A Polícia Federal identificou, na extração de dados do celular do ex-presidente Jair Bolsonaro, a presença de um número antigo do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), salvo na lista de contatos. Além disso, o ex-presidente enviou mensagens ao ministro Luiz Fux, também do STF, por meio de sua lista de transmissão. A defesa de Bolsonaro foi procurada, mas preferiu não comentar o caso.
O celular foi apreendido no dia 3 de maio de 2023, durante a investigação que apura suspeitas de fraude em certificados de vacinação contra a covid-19. Ao todo, a PF extraiu 7.268 arquivos do aparelho. A maioria dos registros analisados corresponde a diálogos ocorridos na semana anterior à apreensão. Conversas mais antigas haviam sido apagadas e não puderam ser recuperadas.
Entre os dados extraídos, havia um número atribuído a Alexandre de Moraes, salvo nos contatos de Bolsonaro desde o período em que ele ainda era presidente da República. “Era um número antigo, que já havia sido substituído por outro ao final do mandato presidencial”, indicaram os investigadores. Não foram localizadas trocas de mensagens entre os dois.
Durante seu governo, Bolsonaro tentou se reaproximar de Moraes por meio de intermediários, como o ex-presidente Michel Temer. “As articulações, no entanto, não prosperaram diante dos reiterados ataques públicos feitos por Bolsonaro ao ministro”, apontaram fontes ligadas ao caso. Moraes é o relator da ação penal em que o ex-presidente é réu por tentativa de golpe de Estado.
Já com Luiz Fux, Bolsonaro enviou duas mensagens em 1º de maio de 2023, dois dias antes da operação da PF. Ambas foram compartilhadas com contatos da lista de transmissão. A primeira era um vídeo em que o ex-presidente aparecia sendo ovacionado por apoiadores durante o Agrishow, evento do agronegócio em Ribeirão Preto (SP). A seguir, Bolsonaro complementou com uma mensagem textual: “Obrigado meu Deus… Ribeirão Preto/SP. 01/maio/2023. Agrisho. \sic]”.
Segundo os dados obtidos pela PF, Fux não respondeu às mensagens. “Não há registro de diálogo anterior entre os dois nos arquivos extraídos do aparelho”, informa o relatório da investigação.
Fontes próximas ao ministro afirmaram que o contato direto com Bolsonaro ocorreu de forma institucional, durante o período em que Fux presidiu o STF, entre 2020 e 2022 — coincidente com o mandato presidencial do ex-capitão do Exército.
Atualmente integrante da Primeira Turma do STF, o ministro Luiz Fux tem adotado uma postura mais crítica em relação a algumas medidas determinadas por Alexandre de Moraes contra Bolsonaro. “Fux tem se posicionado contra medidas como o uso de tornozeleira eletrônica e atua como contraponto a Moraes no julgamento da trama golpista”, apontou um interlocutor próximo ao magistrado.
Foto: Ton Molina/STF

