitados às duas instituições.

Embora o orçamento inicial do edital fosse de R$ 3 bilhões, o BNDES afirma que pretende apoiar todos os projetos de qualidade. O modelo de financiamento inclui instrumentos diversos como crédito, participação acionária, recursos não reembolsáveis para projetos cooperativos e subvenções econômicas, operados pelo BNDES ou pela Finep.

As propostas recebidas vieram tanto de empresas brasileiras quanto de multinacionais de países como Alemanha, Japão, Coreia do Sul, Estados Unidos, Holanda, Suíça, Itália, Singapura e Luxemburgo. Destas, 368 (59,5%) propõem a criação de novos centros de PD&I, representando R$ 37,8 bilhões em investimentos, sendo R$ 34,7 bilhões solicitados às instituições brasileiras. As regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste somam 201 propostas, com investimentos previstos de R$ 16,1 bilhões.

A implantação dos centros, segundo o banco, pode gerar mais de 31 mil empregos diretos, incluindo 4.501 mestres e 2.754 doutores, além de mais de 28 mil profissionais técnicos. Em média, cada projeto prevê a contratação de cerca de 12 pesquisadores e 46 funcionários.

“Precisamos transformar nossas universidades em centros ativos de inovação e solução de problemas concretos. Não basta apenas produzir teses. Precisamos de respostas rápidas e aplicáveis”, disse Mercadante. “Esse é o salto de qualidade necessário para mudar nossa pauta de exportações e consolidar um modelo de desenvolvimento mais sofisticado.”

Os centros de PD&I previstos contemplam desde pesquisa básica e aplicada até desenvolvimento de produtos, testes, validações e parcerias com universidades e instituições científicas. De acordo com o BNDES, incentivos governamentais são essenciais para atrair investimentos de empresas multinacionais. Países como China e Índia oferecem apoio direto a setores estratégicos, enquanto Japão, Reino Unido e Holanda adotam estímulos fiscais.

O Brics, bloco formado por Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul, Irã, Arábia Saudita, Egito, Etiópia, Emirados Árabes Unidos e Indonésia, representa hoje 39% da economia mundial, 48,5% da população global e 23% do comércio internacional. Em 2024, os países do Brics responderam por 36% das exportações brasileiras e por 34% das importações.

Para Mercadante, esse cenário reforça a importância de alianças estratégicas entre os países do Sul Global. “É com cooperação, inovação e presença ativa do Estado que construiremos um modelo de desenvolvimento justo, sustentável e soberano para o Brasil”, concluiu.

Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

 

 


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