Dois meses após assinar um termo de confidencialidade para negociar um acordo de colaboração premiada com a Polícia Federal e a Procuradoria-Geral da República, o banqueiro Daniel Vorcaro enfrenta um cenário cada vez mais delicado nas investigações relacionadas ao Banco Master. Integrantes da PF e da PGR avaliam que a primeira proposta apresentada pela defesa do empresário foi considerada insuficiente e marcada por omissões relevantes, justamente em um momento em que outros investigados também passaram a demonstrar interesse em colaborar com as autoridades em troca de benefícios judiciais.

A avaliação predominante entre investigadores é de que o conteúdo entregue até agora por Vorcaro não acompanha a quantidade de provas já reunidas ao longo da Operação Compliance Zero. Os investigadores entendem que celulares apreendidos durante as buscas revelam muito mais informações do que aquelas relatadas no esboço de delação entregue em maio. Entre os materiais analisados estão conversas encontradas nos aparelhos do próprio Vorcaro, do cunhado Fabiano Zettel e do ex-operador Phillipi Mourão, conhecido como Sicário.

Segundo investigadores, um dos principais pontos ausentes na proposta inicial de colaboração envolve a relação do banqueiro com o senador Ciro Nogueira. Relatórios da Polícia Federal apontam que o parlamentar teria sido beneficiário frequente de favores financeiros atribuídos ao dono do Banco Master. As investigações citam uso de imóvel em São Paulo, viagens internacionais, hospedagens, restaurantes e deslocamentos em aeronaves privadas. Reportagens publicadas nas últimas semanas também apontaram suspeitas sobre pagamentos mensais que poderiam alcançar R$ 500 mil. A defesa de Vorcaro preferiu não comentar o assunto. Já os representantes do senador afirmaram repudiar qualquer suspeita de irregularidade.

Outro tema que ampliou a pressão sobre o banqueiro envolve o senador Flávio Bolsonaro, pré-candidato à Presidência da República. Conversas divulgadas pelo site Intercept Brasil mostraram negociações relacionadas ao financiamento de um filme biográfico sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro. O projeto cinematográfico poderia alcançar R$ 124 milhões em investimentos. Flávio confirmou a existência de conversas com Vorcaro, mas negou qualquer ilegalidade nas tratativas envolvendo o projeto audiovisual.

Investigadores avaliam que tanto os fatos relacionados a Ciro Nogueira quanto as tratativas envolvendo Flávio Bolsonaro foram omitidos na primeira proposta apresentada pela defesa do banqueiro. Para integrantes da PF, isso enfraquece a credibilidade da colaboração e aumenta a percepção de que Vorcaro estaria tentando preservar personagens políticos considerados estratégicos. O entendimento dentro da investigação é de que, quanto mais o tempo avança e novas provas aparecem, menor se torna a margem para um acordo vantajoso ao empresário.

A colaboração premiada é considerada um instrumento de obtenção de provas que exige confissão de crimes e entrega de informações relevantes para o avanço das investigações. Em troca, o investigado pode receber benefícios como redução de pena, progressão diferenciada de regime e até preservação patrimonial em situações específicas. Desde o início das conversas, Vorcaro vinha apresentando duas exigências principais para colaborar: deixar o presídio federal de Brasília e garantir proteção jurídica aos familiares.

As negociações chegaram a avançar parcialmente no fim de março, quando o banqueiro foi transferido temporariamente para uma cela da Superintendência da Polícia Federal em Brasília. O ambiente menos rígido tinha como objetivo facilitar reuniões com advogados e integrantes da investigação durante as tratativas. A situação, porém, voltou a mudar nas últimas semanas. A Polícia Federal encaminhou ao ministro do Supremo Tribunal Federal André Mendonça um pedido para que Vorcaro retorne ao sistema penitenciário federal de segurança máxima.

A possibilidade de retorno ao presídio federal ocorre justamente em meio ao agravamento da situação jurídica da família do banqueiro. Na semana passada, a Polícia Federal prendeu Henrique Vorcaro, pai do empresário, durante a 6ª fase da Operação Compliance Zero. Segundo os investigadores, Henrique desempenhava papel central na estrutura conhecida como A Turma, apontada como braço operacional utilizado para monitorar adversários, intimidar desafetos e executar ações clandestinas em benefício dos interesses do Banco Master.

As investigações indicam ainda que Henrique Vorcaro teria atuado diretamente como operador financeiro do grupo investigado. A PF sustenta que uma conta bancária vinculada ao pai do banqueiro foi utilizada para ocultar cerca de R$ 2,2 bilhões de credores e vítimas das fraudes financeiras atribuídas ao esquema. A defesa de Henrique classificou a prisão como desnecessária e afirmou que pretende questionar judicialmente as medidas adotadas pela investigação.

A prisão do pai de Daniel Vorcaro também ampliou a pressão sobre as negociações envolvendo a colaboração premiada. Investigadores lembram que acordos semelhantes já incluíram proteção jurídica a familiares próximos. Um exemplo citado nos bastidores da investigação é o do tenente-coronel Mauro Cid, delator no caso da tentativa de golpe de Estado, que obteve benefícios envolvendo familiares ao firmar acordo com as autoridades.

Além do avanço das provas reunidas pela Polícia Federal, outro fator passou a preocupar diretamente a defesa de Vorcaro. Outros investigados começaram a negociar acordos próprios de colaboração premiada, criando uma corrida paralela dentro da investigação. Integrantes da PF afirmam que uma delação não necessariamente elimina outra, mas ressaltam que quem fecha acordo depois normalmente precisa apresentar informações novas e mais relevantes para obter benefícios equivalentes.

Nesse contexto, as tratativas envolvendo o ex-presidente do Banco de Brasília, Paulo Henrique Costa, são consideradas as mais avançadas neste momento. Preso há cerca de um mês, Costa é investigado sob suspeita de ter negociado o recebimento de R$ 146 milhões em imóveis para favorecer operações financeiras fraudulentas ligadas ao Banco Master. Pessoas próximas às negociações afirmam que o acordo de confidencialidade deve ser formalizado nos próximos dias.

A expectativa dos investigadores é de que Paulo Henrique Costa apresente detalhes sobre o fluxo financeiro do esquema tanto no Brasil quanto no exterior. As autoridades também esperam informações sobre recursos mantidos fora do país e sobre agentes públicos envolvidos nas negociações entre o Banco Master e o BRB. Segundo a investigação, operações financeiras que alcançaram R$ 12,2 bilhões teriam sido realizadas para dificultar fiscalizações do Banco Central e viabilizar a circulação de carteiras fictícias de crédito.

Relatos reunidos pela Polícia Federal apontam que Costa vinha se preparando há meses para uma eventual colaboração. Antes de ser preso, ele costumava circular em Brasília carregando documentos e teria criado um sistema de inteligência artificial para localizar mensagens específicas armazenadas em seu telefone celular. Após iniciar oficialmente as tratativas de delação, o ex-presidente do BRB foi transferido da Papuda para instalações do 19º Batalhão da Polícia Militar do Distrito Federal, conhecido como Papudinha, unidade considerada mais adequada para facilitar reuniões reservadas entre investigados, advogados e autoridades responsáveis pelas negociações. Nos bastidores, investigadores avaliam que os próximos depoimentos poderão redefinir completamente os rumos da investigação federal.

Foto: Banco Master


Avatar

administrator

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *