Embora estejam inseridas em contextos sociais e econômicos diferentes e distantes entre si, o que têm em comum, em termos eleitorais, Uberlândia, Uberaba, Poços de Caldas, Pouso Alegre, Divinópolis, Ipatinga, Juiz de Fora, Governador Valadares, Teófilo Otoni e Montes Claros? Quatro anos atrás, o presidente Jair Bolsonaro (PL) venceu o primeiro e o segundo turnos da eleição nacional nas 10 cidades.

Em 2002, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que agora tenta chegar pela terceira vez ao Palácio do Planalto, também triunfou em todos os municípios listados nos dois turnos. Levantamento feito pelo Estado de Minas mostra que essa dezena de localidades ajuda a entender a máxima a respeito do papel de Minas Gerais como “pêndulo” das disputas presidenciais.

A reboque da estatística que aponta Getúlio Vargas, eleito em 1950, como o último presidenciável a chegar ao comando do Poder Executivo sem ganhar em solo mineiro, as 10 cidades, espalhadas por regiões como Triângulo, Sul, Vale do Aço e Zona da Mata, podem ajudar a definir os rumos do país nesta eleição.

Não foi à toa que Lula e Bolsonaro incluíram municípios da relação na lista de destinos de suas campanhas presidenciais. Na sexta-feira (23/9), o petista esteve em Ipatinga, no Vale do Aço; no mesmo dia, a cerca de 340 quilômetros dali, em Divinópolis, no Centro-Oeste, houve uma agenda do postulante à reeleição. Na semana retrasada, o roteiro do PT fincou bandeira em Montes Claros, no Norte, tradicional reduto do partido.

Do outro lado, entre julho e agosto, Bolsonaro visitou Juiz de Fora, na Zona da Mata, por duas vezes, além de somar uma ida a Uberlândia. A cidade do Triângulo também recebeu comício de Lula, mas durante o período pré-eleitoral, quando as candidaturas ainda não estavam oficializadas.

Sob reservas, um interlocutor do PT apontou ao EM projeção que trata da hipótese da vitória de Lula no primeiro turno por uma margem de 500 mil votos. Somadas, essas 10 cidades mineiras têm colégio eleitoral pouco superior a 2,3 milhões de pessoas.

As sucessivas derrotas de 2018, contudo, não preocupam o entorno lulista no estado. Para o deputado estadual Cristiano Silveira, presidente do diretório petista em Minas, locais como Uberlândia, Pouso Alegre e Ipatinga são fortemente influenciados pela conjuntura nacional.

Esses municípios foram impactados de maneira mais forte pelo antipetismo e pela questão da prisão de Lula. Bolsonaro ficou mais forte e a internet e as fake news parecem ter tido maior influência nos grandes centros”, diz, ao explicar as vitórias de Bolsonaro.

Em um cenário onde o antipetismo está arrefecido a patamares normais, Lula está inocente, liderando as pesquisas, e Bolsonaro enfrenta muitas contradições. Com o desastre que foi a gestão dele, isso é o que vai nos dar melhor desempenho”, emenda, acreditando num desempenho positivo do PT neste ano.

Em Divinópolis, onde esteve na quinta-feira, Bolsonaro venceu Fernando Haddad (PT) por 65,17% a 34,83%. A terra é o berço do deputado estadual Cleitinho Azevedo (PSC), que concorre ao Senado com o apoio do presidente e foi alçado ao posto por causa da necessidade do grupo bolsonarista de ampliar o leque de alianças no estado. O movimento sepultou a candidatura a senador do deputado federal Marcelo Álvaro Antônio (PL).

A gente espera que ele (Bolsonaro) tenha um resultado tão bom quanto em 2018. A nossa ideia é manter os bons números, inclusive em Divinópolis”, projeta o deputado estadual Bruno Engler (PL), componente do grupo Direita Minas, responsável por parte das recentes agendas de Bolsonaro no estado. “É um local com boa produção do agro, público que apoia o presidente”, explica.

A tendência é que os “10 a 0” a favor de Bolsonaro e de Lula, vistos em 2018 e 2002, respectivamente, não se repitam neste ano. “Esta eleição é completamente diferente da de 2018. Lula deve ganhar, mas não deve ganhar levando tudo. Bolsonaro tem uma chance de apertar o jogo levando regiões que historicamente não votam no PT, em especial o Sul do estado”, afirma Carlos Ranulfo, professor titular do Departamento de Ciência Política da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e membro do Observatório das Eleições.


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