A cigarrinha-do-milho se consolidou como o principal desafio sanitário da produção de milho no Brasil, causando prejuízos anuais estimados em cerca de 33,6 bilhões de reais. Os dados fazem parte de um estudo divulgado pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, que analisou o impacto da praga nas lavouras brasileiras nos últimos anos.
Segundo o levantamento, entre as safras de dois mil e vinte e dois mil e vinte e quatro, as perdas acumuladas chegaram a mais de 134 bilhões de reais. Esse impacto reflete uma queda média de 22,7% na produção no período, equivalente a cerca de 31,8 milhões de toneladas de milho por ano.
Na prática, isso significa que aproximadamente dois bilhões de sacas de sessenta quilos deixaram de ser produzidas anualmente. O prejuízo não se limita à redução da colheita, mas também envolve o aumento dos custos de produção, especialmente com o uso de inseticidas para controle da praga.
De acordo com o estudo, o custo com defensivos cresceu 19% no período analisado, superando nove dólares por hectare, o equivalente a cerca de quarenta e seis reais. Esse aumento pressiona a rentabilidade do produtor rural e amplia os desafios econômicos do setor.
A pesquisa foi publicada na revista científica internacional Crop Protection e contou com dados históricos da Companhia Nacional de Abastecimento, além da participação de especialistas da Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina e da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil.
O estudo analisou 34 municípios representativos das principais regiões produtoras do país. Em cerca de 80% dessas localidades, a cigarrinha-do-milho ou as doenças associadas foram apontadas como o principal fator para a queda de produtividade.
O inseto, conhecido cientificamente como Dalbulus maidis, atua como vetor de bactérias que causam os chamados enfezamentos do milho. Essas doenças comprometem o desenvolvimento das plantas, alteram sua coloração e reduzem significativamente a formação de grãos.
Os sintomas podem se manifestar de duas formas principais: o enfezamento pálido e o enfezamento vermelho. Em ambos os casos, há prejuízo direto na produtividade, podendo levar, em situações mais graves, à perda total da lavoura.
Um dos principais desafios apontados pelos pesquisadores é a ausência de tratamento preventivo eficaz contra a doença. Isso significa que, uma vez infectada, a planta dificilmente se recupera, tornando o controle da praga ainda mais complexo.Embora a cigarrinha seja conhecida desde a década de 1970, surtos mais intensos passaram a ser registrados a partir de 2015. Segundo especialistas, mudanças no sistema produtivo contribuíram para esse cenário.
A expansão da chamada safrinha, que permite o cultivo de milho em duas épocas no mesmo ano, e o plantio contínuo ao longo das estações criaram condições ideais para a proliferação do inseto e dos microrganismos que ele transmite.
O Brasil é atualmente o terceiro maior produtor mundial de milho e um dos principais exportadores do grão. A estimativa para a safra de dois mil e vinte e cinco a dois mil e vinte e seis é de cerca de 138,4 milhões de toneladas, com valor econômico próximo de 155 bilhões de reais.
Nesse contexto, os prejuízos causados pela cigarrinha têm impacto direto não apenas sobre os produtores, mas também sobre toda a cadeia produtiva. O milho é base para a alimentação de aves, suínos e bovinos, além de ser utilizado na produção de biocombustíveis.
A redução da oferta pode elevar os preços dos alimentos e afetar a competitividade do Brasil no mercado internacional. Para especialistas, o problema ultrapassa os limites das propriedades rurais e se torna uma questão econômica de alcance nacional.
Diante desse cenário, a Embrapa recomenda um conjunto de práticas para reduzir os danos causados pela praga. Entre elas está a eliminação do milho tiguera, que são plantas que nascem espontaneamente na entressafra e servem como hospedeiras do inseto.
Outra medida importante é a sincronização do plantio, evitando longos períodos de semeadura que favorecem a disseminação da cigarrinha entre diferentes lavouras. O uso de cultivares resistentes também é apontado como estratégia eficaz para manter níveis de produtividade.
Além disso, o manejo inicial com controle químico e biológico nos primeiros estágios da planta pode reduzir a infecção. O monitoramento constante das áreas cultivadas, de forma coordenada entre produtores, também é considerado essencial.
Pesquisadores destacam ainda o potencial do controle biológico, com o uso de fungos entomopatogênicos, que atuam como inimigos naturais da praga. Essa alternativa ganha importância diante do aumento da resistência da cigarrinha a determinados inseticidas.
A expectativa é que a adoção integrada dessas práticas permita reduzir os impactos da praga e garantir maior estabilidade à produção de milho no Brasil. Ainda assim, o desafio permanece elevado e exige atenção contínua do setor agrícola.
Foto: Charles Oliveira/Embrapa

