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O grande foco dos investidores em relação aos balanços dos bancos no segundo trimestre deve ser a deterioração da qualidade dos ativos. Com a greve dos servidores do Banco Central (BC) tendo prejudicado a divulgação de indicadores, não está claro quanto a inadimplência deve piorar. Algum aumento é esperado nos grandes bancos, mas os analistas não preveem grandes saltos, até porque a atividade econômica tem se saído um pouco melhor do que o previsto. Já nos bancos digitais, a situação é mais complicada. Enquanto isso, o crédito deve ter leve desaceleração e as receitas de tarifas tendem a seguir melhorando.

De acordo com as projeções de seis casas ouvidas pelo Valor, o lucro conjunto de Itaú, Bradesco, Santander e Banco do Brasil deve somar R$ 24,496 bilhões de abril a junho. Isso representa uma queda de 1,2% em relação ao trimestre imediatamente anterior e uma alta de 12,7% na comparação anual.

Para os analistas da XP, de forma geral o segundo trimestre deve ser positivo para os bancos incumbentes, impulsionados principalmente pelo robusto crescimento de crédito e com a receita com prestação de serviços em recuperação. Por outro lado, deve haver ligeiro aumento da inadimplência e consumo gradual do índice de cobertura.

“Esperamos que a margem financeira bruta se beneficie marginalmente da recente reprecificação da concessão de crédito decorrente do patamar mais elevado da taxa de juros, com destaque para as linhas relacionadas ao consumo e agronegócio (cartão de crédito, cheque especial e crédito rural)”, diz a XP em relatório. Segundo seus analistas, apesar da maior concorrência trazida pelas fintechs, a receita dos bancos com prestação de serviços deve continuar se beneficiando da retomada gradual da atividade econômica, com destaque para o segmento de cartões, compensando a menor receita no mercado de capitais.

O J.P. Morgan tem uma visão parecida e diz que a inadimplência deve ser mesmo o grande foco. “Nós esperamos que os empréstimos ao consumidor sem garantia e cartões de crédito continuarão sob pressão, com a inflação elevada e a alavancagem das famílias. Dados do Banco Central de abril mostram piora nas operações de risco nas categorias ‘E-H’ para Bradesco, Inter e Nubank, enquanto Itaú e Banco do Brasil podem apresentar tendências de melhor qualidade de ativos”, afirma em relatório. “Espera-se que os bancos registrem um crescimento de lucro por ação de 8% na comparação anual, com margens melhores, embora a deterioração de qualidade dos ativos deva estar no centro das atenções”, corrobora o Bank of America (BofA).

Para o UBS BB, indicadores antecedentes apontam para uma piora da inadimplência, embora o ritmo de deterioração provavelmente não seja tão forte como se viu no primeiro trimestre. Eles preveem uma alta média de 0,2 a 0,3 ponto percentual no índice dos grandes bancos, mas com melhora nas margens com clientes. Com isso, a inadimplência da maioria provavelmente ficará no mesmo nível do período pré-pandemia, ou um pouco mais alto. “No segundo semestre, acreditamos que uma deterioração adicional da qualidade dos ativos é provável, embora em ritmo menor.”

Se nos grandes bancos o aumento da inadimplência deve ser um pouco menor do que no primeiro trimestre, nas instituições digitais a deterioração na qualidade dos ativos deve continuar forte. O BofA prevê que a inadimplência do Nubank subirá novamente 0,5 ponto, para 4,7%, puxada pelo crédito pessoal, enquanto os cartões de crédito devem continuar se mostrando mais resilientes. “Essa dinâmica, aliada à piora do ambiente macro, está limitando o apetite ao risco, desacelerando o crescimento da carteira de crédito”. Eles preveem que a fintech conquistará 5,5 milhões de clientes no período, com um lucro ajustado de R$ 23 milhões.

Para o Itaú BBA, nesse cenário o Banco do Brasil é o vencedor relativo, por ter uma carteira menos cíclica e tendências mais fortes para a margem financeira. Já bancos digitais, como Nubank e Pan, podem sofrer mais, devido à alta concentração de crédito no varejo e custos de captação. “O Bradesco pode sentir algum alívio se a inadimplência do varejo desacelerar o suficiente para compensar a provável pressão sobre PMEs. O Santander é nossa principal recomendação para evitar, devido aos baixos índices de coberturas”, dizem os analistas.

O BB deve ser o destaque do trimestre, com alta anual de 26% no lucro. Na avaliação dos analistas do BTG, o lucro do BB no segundo trimestre provavelmente será estável ou até superior ao do primeiro trimestre, o que implica que o resultado de 2022 pode ficar acima do “guidance”. “Se o lucro este ano ficar próximo do teto do guidance, a ação seria negociada abaixo de 4,0 o múltiplo preço/lucro, apesar de nos últimos dois anos a governança corporativa ter melhorado e sua carteira de crédito ter crescido abaixo de seus pares, garantindo um sólido índice de capital. Tudo isso faz do BB nossa ‘top pick’ entre os bancos incumbentes.”

O resultado do Itaú deve aumentar 14% na comparação anual. O UBS BB diz que a margem com clientes se recuperou significativamente nos últimos trimestres, tendência que deve continuar no período de abril a junho. E aponta que o guidance do Itaú indica expansão da margem com clientes de 22% este ano. Já a margem com mercado deve desacelerar um pouco na passagem do primeiro para o segundo trimestre, mas ainda assim ficar perto do teto do guidance para este ano.

No Bradesco, o lucro deve subir 13,1% na comparação anual. Analistas preveem uma expansão considerável na margem com clientes, devido ao aumento dos spreads e um mix mais arriscado. Por outro lado, a margem com mercado deve ficar próxima de zero, levando a margem financeira geral a cair. A inadimplência deve subir um pouco, mas há receio com uma eventual marcação a mercado de títulos de renda fixa.

“Prevemos que a inadimplência continue se deteriorando (alta de 0,2 ponto em três meses) e os encargos de provisão permaneçam em linha com o primeiro trimestre, mas vemos espaço para surpresas negativas em ambos. Espera-se que as receitas de tarifas cresçam limitados 4% na comparação anual, com bom desempenho dos cartões parcialmente compensado por taxas de conta corrente fracas, enquanto os resultados de seguros devem dobrar em comparação com o ano anterior, em função da base de comparação baixa”, diz o BofA.

O Santander tende a ser o único a registrar queda anual no lucro, com baixa de 5,8%. Com um índice de cobertura abaixo dos pares, deve ser obrigado a elevar as provisões para devedores duvidosos no segundo trimestre. Além disso, a alíquota efetiva de impostos, que ficou muito baixa no primeiro trimestre, deve subir um pouco agora. “Uma margem financeira levemente maior deve ser parcialmente compensada por provisões ligeiramente maiores no trimestre, à medida que a qualidade dos ativos deve continuar a se deteriorar”, diz o Goldman Sachs.


Paola Tito

editor

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