O nevoeiro que cobria a Baía de Guanabara nas primeiras horas da manhã atrasou a saída da embarcação que levaria visitantes e autoridades até o Monumento Natural das Ilhas Cagarras, no litoral do Rio de Janeiro. A espera, porém, não diminuiu a expectativa de quem acompanharia a inauguração oficial da Trilha da Comprida, a primeira trilha insular implantada em uma unidade de conservação do estado e o primeiro trecho oceânico da Trilha Transcarioca.

Localizada na Ilha Comprida, uma das quatro principais ilhas que integram o arquipélago das Cagarras, a nova atração foi aberta ao público após anos de estudos, planejamento e recuperação ambiental. O percurso possui 1,2 quilômetro de extensão e apresenta nível de dificuldade entre moderado e alto, exigindo preparo físico e atenção às orientações de segurança. O acesso ocorre exclusivamente pelo mar.

A aventura começa antes mesmo da caminhada. Após a aproximação da embarcação, os visitantes precisam entrar na água e nadar cerca de 30 metros até alcançar as pedras da ilha. Em seguida, enfrentam uma subida pelo costão rochoso e percorrem uma trilha que atravessa áreas de vegetação e formações geológicas até chegar aos principais pontos de observação da paisagem.

A vista recompensa o esforço. Do alto da Ilha Comprida é possível contemplar parte da orla carioca, com destaque para as praias da Zona Sul, o Morro Dois Irmãos, a Pedra da Gávea, o Corcovado e o Pão de Açúcar. A silhueta das montanhas forma o conhecido desenho do “Gigante Adormecido”, um dos cartões-postais naturais mais conhecidos da cidade.

O Monumento Natural das Ilhas Cagarras está localizado a aproximadamente cinco quilômetros da Praia de Ipanema e é uma das principais áreas de preservação ambiental do litoral fluminense. Antes da criação da unidade de conservação, em 2010, as ilhas recebiam visitantes sem controle, sendo utilizadas para festas, churrascos e outras atividades que provocavam degradação ambiental e grande acúmulo de resíduos.

Flávio Carneiro, conhecido como Bagre, acompanha a história do arquipélago há mais de duas décadas. Escalador e frequentador das ilhas desde 2002, ele participou do grupo que, em 2012, começou a discutir a criação de uma trilha voltada ao ecoturismo controlado. Segundo ele, o cenário encontrado naquela época era preocupante.

Bagre lembra que, nas primeiras ações de limpeza promovidas por voluntários, eram retiradas centenas de quilos de lixo das ilhas. Pneus, grades metálicas, embalagens e diversos outros resíduos eram recolhidos constantemente. Com a criação da unidade de conservação e a fiscalização permanente, a situação mudou significativamente. Em uma das operações mais recentes de limpeza, segundo ele, nenhuma peça de lixo foi encontrada, resultado considerado histórico pelos participantes do projeto.

Para o escalador, a abertura da trilha representa muito mais do que um novo atrativo turístico. Ela simboliza a recuperação ambiental de uma área que permaneceu fechada por anos e oferece aos visitantes a oportunidade de conhecer um patrimônio natural de maneira responsável e sustentável.

A analista ambiental do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e gestora do Monumento Natural das Ilhas Cagarras, Tatiana Ribeiro, explica que a visitação organizada fortalece a preservação do arquipélago. Segundo ela, pessoas interessadas em ecoturismo costumam colaborar com a conservação, comunicando rapidamente qualquer irregularidade observada durante as visitas e contribuindo para a proteção da unidade.

A Trilha da Comprida passa a integrar oficialmente a Trilha Transcarioca, percurso de longo curso com aproximadamente 180 quilômetros de extensão que atravessa o município do Rio de Janeiro, ligando a Barra de Guaratiba ao Morro da Urca. Com a inauguração, o roteiro ganha seu primeiro trecho oceânico, ampliando as opções de contato entre visitantes e diferentes ecossistemas protegidos da capital fluminense.

Ao longo do percurso foram instaladas placas educativas que apresentam informações sobre a fauna, a flora, a geologia e a história da região. A sinalização também utiliza as tradicionais pegadas amarelas e pretas da Transcarioca, orientando os visitantes durante todo o trajeto e reduzindo os riscos de circulação fora das áreas autorizadas.

Segundo o gerente regional do ICMBio para o Sudeste, Breno Herrera, a abertura da trilha cria uma experiência inédita para quem deseja conhecer o Rio de Janeiro por outro ângulo. Ele destaca que o percurso exige preparo físico e respeito às normas de segurança, mas oferece uma paisagem singular, diferente daquela observada a partir das praias ou dos mirantes tradicionais da cidade.

Criado em 2010, o Monumento Natural das Ilhas Cagarras tem como principal objetivo preservar remanescentes da Mata Atlântica insular e proteger a rica biodiversidade existente no arquipélago. Além da vegetação característica, a área abriga espécies como a pererequinha-de-bromélia e possui importância internacional para a conservação das aves marinhas.

O local concentra a maior colônia reprodutiva de fragatas do Atlântico Sul e a segunda maior população de atobás-marrons da costa brasileira. Outras dezenas de espécies utilizam as ilhas para alimentação, descanso e reprodução ao longo do ano, tornando o arquipélago um importante laboratório natural para pesquisadores e observadores de aves.

As águas que cercam as ilhas também desempenham papel relevante na conservação da vida marinha. Baleias-jubarte, golfinhos e, ocasionalmente, orcas utilizam a região como área de passagem e alimentação. Durante a inauguração da trilha, os participantes ainda conseguiram observar uma baleia-jubarte ao longe, encerrando o passeio com um espetáculo proporcionado pela natureza.

A implantação da trilha começou a ser discutida em 2012 por pesquisadores da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio), integrantes do conselho gestor da unidade de conservação e técnicos do ICMBio. O projeto passou a integrar o Plano de Uso Público publicado em 2021 e, desde então, foram desenvolvidos estudos ambientais, protocolos de segurança, treinamento de condutores e capacitação de operadores de transporte marítimo.

O ICMBio recomenda que a visita seja realizada com empresas credenciadas para transporte aquaviário e com condutores autorizados, garantindo maior segurança aos visitantes e respeito às regras ambientais. Quem optar por organizar a visita por conta própria deve consultar previamente o Guia do Visitante e o Protocolo Operacional de Visitação, documentos que apresentam orientações detalhadas sobre equipamentos, condições do mar, preservação ambiental e condutas permitidas durante todo o percurso.

Com a abertura da Trilha da Comprida, o Monumento Natural das Ilhas Cagarras amplia as possibilidades de turismo sustentável no litoral carioca, conciliando preservação ambiental, educação ecológica e contato responsável com uma das paisagens mais emblemáticas do Rio de Janeiro. A expectativa do ICMBio é que a iniciativa fortaleça a conscientização sobre a importância da conservação da biodiversidade e transforme os visitantes em aliados permanentes da proteção desse patrimônio natural brasileiro.

Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil


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