Mesmo antes do anúncio oficial do sucessor do ministro Luís Roberto Barroso no Supremo Tribunal Federal (STF), aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro já articulam uma ofensiva contra o nome considerado favorito do presidente Luiz Inácio Lula da Silva: o ministro da Advocacia-Geral da União (AGU), Jorge Messias.
A mobilização ocorre tanto nas redes sociais quanto nos bastidores do Senado. Segundo interlocutores da oposição, a estratégia é “constranger e desgastar” Messias para tentar inviabilizar sua indicação. A aposta dos bolsonaristas é resgatar um episódio de 2016, no auge da Operação Lava Jato, quando um áudio entre Lula e a então presidente Dilma Rousseff foi divulgado pelo então juiz Sergio Moro. Na gravação, Dilma se refere a Messias, então assessor jurídico da Casa Civil, como “Bessias”.
“Seguinte: eu tô mandando o ‘Bessias’ junto com o papel, pra gente ter ele. E só usa em caso de necessidade, que é o termo de posse, tá?”, diz Dilma no diálogo, interceptado e divulgado à época. O documento citado seria o termo de posse de Lula como ministro-chefe da Casa Civil, movimento interpretado por adversários como uma tentativa de blindá-lo judicialmente e evitar uma possível prisão.
Agora, oito anos depois, o episódio volta ao centro das articulações políticas. “Os outros candidatos à vaga [Rodrigo Pacheco e Bruno Dantas] não têm vídeo, não têm nada. Mas o ‘Bessias’ tem esse áudio imortal”, afirmou um senador que acompanha as discussões nos bastidores.
A ideia da oposição, já posta em prática por figuras como o senador Cleitinho (Republicanos-MG), é usar o áudio não apenas para alimentar campanhas nas redes, mas também para pressionar Messias durante a sabatina na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado. Para ser aprovado, o indicado precisa de pelo menos 41 votos favoráveis no plenário.
Parlamentares próximos a Bolsonaro discutem em grupos de WhatsApp o tom a ser adotado nas perguntas da sabatina e nas manifestações públicas. “A oposição vai explorar esse episódio até o fim. É uma forma de questionar a imparcialidade e a trajetória de Messias”, disse um aliado do ex-presidente.
Nos bastidores do Planalto, o movimento bolsonarista não surpreendeu. Um senador da base governista afirmou que o governo “espera ataques” e que “o episódio do Bessias está superado”. Segundo ele, Messias tem “condições técnicas e morais” para ocupar o STF e, além disso, sua identidade religiosa pode amenizar críticas mais agressivas.
Messias é membro da Igreja Batista e tem se aproximado do segmento evangélico — público no qual o governo Lula tenta reduzir resistências. Em junho de 2023, ele representou o presidente na Marcha Para Jesus, em São Paulo. Apesar de ter sido vaiado ao citar Lula, Messias manteve o tom conciliador. “Eu vim aqui dizer pra vocês, a pedido do presidente, que no Brasil há homens e mulheres que vivem para o reino. Nós entendemos que estamos lá não por nossas próprias pernas, mas porque fomos escolhidos por Deus. Nosso povo quer paz, e nós vamos trabalhar pela paz”, declarou.
A presença do ministro em eventos religiosos passou a ser vista pelo governo como um gesto estratégico para aproximar Lula de parte do eleitorado evangélico. No entanto, no cenário político polarizado, governistas reconhecem que a eventual indicação de Messias dificilmente passará sem turbulências.
“É natural que haja resistência, mas o presidente não vai tomar uma decisão baseada em ataques. Ele quer alguém técnico, leal à Constituição e capaz de dialogar”, afirmou um integrante do Planalto.
Ainda sem confirmação oficial, Jorge Messias é considerado o nome mais forte da lista de Lula, à frente de outros cotados, como o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG), e o ministro do Tribunal de Contas da União (TCU), Bruno Dantas.
A ofensiva antecipada da oposição, entretanto, sinaliza que o caminho até o Supremo será árduo. “A paz é tudo o que Messias não terá no Senado se for indicado”, resumiu um aliado do governo, ciente de que o embate em torno da futura vaga do STF tende a reacender a disputa entre lulistas e bolsonaristas no Congresso.
Foto: Antônio Augusto/STF

