O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva prepara uma cerimônia institucional para marcar os três anos dos ataques golpistas de 8 de janeiro e, ao mesmo tempo, administra divergências internas sobre o melhor momento para oficializar o veto ao projeto de lei da dosimetria. Aliados próximos ao presidente aconselham que a solenidade não seja utilizada para anunciar o veto diante dos chefes do Legislativo, a fim de evitar novo tensionamento com o Congresso em um momento considerado delicado para a articulação política do Palácio do Planalto.
A proposta de redução de penas, aprovada pelo Parlamento nos últimos dias de trabalho de 2025, beneficia o ex-presidente Jair Bolsonaro e outros condenados por envolvimento na trama golpista. Lula já sinalizou a aliados que pretende barrar o texto, dentro do prazo legal que se encerra no dia 12 deste mês, e demonstrou disposição para fazê-lo no próprio dia 8. Ainda assim, parte dos auxiliares defende cautela quanto ao formato e ao timing do anúncio.
A cerimônia foi concebida como um ato de reafirmação da democracia e das instituições brasileiras, três anos após a invasão das sedes dos Três Poderes, em Brasília, em 2023. A intenção do Planalto é reforçar a mensagem de que os ataques não podem ser relativizados nem esquecidos, sobretudo após a conclusão, pelo Supremo Tribunal Federal, do julgamento da trama golpista que resultou na prisão de Bolsonaro e de aliados próximos.
No Congresso, a base governista está dividida. Um auxiliar direto do presidente afirma que “a vontade do presidente vai prevalecer”, mas pondera que o veto não deveria ser formalizado durante a solenidade, justamente para evitar constrangimentos institucionais. Segundo ele, o Planalto trabalha para distensionar a relação com o Legislativo e não deseja criar um novo foco de atrito em um evento pensado para simbolizar unidade democrática.
Foram convidados para a cerimônia os presidentes da Câmara dos Deputados, Hugo Motta; do Senado, Davi Alcolumbre; e do STF, Edson Fachin. Até o momento, nenhum deles confirmou presença. A eventual ausência ou desconforto durante o evento é vista por alguns assessores como um risco político desnecessário.
Outro interlocutor frequente de Lula, porém, minimiza a possibilidade de desgaste. Na avaliação dele, o Congresso já “precificou” a decisão presidencial, e não haveria surpresa nem desconforto adicional caso o veto fosse anunciado no dia 8. Para esse grupo, o gesto ganharia mais peso político e simbólico se associado diretamente à data que marcou a tentativa de ruptura institucional.
Um terceiro auxiliar afirma que a palavra final ainda será discutida em reuniões com o presidente, previstas para ocorrer hoje, quando Lula retorna a Brasília, e também amanhã. A definição dependerá do ambiente político e da avaliação sobre os impactos institucionais do anúncio.
Além da cerimônia oficial, o Planalto convocou ministros de Estado para participar do ato e organizou uma atividade do lado de fora do Palácio do Planalto, com a presença de representantes da sociedade civil e de movimentos sociais. A expectativa, segundo integrantes da organização, é que o presidente desça a rampa ao final do evento para se juntar ao público, em um gesto simbólico de proximidade.
Paralelamente, o Partido dos Trabalhadores convocou manifestações em todo o país no dia 8 em defesa da democracia e da soberania brasileira. Um dos motes centrais será a oposição ao projeto da dosimetria. Diante da recente ação dos Estados Unidos na Venezuela, que resultou na captura de Nicolás Maduro, dirigentes petistas também defendem incorporar às mobilizações a defesa da soberania da América Latina.
“O ato tem esse duplo significado: a defesa da democracia e da soberania. O que vale para o Brasil vale para a América Latina. O simbolismo cresce ainda mais diante do que ocorreu na Venezuela”, afirmou o líder do governo na Câmara, José Guimarães.
O ministro Guilherme Boulos, da Secretaria-Geral da Presidência, avalia que os temas da soberania e da defesa da paz ganharam força no contexto internacional recente, mas ressalta que o eixo central da cerimônia seguirá sendo o repúdio ao golpismo. “O centro do ato de 8 de janeiro é a defesa da democracia e a condenação do golpismo. É o primeiro 8/1 após a condenação e a prisão dos criminosos golpistas. A defesa da soberania será complementar, mas a democracia brasileira é o foco”, declarou.
Foto: Sérgio Lima

