Cristina Tardáguila

Foi inevitável assistir ao primeiro dia da CPMI do 8 de janeiro sem lembrar da CPI da Pandemia. Estavam lá diversos dados flagrantemente falsos – todos já devidamente checados pela Lupa –, bem como a tensão do depoente e o barulho dos parlamentares bolsonaristas. Mas o que realmente impressionou foi a diferença na condução do debate.

Arthur Maia (União-BA) e Eliziane Gama (PSD-MA), respectivos presidente e relatora da CPMI, precisam ajustar os ponteiros entre si com urgência e ganhar o público. Caso contrário, podem cair no esquecimento.

Quem assistiu à CPI da Pandemia, em 2021, vai lembrar que os senadores Omar Aziz (PSB-AM) e Renan Calheiros (PMDB-AL), presidente e relator da comissão, respectivamente, alternavam-se na posição de “policial bom e policial mau” e, assim, conseguiram manter sob controle (na maior parte do tempo) a plateia de críticos e desinformadores.

Foram às sessões municiados de documentos e chegaram a rebater – de forma uníssona e com dados científicos – os discursos estapafúrdios que questionavam a eficácia da vacina e sucesso do inaceitável tratamento precoce.

Aziz e Renan pareciam alinhados sessão após sessão e acabaram conquistando a atenção do público brasileiro. A CPI da Pandemia caiu na boca do povo e virou até figurinha de WhatsApp.

Com Maia e Eliziane, no entanto, está sendo diferente. “Vá gritar em outro lugar! Aqui, não, deputado!”, disse Eliziane, com o microfone em punho, depois de ter sido interrompida algumas vezes pela dupla de bolsonaristas Nikolas Ferreira (PL-MG) e Éder Mauro (PL-PA).

Presidente (em referência a Arthur Maia), eu não vou aceitar isso aqui!”, acrescentou a relatora, como se convocasse que seu par a apoiasse em público pela primeira vez.

E Maia reagiu mal. Respirou por uns segundos, pediu que Eliziane tivesse paciência e decretou que a sessão ficaria suspensa por cinco minutos de forma a que os ânimos se acalmassem.

Ao retomar a palavra, depois do intervalo, o deputado pontuou a importância da ordem e disse que, com aquele “nível de desinteligência”, seria difícil avançar. Não ficou claro de quem falava e para quem era o pito: se para os deputados bolsonaristas que berravam ao fundo, se para o depoente que havia interrompido Eliziane diversas vezes ao longo da manhã ou se para a própria relatora. A falta de clareza não foi boa para ninguém.

Nos cinco minutos do intervalo de Maia, pipocaram em grupos públicos de WhatsApp mensagens que sugeriam que Eliziane era parte da “fauna do sofrido Maranhão”, uma pessoa que não se importa com “velhinhos e velhinhas”.

Depois, passaram a circular nas redes imagens da parlamentar seguidas de um texto que sugeria que ela havia obstruído a Justiça por impedir a convocação do general da reserva Gonçalves Dias para a CPMI.

Mas o militar, que chegou a integrar o Gabinete de Segurança Institucional (GSI) do governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e estava em Brasília no dia 8 de janeiro, teve sua convocação aprovada pela comissão.

Desinteresse da população

O primeiro dia da CPMI do 8 de janeiro também chega ao fim sem conquistar apelo popular. Dados extraídos do Google Trends no começo da tarde mostram que o assunto nem seus principais personagens apareceram na lista dos temas mais buscados no Google Brasil.

A morte do comentarista esportivo Morsa destacou-se durante toda manhã, apesar de os canais a cabo do país terem transmitido a sessão da CPMI ao vivo, exatamente como fizeram com a CPI da Pandemia.

É bem verdade que as sessões mais aguardadas dessa comissão são as que terão como depoente o ex-ministro da Justiça Anderson Torres, o coronel Mauro Cid, ex-ajudante de ordens de Jair Bolsonaro (PL), e obviamente o general Gonçalves Dias.

Mas, para que consigam revelar de forma clara o que levou aos ataques de Brasília, Maia e Eliziane precisam se alinhar.

Ele deve entender que o fato de ter uma mulher como relatora altera as regras do jogo, infelizmente. Afinal, quem disse que os bolsonaristas estão dispostos a deixar uma mulher falar? Ainda mais se ela for contrária aos seus interesses.

Eliziane, por sua vez, deve se preparar para enfrentar a militância – online e offline. A horda já desponta no horizonte. Para tanto, deverá atuar de forma objetiva e clara.

Qualquer disputa partidária ou ideológica precisa ficar do lado de fora da sala da CPMI. O que está em jogo não é partido A ou B. A meta é entender os ingredientes que levaram à depredação da capital federal e conseguir impedir que eles se repitam. Condenar os responsáveis vem em terceiro lugar.


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