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A alta da inflação ao redor do mundo tem assolado tanto economias desenvolvidas quanto emergentes. Para especialistas, a elevação deste indicador se deve, principalmente, ao desajuste das cadeias produtivas em meio a eventos de impacto mundial, como a atual guerra da Rússia na Ucrânia e a recente pandemia da covid-19. Além do mais, não há expectativas de rápida baixa para os preços.

A preocupação com a inflação no mundo tem elevado inclusive os temores sobre uma recessão global. Isso porque, para controlar a alta de preços, diversos bancos centrais estão elevando juros. Taxas mais altas tendem a desmotivar o consumo, o que deve inibir a alta de preços, mas também esfria a atividade da economia – ou seja, prejudica o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB).

As preocupações ganham força em meio às expectativas de especialistas de que a alta da inflação não deva ser solucionada no curto prazo. Para Marília Fontes, economista e sócia-fundadora da Nord Research, o aumento da inflação decorrente da guerra deverá ser algo permanente porque, uma vez que o conflito acabe, “o ocidente vai ficar muito receoso em fazer comércio com a Rússia, porque, querendo ou não, estaria financiando a economia russa, financiando o próprio poder bélico”.

“A Rússia é o maior produtor de commodity global. Tirá-la do globo, da globalização, das cadeias produtivas, do fornecimento energético… é altamente inflacionário. Este impacto não vai a lugar nenhum, este impacto é permanente, pelo menos nos próximos anos”, comenta Fontes.

Ela também explica que os problemas de abastecimento devido à quebra na produção durante a pandemia ainda não acabaram e que talvez sejam resolvidos, neste sentido, até o fim do ano que vem. “Ainda temos bastante tempo até a estabilização dos estoques mundiais de produtos”.

Na mesma linha, o economista e analista Fabio Louzada, da Eu me Banco, reforça que a alta da inflação no mundo é, obviamente, um reflexo da guerra – já que os países em conflito são grandes produtores de commodities. E que a elevação de preços dos produtos e o aumento dos prazos de entrega devido ao baixo abastecimento durante a pandemia ainda não foram superados.

“Ainda estamos vivendo sim consequências econômicas da covid-19, principalmente com a China decretando lockdowns“, acrescenta o economista.

Níveis de inflação ao redor do mundo

Em 12 meses até maio, de acordo com o Trading Economics, muitas das maiores e das menores economias do mundo apresentaram alta na inflação.

Entre os ricos, por exemplo, os Estados Unidos registraram uma inflação 8,6% e a Alemanha, de 7,9%. Na Rússia, os preços dispararam 17,1%. Já entre os pobres, como a Nigéria e Moçambique, a inflação ficou em 17,1% e 9,31%, respectivamente.

Recessão pode aliviar a inflação?

Enquanto aumenta a preocupação de que o combate à inflação com a alta de juros gere recessão, outra possibilidade é a própria recessão servir de ingrediente para controlar os preços.

As recessões são fases de encolhimento da economia, isto é, momentos em que indicadores como taxa de emprego, renda média familiar e níveis de produção caem. Assim, o poder de compra das pessoas é reduzido, o que tende a fazer a inflação diminuir.

Mas, mesmo em meio a perspectivas de recessão, especialistas não enxergam sinais de alívio para a inflação por enquanto.

Fontes, da Nord, explica que, se houver alguma recessão agora, ela será técnica – que é uma crise baseada em dois trimestres consecutivos do PIB negativo, descontado da inflação. Isso não quer dizer que a economia não esteja aquecida ou esteja fraca.

Ela esclarece que esse real tipo de crise é definida por diversos indicadores, não só o PIB. “A recessão que faz com que os preços caiam de forma consistente é a recessão com baixo crescimento, mas vindo de uma queda no consumo, vindo de um aumento do desemprego, vindo de uma piora nos salários. Essa é a recessão que controla a inflação, mas quando você olha os dados dos Estados Unidos, o mercado de trabalho americano nunca esteve tão apertado, tão aquecido”, comenta.

A economista ainda acrescenta que no mercado americano as vendas do varejo estão em crescimento. Portanto, os dados ainda estão muito fortes, “o que não indica uma recessão suficiente para controlar a inflação, mas sim uma recessão técnica de uma inflação que temporariamente ficou acima do que foi visto de crescimento”.

Por sua vez, Louzada acredita o contexto de recessão técnica pode, sim, trazer uma redução da inflação. “O mercado já precifica e antecipa o temor da recessão econômica, o que pode ser visto com a queda das commodities nos últimos dias. Isso faz com que o mercado perceba um alívio da inflação. Enquanto o Brasil se adiantou ao subir juros, os EUA estão no início do processo e esse atraso aumenta cada vez o risco de recessão econômica. O que vemos é que a recessão é consequência de uma inflação elevada e persistente“, avalia o economista.

Então, o que esperar da inflação no mundo?

Para Fontes, da Nord Research, “a inflação mundial vai ser ainda mais desafiadora do que o mercado pensa”. Ela comenta que houve, por muito tempo, um mundo importando deflação, principalmente com a entrada da China no comércio mundial.

“O mercado de trabalho chinês no comércio mundial tem o custo de mão de obra mais barato, extremamente barato”, explica.

No entanto, agora, segundo ela, há um efeito inverso. “A China está com uma nova classe média que é mais cara, que consome… e, portanto, aumenta o preço da energia”, o que faz todos os outros custos aumentarem.

A economista aponta que a desglobalização recorrente da guerra comercial entre os países também deve influenciar nos movimentos do indicador. Ela reforça que a estabilidade geopolítica que as cadeias produtivas tiveram ao se unir não é mais a mesma.

Para o economista Louzada, da Eu me Banco, em 2023 “a inflação no mundo deve continuar alta devido, principalmente, devido à guerra na Ucrânia, que não parece estar perto do fim”.

Ele também observa que, na União Europeia (UE), houve corte na previsão de crescimento na zona do euro para este ano e 2023, e os países membros estão pensando só agora em aumentar os juros.

Por último, ele ainda pontua que, “na China, apesar do governo afirmar que mantém a meta de crescimento para 2023, o país vive com restrições constantes por causa da covid-19, o que está impactando a economia local e mundial. Muitos analistas também estão estimando a desaceleração da economia chinesa“.

O que esperar para o Brasil?

Louzada explica que, no Brasil, as eleições podem provocar ainda mais volatilidade no mercado, “mas a macroeconomia mundial tem impactado muito mais hoje do que as questões internas”.

De acordo com o economista, a aprovação da Proposta de Emenda Constitucional (PEC) que aumenta as despesas do governo com o pagamento de benefícios sociais, a chamada “PEC Kamikaze“, irá estimular a economia e o consumo, mas poderá agravar os problemas para a inflação.

Já para Fontes, ao se pensar sobre esses efeitos globais que causam aumento da inflação no Brasil, o país terá que tomar praticamente as mesmas direções que as economias mais desenvolvidas.

“Se a taxa de juros americana sobe, independente do nosso risco Brasil permanecer estável, a nossa taxa de juros tem que subir também. Se ela não sobe, a gente se torna menos atrativo aos olhos dos gringos e o nosso câmbio desvaloriza. E a desvalorização cambial impacta no preço do dólar e na inflação e obriga o Banco Central a subir mais juros”, comenta.


Paola Tito

editor

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