Em depoimento prestado nesta terça-feira ao Supremo Tribunal Federal (STF), o ex-ministro da Justiça Anderson Torres declarou que a Polícia Federal (PF), órgão sob sua gestão durante o governo de Jair Bolsonaro, nunca encontrou qualquer indício de fraude nas urnas eletrônicas. Torres é um dos oito réus no processo que apura a trama golpista contra o resultado das eleições de 2022.
“Eu sempre passei isso, que tecnicamente nós não tínhamos nada a passar ao presidente \[Bolsonaro] sobre urnas eletrônicas”, afirmou Torres durante o interrogatório conduzido pelo ministro Alexandre de Moraes, relator do caso.
O ex-ministro declarou ainda que jamais participou de reuniões ou tratativas que discutissem uma eventual tentativa de ruptura institucional. Ele também negou ter orientado a delegada da PF Marília Ferreira Alencar, então diretora de Inteligência do Ministério da Justiça, a produzir relatórios de “Business Intelligence”, (BI) com os resultados de municípios onde Luiz Inácio Lula da Silva obteve mais de 75% dos votos — material que, segundo a denúncia da Procuradoria-Geral da República (PGR), poderia servir para direcionar politicamente ações da Polícia Rodoviária Federal (PRF) no segundo turno.
Segundo Torres, a elaboração dos relatórios partiu exclusivamente de iniciativa da delegada. “Após o primeiro turno das eleições, a doutora Marília produziu alguns BIs que traziam uma métrica de 75% de votos dos candidatos em alguns estados versus o partido político do prefeito, como se isso fosse um indício de crime eleitoral. Eu entendi que aquilo não representava um indício e que era normal em alguns locais um determinado candidato fazer mais de 75% dos votos. Isso foi de imediato descartado”, relatou.
A versão de Torres, contudo, diverge dos elementos reunidos pela PF e apresentados pela PGR, que apontam o uso desses cruzamentos de dados para orientar ações da PRF.
Torres também afirmou que nunca interferiu politicamente no trabalho da PRF. Sobre cruzamentos de dados envolvendo facções criminosas e resultados eleitorais, ele afirmou que esses materiais não foram utilizados operacionalmente.
O ex-ministro foi ainda questionado sobre a minuta golpista encontrada em sua residência. Torres disse desconhecer a autoria do documento e alegou que não tinha conhecimento de seu conteúdo. “Isso [a minuta golpista] foi colocado na minha casa para ser descartado. Nunca tratei disso com o presidente da República ou com qualquer outra pessoa. O documento chegou ao meu gabinete no Ministério da Justiça, foi levado pela minha assessoria e acabou na minha casa. Era um texto muito mal escrito, cheio de erros de português e até com o nome do tribunal errado. Não sei quem fez, quem mandou fazer e nunca discuti esse assunto”, concluiu.
Foto: Ton Molina/STF

