A Polícia Civil de São Paulo investiga suspeitas de que recursos públicos destinados ao programa municipal de internet gratuita possam ter sido utilizados para financiar a produção do filme “Dark Horse”, obra inspirada na trajetória política do ex-presidente Jair Bolsonaro. A apuração integra a Operação Wi-Fi, deflagrada nesta segunda-feira (1º), que tem como foco contratos firmados entre a Prefeitura de São Paulo e a ONG Instituto Conhecer Brasil (ICB).

Segundo os investigadores, existem indícios considerados relevantes de confusão patrimonial entre a ONG e empresas ligadas à empresária Karina Ferreira da Gama. Ela preside o Instituto Conhecer Brasil e também é proprietária da Go Up Entertainment, produtora responsável pelo longa-metragem. A suspeita central é que verbas públicas repassadas ao instituto tenham sido desviadas para finalidades distintas das previstas no contrato firmado com a administração municipal.

A operação cumpriu mandados de busca e apreensão em imóveis vinculados à empresária, nas sedes do instituto e da produtora cinematográfica, além de diligências realizadas na Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia da capital paulista. A ação foi autorizada pela Vara de Garantias da 1ª Região Administrativa Judiciária de São Paulo.

Em documento encaminhado ao Poder Judiciário, o delegado Antonio Carlos Munuera Silveira, responsável pelas investigações, sustenta que há elementos que justificam a ampliação da apuração financeira envolvendo Karina Ferreira da Gama e empresas relacionadas ao caso. O pedido inclui a quebra de sigilo bancário e o compartilhamento de informações financeiras produzidas pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf).

De acordo com a Polícia Civil, uma das principais linhas investigativas busca esclarecer se recursos do programa WiFi Live SP foram direcionados para a produção do filme por meio de uma rede de empresas contratadas pelo instituto. Os investigadores avaliam a possibilidade de que valores tenham sido transferidos por intermédio de prestadores de serviços e de outras organizações ligadas à empresária.

O Instituto Conhecer Brasil foi contratado pela Prefeitura de São Paulo para instalar pontos de internet gratuita em diferentes regiões da cidade. Como a entidade não atua diretamente na área de telecomunicações, houve a contratação de diversas empresas terceirizadas para executar parte dos serviços previstos no contrato.

Os documentos da investigação apontam que o volume total das subcontratações alcançou cerca de R$ 98 milhões. Entre os pagamentos analisados estão aproximadamente R$ 36 milhões destinados à empresa Make One e outros R$ 30 milhões transferidos à UltraIP. Também aparecem repasses próximos de R$ 12 milhões para as empresas Complexys e Fast Future, que, segundo a investigação, teriam ligação com um mesmo casal associado à empresária investigada.

Outro aspecto destacado pela Polícia Civil envolve os custos do projeto de internet pública. Conforme a apuração, o Instituto Conhecer Brasil teria cobrado valores significativamente superior aos praticados pela Prodam, empresa municipal responsável por tecnologia da informação. Enquanto a companhia pública cobra cerca de R$ 230 pela implantação de cada ponto e R$ 306 pela manutenção mensal, a ONG teria cobrado aproximadamente R$ 1.800 por ponto instalado.

Os investigadores também apontam suspeitas relacionadas a um repasse antecipado de cerca de R$ 26 milhões realizado pela administração municipal para serviços que, segundo a apuração, poderiam não ter sido executados integralmente no momento do pagamento. Para a Polícia Civil, a situação exige rastreamento detalhado da movimentação financeira para identificar a destinação final dos recursos públicos.

Outro elemento que despertou atenção dos investigadores foi o orçamento do filme “Dark Horse”. Segundo a apuração, os valores empregados na produção superariam os investimentos registrados em produções brasileiras recentes que alcançaram reconhecimento internacional, incluindo obras como “Ainda Estou Aqui” e “O Agente Secreto”.

Os autos do processo indicam ainda que a Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia foi notificada em 31 de março para apresentar documentos relacionados ao contrato firmado com o Instituto Conhecer Brasil. Entre os itens solicitados estavam relatórios de fiscalização, comprovantes de pagamento, notas fiscais e demais documentos referentes à execução do programa. Segundo a Polícia Civil, a ausência de resposta dentro do prazo estabelecido também foi utilizada como argumento para justificar medidas investigativas adicionais.

Em nota oficial, a Prefeitura de São Paulo informou que colabora com as investigações e permanece à disposição das autoridades. A administração municipal afirmou que todos os documentos requisitados já haviam sido disponibilizados anteriormente e que as informações relacionadas ao contrato estão disponíveis ao público por meio dos sistemas de prestação de contas.

A gestão do prefeito Ricardo Nunes também ressaltou que o programa WiFi Live continua funcionando normalmente. Segundo a prefeitura, dos 3,2 mil pontos atualmente contratados, apenas 52 estavam temporariamente fora de operação para manutenção na manhã da deflagração da operação.

O governo municipal contestou ainda as suspeitas levantadas pela investigação. Em nota, afirmou que não houve pagamento referente à instalação de 5 mil pontos de internet e que o aditivo contratual analisado refere-se à manutenção dos equipamentos já existentes. A administração destacou que o contrato passou por acompanhamento dos órgãos de controle e seguiu os princípios da legalidade, transparência e economicidade.

Até o momento, Karina Ferreira da Gama não se manifestou publicamente sobre as acusações e sobre os desdobramentos da Operação Wi-Fi.

Foto: Divulgação


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