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O aumento persistente das cotações de commodities, como alimentos e petróleo, e expectativas de preços na economia para os próximos anos ainda desancoradas se somam ao risco fiscal doméstico e ao contexto mundial mais desafiador para compor o cenário no qual o Banco Central (BC) decide hoje a nova taxa básica de juros, a Selic.

Essa soma de fatores ainda alimentando a inflação deve pressionar o Comitê de Política Monetária (Copom) do BC a elevar a taxa básica de juros em 1,5 ponto percentual nesta quarta-feira, quando termina a sua reunião de dois dias.

Com o novo aumento, a Selic deve sair dos atuais 9,25% para 10,75% anuais, em linha com o que o próprio Copom sinalizou em sua última reunião. Será a primeira vez desde julho de 2017 que o juro básico do país voltará à casa dos dois dígitos.

Para a reunião desta quarta, é consenso entre agentes do mercado uma elevação de 1,5 ponto percentual. Levantamento do Globo com 21 instituições mostra unanimidade em torno dos 10,75%.
— Está dado que o Copom deve elevar a Selic em 150 pontos-base amanhã.

A razão é por causa da desancoragem das expectativas de inflação. Isso acaba fazendo com que o BC tenha que priorizar o controle da inflação em detrimento da atividade econômica para que possa estabilizar o ambiente macroeconômico — disse o estrategista-chefe do Mizuho, Luciano Rostagno.

Qual será o teto para a Selic?

O fato de a prévia da inflação oficial, o IPCA-15 de janeiro, ter vindo acima das expectativas e com núcleos e difusão piores do que o esperado aumentou as preocupações do mercado.

Além disso, a continuidade da alta das commodities no exterior, como é o caso do petróleo, e pressões internas sobre os preços dos alimentos por problemas nas safras acentuam as pressões inflacionárias. Isso sem citar o risco fiscal e seus efeitos negativos para o câmbio e, por tabela, para a inflação.

O economista da Rio Bravo Investimentos, João Leal, destaca que o dado acima do esperado em janeiro ainda vai pesar bastante na decisão do Copom. Ele também cita a preocupação do banco em manter as expectativas para a inflação nos próximos anos ancoradas, após não ter conseguido cumprir sua meta em 2021.

— Essas surpresas inflacionárias nos últimos meses têm afetado as expectativas de inflação de 2023, que é o ano que tem mais peso para as decisões do Copom. E essas expectativas já mostram uma pequena desancoragem frente à meta de 3,3% para o ano que vem.

Leal ainda projeta que o teto da Selic seja atingido em março. No entanto, apenas o arrefecimento dos preços nas próximas divulgações é que, de fato, indicará, até onde a taxa básica pode chegar neste ano. A chefe de economia da Rico, Raquel de Sá, ressalta que o atual cenário macroeconômico ainda impõe ao BC a adoção de uma política monetária contracionista.

— A nossa expectativa é que o teto seja 11,5%, não porque acreditamos que o banco vai ser leniente, mas porque olhando para a inflação de 2022 e 2023, esse é um aperto suficientemente grande para trazer a inflação para a meta no ano que vem — disse Sá, destacando que o aperto monetário demanda um tempo para fazer efeito na economia.

Para os analistas, o aumento de juros no exterior, principalmente por parte do Federal Reserve, o Fed, o banco central americano, não deve ter tanto impacto na decisão, pois um cenário externo mais desafiador já está precificado nos últimos comunicados do Copom.

Sobre o risco fiscal, que tanto penalizou o real em 2021, Leal, da Rio Bravo, destaca que será importante acompanhar ao longo do ano as sinalizações dos presidenciáveis sobre a política econômica. — Indicações em direção às mudanças nas regras fiscais sem propor outra regra factível e que controle as despesas públicas vão ser bastante ruim para câmbio e para a inflação.

Fonte: Portal G1


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