O Exército Brasileiro decidiu enviar para Roraima o Centauro II-BR, considerado o mais poderoso blindado de combate sobre rodas atualmente em operação na América do Sul. A aquisição do equipamento integra o projeto de modernização das forças blindadas do País e marca uma inflexão relevante na estratégia militar brasileira para a região de fronteira norte. Fabricado pelo Consórcio Iveco-OTO Melara, o veículo possui torre equipada com um canhão de 120 milímetros, o que o classifica como um Veículo Blindado de Combate de Cavalaria de alto poder de fogo e grande capacidade de dissuasão.

Ao todo, doze unidades do Centauro ficarão lotadas no 18.º Regimento de Cavalaria Mecanizado, vinculado à 1.ª Brigada de Infantaria de Selva, sediada em Boa Vista. Trata-se da mesma unidade que, entre 2023 e 2024, recebeu reforços expressivos durante a crise envolvendo a região do Essequibo, com o envio de viaturas blindadas leves Guaicuru, blindados Guarani e Cascavel, além de dezenas de mísseis antiaéreos RBS 70 e mísseis superfície-superfície Max 1.2 AntiCarro. O novo reforço consolida a posição estratégica da brigada na defesa da fronteira setentrional do País.

A confirmação do envio dos blindados foi feita pelo comandante do Exército Brasileiro, general Tomás Miguel Ribeiro Paiva, durante cerimônia de transmissão do comando militar do Sudeste, realizada no quartel-general do Ibirapuera, em São Paulo. Na ocasião, o general Pedro Celso Coelho Montenegro passou o cargo ao general Ricardo Piai Carmona. No palanque estavam o ministro da Defesa, José Múcio Monteiro Filho, e o governador paulista, Tarcísio de Freitas.

A fala de Tomás ocorreu poucas horas antes do encerramento do julgamento do chamado núcleo dois do processo da tentativa de golpe de Estado, no Supremo Tribunal Federal, que resultou na condenação de mais dois oficiais de alta patente. Sem fazer qualquer menção direta às decisões judiciais, o comandante do Exército optou por uma mensagem institucional ao se despedir de Montenegro. “Exército é isso: Exército é silêncio, retidão e prontidão. E é o que nós fazemos todo dia: silêncio, retidão e prontidão e prontos para cumprir qualquer missão em defesa da Pátria”, afirmou.

Foi durante esse pronunciamento que o general detalhou o destino inicial de parte dos noventa e oito Centauros adquiridos pelo Brasil em contrato estimado em 900 milhões de euros. Além de Roraima, a outra unidade que receberá prioritariamente os blindados ficará sob responsabilidade do Comando Militar do Sudeste. A 11.ª Brigada de Cavalaria Mecanizada, com sede em Campinas, também contará com doze unidades do veículo, que ficarão lotadas no 13.º Regimento de Cavalaria Mecanizado, em Pirassununga. O primeiro lote deve ser entregue em 2026, seguido por outro em 2027.

A escolha da 11.ª Brigada obedece a critérios logísticos semelhantes aos que levaram o Sudeste a receber, nos últimos anos, a primeira companhia anticarro do Exército, além das primeiras unidades de drones e de artilharia de média altura. A região oferece infraestrutura e mobilidade que permitem o deslocamento rápido das tropas para qualquer ponto do território nacional, característica considerada essencial para o emprego dos novos blindados.

Os demais Centauros serão distribuídos entre unidades do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Mato Grosso do Sul, estados localizados ao longo da faixa de fronteira. Essa faixa, que corresponde a mais de 1,4 milhão de quilômetros quadrados, abrange cerca de 16,7% do território brasileiro e concentra setenta e oito organizações militares, com aproximadamente vinte e cinco mil militares posicionados do Oiapoque ao Chuí. A lógica de distribuição segue a estratégia de presença e dissuasão adotada pelo Exército.

A presença pressupõe articulação territorial contínua e capacidade de deslocamento rápido. Já a dissuasão exige forças suficientemente poderosas e prontas para emprego imediato, capazes de desencorajar ameaças externas ou transnacionais. No chamado Arco Norte, onde predominam floresta densa, rios extensos e localidades isoladas, o Exército lida com desafios adicionais, como garimpo ilegal, extração clandestina de madeira, biopirataria e narcotráfico.

Segundo a Força Terrestre, cerca de nove mil militares atuam apenas na faixa de fronteira norte, distribuídos em diversas unidades e em vinte e três Pelotões Especiais de Fronteira. Esse contingente ganhou ainda mais relevância diante do agravamento das tensões regionais, especialmente a disputa entre Venezuela e Guiana pelo território do Essequibo e a crescente pressão internacional sobre o regime de Nicolás Maduro.

Com o aumento das tensões entre Venezuela e Estados Unidos, o governo brasileiro teme um crescimento do fluxo de refugiados em direção a Roraima, além da intensificação da atuação de organizações criminosas transnacionais, como o Tren de Aragua, já identificado no estado. Nesse contexto, o Exército participa da Operação Acolhida, voltada ao atendimento humanitário de migrantes. Desde sua criação, em 2008, a operação já mobilizou cerca de 6,6 mil militares e, apenas em 2025, consumiu R$ 10 milhões.

Também em Roraima, o Exército mantém desde abril de 2024 a Operação Catrimani, na Terra Indígena Yanomami, voltada ao combate ao garimpo ilegal. A ação já custou R$ 131 milhões e resultou na apreensão de mercúrio, máquinas e embarcações avaliadas em R$ 610 milhões, além de outros gastos logísticos para o envio de equipamentos e tropas à região.

Embora doze blindados possam parecer insuficientes diante da vastidão amazônica, o envio dos Centauros a Boa Vista antes mesmo de unidades tradicionais do Sul do País revela a mudança de prioridade estratégica do Exército. Trata-se de uma decisão simbólica e operacional, que reforça a centralidade da fronteira norte na política de defesa brasileira e sinaliza que sua importância não pode mais ser tratada como periférica.

Foto: Edvaldo/CComSEx


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