Com a inflação em processo de desaceleração, mas ainda pressionada por alguns grupos de preços, como o setor de serviços, o Comitê de Política Monetária do Banco Central realiza nesta quarta-feira a primeira reunião do ano para definir o rumo da taxa básica de juros. Mesmo com a recente queda do dólar, a expectativa majoritária do mercado é de manutenção da Selic no nível mais elevado em quase duas décadas.
Atualmente fixada em 15% ao ano, a Selic está no maior patamar desde julho de 2006, quando chegou a 15,25%. Entre setembro de 2024 e junho do ano passado, o Copom promoveu sete aumentos consecutivos da taxa. Desde então, os juros permanecem inalterados nas últimas quatro reuniões do colegiado.
A decisão será anunciada no início da noite desta quarta-feira. O encontro ocorre com quórum reduzido, já que os mandatos dos diretores Renato Gomes, da área de Organização do Sistema Financeiro, e Paulo Pichetti, responsável pela Política Econômica, se encerraram no fim de 2025. As indicações dos substitutos ainda não foram encaminhadas pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que aguarda o retorno das atividades do Congresso Nacional, em fevereiro.
Na ata divulgada após a última reunião, realizada em dezembro, o Copom indicou que a Selic deverá ser mantida em 15% ao ano por um período prolongado. O objetivo, segundo o comitê, é assegurar a convergência da inflação para a meta estabelecida, sem sinalizar quando poderá ter início um ciclo de redução dos juros.
O documento destacou que o cenário segue marcado por “elevada incerteza”, exigindo cautela na condução da política monetária. No ambiente doméstico, apesar de sinais de desaceleração da atividade econômica, alguns preços continuam pressionados, especialmente os serviços, o que dificulta um movimento mais rápido de flexibilização.
De acordo com o boletim Focus, que reúne semanalmente as projeções de analistas do mercado financeiro, a taxa básica deve permanecer em 15% ao ano ao menos até março. Ainda assim, nos últimos dias cresceu a aposta em uma possível redução antecipada, impulsionada pela queda do dólar, que voltou a operar em torno de “R$ 5,20”.
O comportamento da inflação continua sendo acompanhado com atenção. A prévia do índice oficial, o IPCA-15, registrou alta de apenas 0,2% em outubro e acumula 4,5% em 12 meses, retornando ao teto da meta. O IPCA cheio de novembro será divulgado nesta quarta-feira e pode trazer novos sinais sobre a trajetória dos preços.
Segundo o Focus mais recente, a estimativa de inflação para 2025 recuou para 4,4%, ante 4,55% projetados há quatro semanas. O resultado fica ligeiramente abaixo do limite superior da meta contínua, definida pelo Conselho Monetário Nacional em 3%, com tolerância de até 4,5%.
A taxa Selic é referência para as negociações de títulos públicos federais no Sistema Especial de Liquidação e Custódia e influencia todas as demais taxas de juros da economia. Ela é o principal instrumento utilizado pelo Banco Central para controlar a inflação. A autoridade monetária atua diariamente no mercado aberto, comprando e vendendo títulos, para manter os juros próximos do nível definido pelo Copom.
Quando a Selic é elevada, o objetivo é conter a demanda aquecida, encarecendo o crédito e estimulando a poupança. Esse movimento tende a reduzir pressões inflacionárias, mas também pode dificultar a expansão da economia. Além da taxa básica, os bancos consideram fatores como risco de inadimplência, custos operacionais e margem de lucro na definição dos juros ao consumidor.
Em um cenário de redução da Selic, o crédito tende a ficar mais barato, incentivando consumo e produção. Esse estímulo favorece a atividade econômica, mas reduz o grau de controle sobre a inflação, exigindo maior cautela do Banco Central.
O Copom se reúne a cada 45 dias. No primeiro dia, são apresentadas análises técnicas sobre a economia brasileira e internacional, além do comportamento dos mercados financeiros. No segundo, os diretores debatem o cenário e definem a taxa.
Desde janeiro de 2025, o país opera sob o regime de meta contínua de inflação. A meta é de 3%, com intervalo de tolerância de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo. A verificação passa a ser feita mensalmente, com base na inflação acumulada em 12 meses.
No último Relatório de Política Monetária, divulgado em dezembro, o Banco Central manteve a projeção de que o IPCA encerre 2026 em 3,5%, estimativa que poderá ser revisada na próxima edição do documento, prevista para o fim de março.
Foto: Marcello Casal Jr / Agência Brasil

