O diretor de Política Monetária do Banco Central (BC), Nilton David, afirmou nesta quarta-feira (24) que a recente desaceleração da atividade econômica brasileira é um indicativo de que a política monetária adotada pela autoridade está surtindo efeito. A declaração foi feita durante um seminário do JP Morgan, realizado paralelamente às reuniões de primavera do Banco Mundial e do Fundo Monetário Internacional (FMI), em Washington.
David observou que a economia nacional parece estar se aproximando de um “platô” de crescimento, o que, na sua avaliação, confirma que as medidas adotadas pelo BC estão contendo a expansão. “Quando vemos a atividade atingindo um platô ou desacelerando, entendemos que a política monetária está, de fato, funcionando”, afirmou.
No entanto, ele alertou que a inflação continua sendo motivo de preocupação, indicando que não há expectativa de queda nos índices nos próximos meses. “Já dissemos isso antes: não esperamos uma redução da inflação nas próximas semanas ou meses”, reiterou.
Segundo dados do Banco Central, o Índice de Atividade Econômica (IBC-Br) subiu 0,4% em fevereiro, já ajustado sazonalmente, o que representa uma desaceleração em relação à alta de 0,9% registrada em janeiro. Já a inflação, medida pelo IPCA, acelerou em março, alcançando 5,48% em termos anuais, frente aos 5,06% de fevereiro. A meta oficial é de 3%, com uma margem de tolerância de 1,5 ponto percentual para mais ou menos.
Nilton David destacou ainda que há consenso entre os membros do Comitê de Política Monetária (Copom) de que a taxa básica de juros, atualmente em 14,25% ao ano, está em um patamar contracionista. “Existe um super consenso de que estamos em território contracionista”, enfatizou.
Na última reunião, o Copom aumentou a Selic em 1 ponto percentual pela terceira vez consecutiva e sinalizou que, embora o próximo ajuste deva ser menor, o cenário não permite prever o rumo das próximas decisões. A incerteza global, sobretudo em função das medidas protecionistas do governo norte-americano sob Donald Trump, dificulta a adoção de uma orientação futura mais clara.
“Para fornecer um guidance, precisamos de segurança quanto ao caminho e ao destino. Estamos longe disso”, declarou o diretor, reconhecendo que o ambiente externo instável dificulta a tarefa do BC de controlar a inflação.
David ressaltou que o objetivo da política monetária é atingir a meta de inflação com o menor custo social possível, mas advertiu que atrasos na convergência podem provocar distorções duradouras. “Uma demora na convergência pode gerar uma deformação permanente e mais onerosa no longo prazo”, alertou.
Ainda durante o seminário, o diretor defendeu a importância de o BC dispor de instrumentos diversos para atuar em momentos de instabilidade cambial. Ele reforçou que o regime de câmbio do país é flutuante e que as reservas internacionais são essenciais como mecanismo de proteção.
“Precisamos ter diferentes ferramentas para reagir quando o mercado entra em condição disfuncional”, afirmou. Em dezembro do ano passado, o BC vendeu US$ 32,6 bilhões ao mercado, por meio de operações de linha e venda direta de dólares sem compromisso de recompra, para conter a volatilidade do câmbio.
Essa intervenção foi motivada pela forte desvalorização do real, após o anúncio de medidas fiscais e da proposta de reforma do Imposto de Renda pelo governo, o que elevou a percepção de risco fiscal e pressionou o mercado.
Foto: Leonardo Sá/Agência Senado

