O governo brasileiro classificou como incompatível com a boa prática diplomática a decisão dos Estados Unidos de interromper as funções do delegado da Polícia Federal Marcelo Ivo de Carvalho em território norte-americano e reagiu com medida de reciprocidade envolvendo um agente dos Estados Unidos em atuação no Brasil. O episódio elevou a tensão diplomática em torno da cooperação bilateral em segurança e motivou manifestação formal do Ministério das Relações Exteriores.

Em nota, o Itamaraty afirmou que a medida adotada por Washington não foi precedida por pedido de esclarecimentos nem tentativa de diálogo, o que, segundo o governo brasileiro, contraria procedimentos previstos em memorando bilateral sobre intercâmbio de oficiais de ligação na área de segurança.

A resposta brasileira incluiu a retirada das credenciais diplomáticas de um policial norte-americano que atuava dentro de uma unidade da Polícia Federal em Brasília. Com a decisão, o agente deixa de ter acesso às instalações da corporação e a bases de dados utilizadas em operações de cooperação entre as autoridades dos dois países.

O diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, afirmou que o procedimento adotado segue o princípio da reciprocidade e reproduz o mesmo tratamento aplicado ao delegado brasileiro em Miami. Segundo o Itamaraty, a medida brasileira prevê a interrupção imediata do exercício das funções oficiais do representante norte-americano em área homóloga no território nacional.

Marcelo Ivo de Carvalho atuava como oficial de ligação da Polícia Federal junto ao Serviço de Imigração e Controle de Aduanas dos Estados Unidos desde março de 2023. Sua missão, inicialmente transitória, foi prorrogada em 2025. Em março de 2026, contudo, a Polícia Federal já havia formalizado sua substituição por outra delegada.

O delegado participou, em conjunto com autoridades norte-americanas, da ação que levou à prisão do ex-deputado Alexandre Ramagem em território dos Estados Unidos em 13 de abril. Ramagem foi solto 2 dias depois. O episódio é apontado como elemento central no contexto que antecedeu a decisão norte-americana.

Ramagem havia sido condenado em setembro de 2025 pelo Supremo Tribunal Federal, no mesmo processo em que o ex-presidente Jair Bolsonaro também foi sentenciado por crimes ligados à tentativa de golpe de Estado, organização criminosa e tentativa de abolição violenta do Estado democrático de direito.

Na avaliação do Itamaraty, a decisão dos Estados Unidos rompeu uma tradição de mais de 200 anos de diálogo diplomático entre os dois países. O ministério destacou que Brasil e Estados Unidos mantêm cooperação consolidada em segurança e que medidas dessa natureza deveriam ser tratadas por canais institucionais previstos nos acordos bilaterais.

A convocação de representante da embaixada norte-americana para prestar esclarecimentos reforçou o tom político da reação brasileira. Na reunião, segundo o governo, foram comunicados os termos da reciprocidade e reiteradas críticas ao caráter sumário da decisão adotada por Washington.

O episódio também levantou questionamentos sobre impactos na cooperação policial entre os dois países, especialmente em áreas como combate ao crime transnacional, tráfico e intercâmbio de inteligência. Embora não haja anúncio formal de ruptura, a retirada de credenciais e o endurecimento do discurso indicam momento de tensão.

Para analistas, a reação brasileira busca preservar a simetria institucional na relação bilateral e sinalizar que decisões unilaterais envolvendo mecanismos de cooperação terão resposta proporcional. Ao invocar o princípio da reciprocidade, o governo também procura enquadrar a reação dentro de normas tradicionais das relações internacionais.

Apesar do desgaste, fontes diplomáticas avaliam que o episódio tende a ser administrado por canais técnicos e políticos para evitar prejuízos permanentes à cooperação estratégica entre Brasil e Estados Unidos. Ainda assim, o caso introduz novo elemento de atrito em uma relação historicamente marcada por diálogo, mas sujeita a tensões em temas sensíveis de soberania e segurança.

Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil


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