Em meio às discussões que tomaram conta da audiência pública que debateu a liberação da mineração na Serra do Curral, realizada nesta quinta-feira (05) na Assembleia Legislativa de Minas Gerais, um dos destaques na oposição ao empreendimento foi o ambientalista, professor da UFMG, médico e idealizador do projeto Manuelzão, Apolo Heringer Lisboa, que rebateu as falas da secretaria de Meio Ambiente do estado que ocorreram mais cedo, na mesma audiência.
Em seu pronunciamento, a chefe da pasta de meio ambiente, Marília Carvalho de Melo, defendeu o empreendimento da Tamisa, alegando que a liberação por parte do Conselho Estadual de Política Ambiental (Copam) está sendo realizada seguindo todos os trâmites legais. Na fala de Heringer, o professor lembrou de tragédias recentes envolvendo a mineração e que tinham a anuência do Estado até então.
“Essa questão da legalidade, todos nós sabemos que é algo feito para disfarçar a vontade política de se autorizar esse tipo de empreendimento. A Samarco produziu o caso de Bento Rodrigues, em Brumadinho também estava tudo bem segundo a Vale”, pontuou.
Além de relembrar episódios recentes envolvendo tragédias com mineração, Apolo alegou que os estudos técnicos e os ritos legais, citados pela secretária, não escondem o ‘absurdo’ do projeto. “Essa questão do que é legal é relativa. Jesus Cristo foi crucificado seguindo todos os ritos previstos na lei de Roma. E a história foi implacável com aqueles que agiram conforme a lei. Então não é verdade que esses estudos técnicos são referência para alguma coisa. Pode até ser legal, mas é imoral”, rebateu.
O ambientalista ressaltou que além dos riscos ambientais e de saúde para a autorização, a implantação de um complexo minerário na Serra representa um desrespeito à história da população de Belo Horizonte.
Mineração ameaça 526 espécies animais
A instalação da Taquaril Mineração S/A (Tamisa) na Serra do Curral coloca em risco centenas de espécies animais que habitam a região. Foram catalogados pelo menos 526 tipos circulantes por lá, sendo uma parte deles de vivência restrita na região, o que os especialistas chamam de “endêmicos”. Só de aves, são 33 que se encaixam nesse perfil. Além disso, 11 espécies, sendo nove aves, um mamífero e um peixe, já estão em risco de extinção.
Os dados foram levantados pela Fundação de Parques Municipais e Zoobotânica (FPMZB). “Nós catalogamos as espécies no espaço da serra do Curral que compreende os parques Serra do Curral, das Mangabeiras e Fort Lauderdale. Como os estudos estão em curso, podemos ter mais espécies”, explica a bióloga e educadora ambiental da FPMZB Nadja Simbera Hemetrio. Segundo ela, como há uma interligação entre essas áreas, esses mesmos animais também são encontrados onde a mineradora pretende se instalar.
Os impactos de mais uma atividade minerária na região podem ocorrer de diferentes formas. Nadja afirma que, além da fuga de espécies, existe o risco de extinção de uma parte dos animais, como os endêmicos, de vivência restrita. Caso tenham que seguir para outro lar, podem não se adaptar e morrer.
“Onça-parda, lobo-guará, muitos mamíferos pequenos que fazem trânsito terrestre, todos serão afugentados, senão mortos, pela própria atividade minerária na Serra do Curral”, afirma a ambientalista do projeto Manuelzão Jeanine Oliveira, que acompanhou a reportagem ao local.
A instalação de um empreendimento bem no meio de um corredor biológico, percorrido por várias espécies, pode impedir que animais migrem de um ponto a outro em busca de alimentos, tornando a existência na serra inviável para uma parcela deles. Além disso, há animais que andam quilômetros para acasalar. Isso é importante para evitar que bichos de uma mesma ninhada cruzem entre si, gerando problemas genéticos aos filhotes.
“Nós temos espécies que toleram barulho e poluição, e outras, não. Algumas aves usam sons para atrair as fêmeas para se reproduzir. A mineração é uma atividade muito barulhenta e pode inviabilizar esse processo. Em algumas espécies, estamos falando em risco real de extinção”, diz Nadja.
A situação fica ainda mais grave se levado em conta que algumas espécies existem apenas na serra da Curral, algumas ainda em estudo. Como o opilião, um animal invertebrado parecido com aranha. “Ele foi descoberto em 2019 no parque das Mangabeiras, e não temos registro desse tipo em outro local”, revela.
A Tamisa não tinha se manifestado até o fechamento desta edição. Mas, no relatório publicado no site da empresa, admite que o projeto deve gerar impactos ambientais, como redução de espécies da flora e da fauna, fragmentação e diminuição do habitat dos animais, alteração do relevo e das comunidades aquáticas, supressão de nascentes e mudanças na vazão de cursos d’água. O projeto prevê a abertura de três cavas em 13 anos.
Biodiversidade em risco
A ambientalista Jeanine Oliveira também argumenta que a mineração pode causar a supressão de cavernas ferruginosas, classificadas como estruturas geológicas de máxima e alta relevância na Serra do Curral, devido à biodiversidade encontrada nesses locais. Ela destaca que não há medida que seja capaz de compensar a perda dessas cavidades, específicas do Quadrilátero Ferrífero.
“As cavernas ferruginosas são de uma formação muito rara, de milhares de anos, e abrigam seres vivos ainda nem descritos e catalogados pela literatura, mas que já foram descobertos”, diz.
Outro grande impacto decorrente da extinção dessas estruturas, segundo a ambientalista, é a volta de doenças que já foram controladas ou eliminadas da capital. “Temos, nesses locais, caramujos, morcegos e mosquitos que hoje vivem em um ecossistema equilibrado e podem migrar para Belo Horizonte e trazer novas doenças para a população”, destaca.

