Às vésperas da abertura da janela partidária, período em que deputados podem mudar de legenda sem risco de perder o mandato, a Câmara dos Deputados já vive um intenso rearranjo de forças. Desde o início da legislatura, em fevereiro de 2023, foram registradas quarenta e seis mudanças de sigla, movimento que antecipou tendências esperadas apenas para março e abril. O resultado parcial indica o fortalecimento de partidos do Centrão e o esvaziamento do PL, legenda que abrigou o ex-presidente Jair Bolsonaro e que iniciou a legislatura como a maior bancada da Casa.
O crescimento mais expressivo foi observado no PSD, que incorporou cinco deputados, seguido por Republicanos e Podemos, com quatro cada, e pelo PP, que avançou três cadeiras. No sentido oposto, o PL perdeu treze parlamentares, reduzindo sua bancada de noventa e nove deputados eleitos para oitenta e seis. Parte dessas saídas teve como destino partidos do Centrão, enquanto outra parcela migrou para legendas ideológicas de direita, como o Novo, sinalizando uma fragmentação do campo conservador.
A chamada janela partidária é um mecanismo previsto na legislação eleitoral que permite a troca de partido sem punição por infidelidade. Fora desse intervalo, a mudança só é autorizada em casos específicos, como fusão ou incorporação de siglas, criação de novos partidos ou alterações relevantes no programa partidário. Ainda assim, muitos parlamentares conseguem deixar suas legendas por meio de acordos políticos, nos quais a direção do partido abre mão de reivindicar a vaga, apesar de a lei prever que o mandato pertence à legenda.
Um exemplo simbólico dessa reorganização é o do deputado Tiririca, conhecido pelo slogan “pior do que tá não fica” e atualmente em seu quarto mandato. Eleito pelo PL, optou por migrar para o PSD, reforçando a estratégia da sigla de atrair quadros com alta visibilidade eleitoral. O movimento ilustra tanto o enfraquecimento do PL quanto a capacidade de atração do partido comandado nacionalmente por Gilberto Kassab.
Outro caso relevante foi o do deputado Guilherme Derrite, ex-secretário de Segurança Pública de São Paulo. Ele deixou o PL após costurar um acordo direto com o presidente da legenda, Valdemar Costa Neto, e retornou ao PP, partido pelo qual havia sido eleito em 2018. Nos bastidores, a disputa por vagas ao Senado em 2026 é apontada como um dos fatores que influenciaram a decisão, especialmente em estados competitivos como São Paulo.
A corrida pelo Senado paulista também está no horizonte do ex-ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles. Filiado ao PL até agosto de 2024, ele deixou a legenda após avaliar que não teria espaço para disputar a prefeitura. Expulso do Novo quando assumiu o ministério no governo Bolsonaro, em um momento em que o partido ainda resistia ao bolsonarismo, Salles voltou à antiga casa com o objetivo de viabilizar sua candidatura ao Senado.
O PSD, partido que mais cresceu, ampliou sua presença em estados populosos e avançou sobre antigos redutos do PSDB. Em São Paulo, a legenda atraiu o deputado Carlos Sampaio, parlamentar com mais de vinte anos de atuação na Câmara e filiado aos tucanos desde 1992. A migração, ocorrida em março de 2024, simbolizou o esvaziamento do PSDB em seu principal bastião histórico e consolidou o movimento de “arrastão” promovido pelo PSD sobre quadros experientes.
No Republicanos, o crescimento começou antes mesmo de Hugo Motta assumir a presidência da Câmara, o que enfraquece a tese de que as filiações teriam sido motivadas apenas pela proximidade com o comando da Casa. Ao todo, o partido recebeu doze novos deputados e perdeu cinco, mas parte das saídas envolvia suplentes que precisaram devolver as cadeiras quando deixaram o mandato. Assim, o saldo líquido foi de quatro parlamentares a mais.
No início da legislatura, o Republicanos absorveu dois deputados do PSC, legenda que não atingiu a cláusula de barreira e perdeu acesso a recursos do fundo partidário e ao tempo de televisão. Em seguida, atraiu nomes vindos de partidos como Podemos e PL. O presidente nacional da sigla, Marcos Pereira, afirmou que “o Republicanos tem um planejamento organizado, e o crescimento constante é resultado de trabalho e credibilidade da agenda do partido”.
O PP também terminou maior do que no início da legislatura, com um fluxo de filiações mais homogêneo. Com exceção de um deputado do Pros e outro do PTB, legendas que não superaram a cláusula de barreira, as demais entradas vieram do PL. A sigla consolidou-se como um dos principais polos de atração de parlamentares em busca de maior previsibilidade eleitoral.
Em alguns casos, acordos entre partidos equilibraram ganhos e perdas. O Republicanos recebeu Zucco, do Rio Grande do Sul, e liberou Samuel Viana, de Minas Gerais, para o PL. Com o MDB, houve a saída de Thiago Flores, de Rondônia, e a entrada de Alexandre Guimarães, do Tocantins. Esses movimentos refletem negociações pontuais, muitas vezes condicionadas à conjuntura política nos estados.
Fatores regionais também explicam a filiação de Pedro Lupion ao Republicanos. Presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária, ele deixou o PP para assumir a direção da sigla no Paraná e preparar uma candidatura ao Senado, projeto que enfrentava resistências internas em sua antiga legenda.
No Rio de Janeiro, o deputado Luciano Vieira mudou de partido duas vezes na mesma legislatura. Eleito pelo PL, migrou para o Republicanos e, posteriormente, escolheu o PSDB. Com o enfraquecimento dos tucanos em âmbito nacional e estadual, viu a oportunidade de assumir a direção local e moldar o partido segundo sua própria estratégia.
O fortalecimento das siglas do Centrão também se relaciona ao desempenho nas eleições municipais de 2024. O PSD foi o partido que mais elegeu prefeitos, o PP ficou em terceiro lugar e o Republicanos mais que dobrou seu número de prefeituras. Para a cientista política Lara Mesquita, da FGV-EESP, “parece haver uma migração em sentido dos partidos que se destacaram nas municipais”, o que pode ser interpretado como um deslocamento da direita mais ideológica para uma direita mais pragmática.
Apesar do movimento intenso, nem todos os pedidos de desfiliação foram atendidos. No União Brasil, deputados do Rio de Janeiro solicitaram a saída ainda em 2023 e chegaram a recorrer à Justiça sob alegação de “assédio partidário”, mas seguem formalmente na bancada. A exceção foi Chiquinho Brazão, expulso do partido e cassado após ser preso sob acusação de mandar matar a vereadora Marielle Franco.
Se quiser, posso agora apenas conferir novamente a contagem de palavras ou ajustar algum trecho específico sem mexer no restante do texto.
Foto: Marcos Oliveira / Agência Senado

