A divulgação da ata mais recente do Comitê de Política Monetária do Banco Central reforçou a percepção de que um corte da taxa básica de juros já em janeiro está mais distante. Embora o documento reconheça sinais de desaceleração gradual da atividade econômica e uma surpresa positiva no comportamento recente da inflação, o tom adotado foi de cautela, indicando que o colegiado ainda não se sente confortável para iniciar o ciclo de flexibilização monetária no curto prazo. Economistas avaliam que o Copom prefere aguardar novos dados antes de mudar a estratégia.
Segundo Caio Megale, economista-chefe da XP, a mensagem central da ata pode ser resumida como um alerta de que “ainda não é hora de baixar a guarda”. Para ele, o Banco Central reconheceu avanços importantes, como a moderação da atividade e números de inflação melhores do que o esperado no início do ano, mas deixou claro que os riscos inflacionários ainda exigem prudência. “A política monetária está funcionando. Ainda assim, os vetores inflacionários se mantêm adversos, exigindo cautela à frente”, afirmou.
Na avaliação de Megale, o texto sinaliza a necessidade de manter a Selic em patamar elevado por um período prolongado, como forma de consolidar o processo de desinflação. “Em outras palavras, o Comitê não parece inclinado a iniciar o ciclo de corte de juros em janeiro, apesar da melhora recente no cenário inflacionário”, avaliou. Para ele, a autoridade monetária busca reforçar a convergência da inflação à meta antes de qualquer movimento de flexibilização.
O economista também destaca que o Copom segue descrevendo o ambiente externo como incerto, ao mesmo tempo em que observa sinais de perda de fôlego no consumo das famílias no cenário doméstico. Apesar disso, o mercado de trabalho ainda é visto como bastante apertado, mesmo com indícios iniciais de moderação. Esse conjunto de fatores contribui para a postura mais conservadora adotada pelo Comitê.
No campo inflacionário, Megale chama atenção para o fato de que, apesar das leituras recentes mais favoráveis, as expectativas seguem acima da meta em todos os horizontes relevantes. “A ata ressaltou que os vetores inflacionários se mantêm adversos”, observou. Ele acrescenta que, ao afirmar que o cenário exige uma política monetária significativamente contracionista por um período bastante prolongado, o Copom deixa claro que precisa de mais tempo e mais informações antes de iniciar cortes.
Com base nessa leitura, a XP projeta que o início do ciclo de cortes deve ocorrer apenas em março. “Entendemos que a ata é consistente com o nosso cenário de início dos cortes em março, com seis reduções consecutivas de 0,50 ponto percentual, levando a Selic a encerrar 2026 em 12,00%”, afirmou Megale.
Rafaela Vitória, economista-chefe do Inter, também avalia que um corte em janeiro se tornou menos provável e dependerá de uma mudança significativa na visão do Comitê. Para ela, isso exigiria uma melhora adicional no cenário inflacionário, incluindo a continuidade da queda das expectativas, que ainda são um ponto de incômodo para o Copom. Segundo Rafaela, a ata trouxe avanços importantes ao reconhecer a melhora do ambiente atual.
Ela destaca que o cenário externo se tornou mais benigno, especialmente por meio do comportamento do câmbio, o que favorece a desaceleração da inflação de bens industriais e alimentos. “Além disso, os indicadores de atividade apontam uma moderação, refletindo na desaceleração da inflação de serviços, ainda que de maneira lenta”, afirmou.
Apesar desse reconhecimento, Rafaela observa que o Copom não alterou o balanço de riscos nem abriu discussão explícita sobre o início dos cortes. “A estratégia continua sendo a manutenção dos juros, sem qualquer indicação de ‘timing’ ou gatilhos para o início da flexibilização”, disse.
Felipe Tavares, economista-chefe da BGC Liquidez, avalia que os dados recentes mostram um arrefecimento do consumo das famílias, ajudando a ancorar a demanda agregada e a fechar o hiato do produto. No entanto, ele ressalta que o mercado de trabalho segue desafiador e permanece no centro das preocupações do Banco Central. “O BC voltou a colocar o mercado de trabalho como prioridade máxima”, afirmou.
Para Tavares, embora os fatores necessários para dar conforto a um corte em janeiro estejam presentes, o tom final da ata indica vigilância contínua. “O BC deixa a entender que o ciclo de cortes deve começar em março de 2026”, avaliou, destacando que essa também é a projeção da BGC.
Na visão do Goldman Sachs, o Copom demonstrou encorajamento com a evolução do cenário base, mas considera que ainda é cedo para declarar vitória sobre a inflação. O banco avalia que há sinais crescentes de que a política monetária está funcionando pelos canais tradicionais de transmissão. “A atividade está gradualmente se moderando, especialmente em setores mais sensíveis ao crédito, enquanto segmentos ligados à renda e ao mercado de trabalho seguem mais resilientes”, aponta a análise.
Segundo o Goldman, a ata não traz qualquer indicação de que o ciclo de normalização possa começar em janeiro. “Para isso, seria necessário sinalizar essa intenção até a próxima reunião ou observar uma melhora relevante no balanço de riscos ou dados macro significativamente mais benignos”, afirmou o banco, que projeta o início dos cortes em março, com redução de 50 pontos-base e Selic encerrando 2025 em 12,50%.
Apesar do consenso crescente em torno de março, ainda há quem veja janeiro como uma possibilidade remota. Para Natalie Victal, economista-chefe da SulAmérica Investimentos, a ata mantém janeiro no radar, ainda que como alternativa menos provável. “Achei a ata com mais sinais dovish do que o comunicado, porque suavizou a ênfase na desaceleração da atividade”, avaliou.
Natalie destaca que o texto retirou referências que indicavam projeções acima da meta e enfraqueceu o tom sobre expectativas desancoradas. “Isso ajuda janeiro”, afirmou. Por outro lado, ela reconhece que o foco no estudo do mercado de trabalho e a ausência de qualquer debate explícito sobre cortes enfraquecem essa possibilidade. “A discussão sobre a proximidade de corte simplesmente não existiu nessa ata”, concluiu.
Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil

