Representantes do Poder Executivo e de diferentes segmentos da comunidade judaica reuniram-se nesta quarta-feira, no Palácio do Planalto, para discutir estratégias de enfrentamento ao antissemitismo no Brasil, com ênfase no papel da educação como instrumento central para prevenir crimes de ódio, preservar a memória histórica e fortalecer a democracia.

O encontro reuniu pesquisadores de universidades de cinco estados, rabinos, representantes de instituições como o Museu do Holocausto de Curitiba e integrantes de movimentos sociais, entre eles Judeus pela Democracia e Casa do Povo, além de diversos membros do governo federal envolvidos com políticas educacionais, culturais e de direitos humanos.

O presidente da República em exercício e ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Geraldo Alckmin, afirmou que o diálogo permanente é essencial para enfrentar todas as formas de discriminação e intolerância, destacando a contribuição histórica da comunidade judaica ao desenvolvimento científico, cultural, médico e empresarial do país.

Segundo Alckmin, a construção de propostas concretas deve ser feita de maneira coletiva e responsável. “Vamos trabalhar para que a gente possa avançar ainda mais, prestando não apenas justiça à comunidade judaica, mas principalmente promovendo valores que são essenciais à civilização”, declarou.

A ministra da Secretaria de Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, ressaltou que o combate ao antissemitismo integra o compromisso do governo Lula de enfrentar todas as formas de preconceito. Ela lembrou que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi o primeiro chefe de Estado brasileiro a realizar visita oficial a Israel, em dois mil e dez.

Gleisi Hoffmann afirmou ainda que a diplomacia brasileira defende a convivência pacífica e a solução de dois estados soberanos, Israel e Palestina, como caminho para a paz no Oriente Médio. Para a ministra, o enfrentamento ao ódio passa necessariamente pela educação e pelo fortalecimento das instituições democráticas.

A ministra dos Direitos Humanos e da Cidadania, Macaé Evaristo, destacou que há relação direta entre a preservação da democracia e o combate às manifestações de intolerância. Segundo ela, discursos de ódio corroem a confiança social e fragilizam as bases institucionais do Estado democrático de direito.

O presidente da Confederação Israelita do Brasil, Claudio Lottenberg, avaliou que a iniciativa ocorre em um momento delicado, marcado pelo crescimento do antissemitismo em várias partes do mundo. Para ele, o diálogo com o governo é fundamental para dar visibilidade ao problema e construir respostas conjuntas.

A educação foi apontada como eixo central das estratégias debatidas durante o encontro. Gleisi Hoffmann afirmou que políticas educacionais amplas e permanentes são capazes de enfrentar a intolerância de forma estruturada. “Uma proposta educacional pode ser ampla e transformadora”, disse, ao reforçar que a reunião já estava prevista desde o ano anterior.

A professora da Universidade de São Paulo, historiadora e escritora Lilia Schwarcz, que participou de forma remota, defendeu que a educação é uma das ferramentas mais eficazes no combate ao antissemitismo. Para ela, ações de denúncia e judicialização são importantes, mas insuficientes sem políticas públicas educacionais consistentes.

Lilia Schwarcz avaliou que o tema costuma aparecer de forma pontual nos currículos escolares, geralmente restrito ao estudo do Holocausto, o que limita a compreensão histórica e social do antissemitismo. Segundo ela, o enfrentamento deve ser entendido como um desafio da democracia brasileira, e não apenas de um grupo específico.

O Brasil mantém compromisso histórico com o repúdio ao antissemitismo e a todas as formas de discriminação étnica, racial e religiosa. Esse posicionamento está assegurado pela Constituição Federal e pela legislação infraconstitucional, que criminaliza práticas de preconceito e garante a liberdade religiosa em todo o território nacional.

Além das normas nacionais, tratados internacionais dos quais o Brasil é signatário, como a Declaração Universal dos Direitos Humanos e a Convenção Internacional contra a Discriminação Racial, reforçam o arcabouço jurídico de enfrentamento ao antissemitismo e orientam políticas públicas baseadas na educação, na empatia e no respeito à diversidade.

Os participantes defenderam continuidade do diálogo institucional, acompanhamento permanente das políticas educacionais e cooperação entre Estado, universidades e sociedade civil.

Foto: Valdenio Vieira


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