A executiva nacional do PSOL vai se reunir no próximo sábado, 8 de março, para decidir se o partido ingressará ou não na federação formada por PT, PV e PCdoB. A discussão ocorre em meio a um cenário de divisão interna entre diferentes correntes da legenda, que apresentam posições divergentes sobre a possibilidade de aliança com os partidos que compõem a base do governo federal.
De um lado do debate está a corrente Revolução Solidária, ligada ao ministro da Secretária-geral da Presidência, Guilherme Boulos, e à deputada federal Erika Hilton, de São Paulo. Esse grupo defende a entrada do PSOL na federação com as demais siglas de esquerda. Apesar da posição favorável, a corrente representa uma parcela menor da militância interna do partido.
Do outro lado estão alas como Primavera Socialista e Movimento Esquerda Socialista, que manifestam oposição à proposta de federação com o PT, PV e PCdoB. Lideranças dessas correntes afirmam que possuem maioria dentro da estrutura partidária e acreditam ter força suficiente para barrar a proposta durante a reunião da executiva nacional.
Uma das principais vozes contrárias à federação é o deputado federal Glauber Braga, do Rio de Janeiro. Segundo ele, a formalização de uma federação com o PT poderia comprometer a independência política do PSOL e limitar a atuação programática do partido.
Glauber argumenta que esse tipo de aliança estabelece compromissos eleitorais rígidos que acabam determinando não apenas o que o partido fará nas eleições, mas também o que deixará de fazer em termos de estratégia política.
Outro fator que pesa no debate interno é o cenário político do estado do Rio de Janeiro. O PT declarou apoio à candidatura do atual prefeito da capital fluminense, Eduardo Paes, do PSD, ao governo estadual. Dentro dessa composição, uma das vagas ao Senado deve ser ocupada pela deputada petista Benedita da Silva, o que gera insatisfação entre setores do PSOL que desejavam disputar posições na chapa majoritária.
O convite para que o PSOL integre a federação de partidos de esquerda foi feito pelo presidente nacional do PT, Edinho Silva. A proposta também está relacionada às exigências da cláusula de barreira, regra eleitoral que determina critérios mínimos de desempenho para que partidos tenham acesso ao fundo partidário e ao tempo de propaganda eleitoral.
Pelas regras atuais, nas eleições gerais será necessário eleger pelo menos 13 deputados federais distribuídos em um terço das unidades da federação ou alcançar 2,5% dos votos válidos em todo o país.
Na quarta-feira, 5 de março, o grupo Revolução Solidária divulgou um manifesto público defendendo a união das forças progressistas. No texto, os integrantes afirmam que construir uma esquerda unida não significa apagar diferenças internas, mas sim reconhecer que o cenário político exige convergência diante de ameaças representadas por correntes autoritárias e ultraliberais.
Segundo o manifesto, a formação de alianças entre partidos de esquerda seria uma estratégia para defender políticas públicas voltadas à população e ampliar a capacidade de enfrentamento político no Congresso Nacional.
A divulgação do documento, no entanto, foi seguida por um movimento interno de contestação dentro da própria corrente liderada por Boulos. Um grupo formado por 47 integrantes anunciou a saída da Revolução Solidária, alegando discordância com a insistência do ministro na proposta de federação com o PT.
No comunicado divulgado pelos dissidentes, os integrantes afirmam que houve mudança na orientação política do grupo nos últimos meses. Segundo o texto, parte da militância entende que a estratégia de aproximação com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva estaria ligada a projetos políticos futuros.
Procurado para comentar as críticas, Guilherme Boulos não respondeu. A deputada Erika Hilton informou que não poderia conceder entrevista naquele momento devido a questões de saúde.
Enquanto a corrente favorável à federação enfrenta dissidências, outras alas do PSOL trabalham para manter a atual federação com a Rede Sustentabilidade e defender o apoio à reeleição do presidente Lula nas eleições de 2026.
A vereadora de São Paulo Keit Lima afirma que Boulos e Erika Hilton estariam utilizando sua influência política dentro e fora do partido para pressionar as demais correntes a aceitar a proposta de federação, apesar de representarem cerca de 20% dos filiados da legenda.
Segundo ela, a situação ainda não representa um racha definitivo dentro do PSOL, mas reconhece que o aprofundamento das divergências pode gerar desgaste político entre as correntes.
Nos bastidores da legenda, algumas lideranças avaliam que Guilherme Boulos poderia, no futuro, deixar o partido caso a federação seja rejeitada. Interlocutores afirmam que a relação entre o ministro e setores do PSOL se deteriorou desde que ele assumiu cargo no governo federal, em meados de 2025.
Embora a executiva nacional tenha aprovado sua nomeação para a Secretaria-Geral da Presidência, grupos minoritários defenderam na época que a decisão deveria ter sido precedida por um debate interno mais amplo dentro do partido.
Procurada para comentar as divergências, a presidente nacional do PSOL, Paula Coradi, não se pronunciou até o momento. A expectativa é que a reunião da executiva nacional no sábado seja decisiva para definir o posicionamento da legenda sobre a proposta de federação.
Foto: Divulgação/ SGP

