A ideia de uma luta do bem contra o mal, a atribuição de um mesmo valor a atores antes vistos como diferentes e a articulação política por meio da internet estão entre as principais características do bolsonarismo, segundo um estudo inédito.

A pesquisa qualitativa se baseou em entrevistas com 21 eleitores de Jair Bolsonaro (PL) durante a campanha de 2022. Com idades entre 18 e 65 anos, eles conversaram com o cientista político Fabrício Amorim para sua tese de doutorado, a ser defendida na PUC-SP. Ao todo, foram 17h de conversa.

Para especialista, corrente ligada a Bolsonaro pode ser definida como fundamentalismo político.

A categoria une conceitos da teologia (como a luta do bem contra o mal) e do populismo (como a atribuição de um mesmo valor a atores antes vistos como diferentes).

Um exemplo disso é a visão de que PT e PSDB são partidos com os mesmos problemas e que integram um sistema corrompido — juntamente com a mídia, a Justiça e outras instituições.

Amorim destaca a influência das ideias de Olavo de Carvalho, tido como “grande mestre” pelos entrevistados. Um exemplo é a compreensão da política como uma disputa entre partes que buscam se exterminar, e não entre partes que brigam pelo poder, como é de praxe na democracia. O guru conservador, que influenciou fortemente vários bolsonaristas, morreu em 2022, aos 74 anos, nos Estados Unidos.

Estudo cria imagem objetiva do que pensam os bolsonaristas, diz especialista em extrema direita. Professor titular da Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), João Cezar de Castro Rocha destaca que a pesquisa tem o mérito de mostrar como a manipulação de informação é usada dentro do movimento.

Segundo Amorim, a desinformação tem papel decisivo no bolsonarismo. “Ela cria um ambiente no qual certas ideias são difundidas e confirmadas o tempo todo”, diz ele. Um efeito colateral disso é a desconfiança em relação a dados que vão na contramão do que está sendo reforçado.

Desinformação se dá por meio de várias técnicas, conhecidas pelos seus nomes em inglês. Firehose (fluxo intenso e contínuo de informações falsas), astroturfing (distribuição de mensagens na internet por robôs e outros meios) e doxxing (exposição de dados pessoais como forma de ameaça) são alguns dos métodos usados na bolha bolsonarista identificados pelo cientista.

“A manipulação de informações tem três objetivos no contexto da extrema-direita: desinformar, difamar e tornar o diálogo público impossível. Mesmo figuras de peso, como o falecido Gustavo Bebianno [articulador de Bolsonaro no começo do governo], foram alvo disso, por não se mostrarem submissas ao ex-presidente”, disse João Cezar de Castro Rocha, especialista em extrema direita e professor titular da Uerj.

Conversa sobre sistema eleitoral irrita entrevistados. Segundo Amorim, todos acreditavam na possibilidade de fraude das urnas eletrônicas (algo que nunca aconteceu, segundo a Justiça Eleitoral) e defendiam o voto impresso auditável (que não faz sentido, visto que o sistema atual já permite a verificação independente dos resultados).

O entendimento de eleitores de Bolsonaro é de que havia um complô contra sua eleição. Para eles, a suposta armação (nunca comprovada) justificaria inclusive uma intervenção tocada por militares com o fim de “arrumar a casa” e “garantir a democracia”. Ainda assim, vários entrevistados tiveram esperanças de que o ex-presidente se reelegesse até sair o resultado do segundo turno.

O Supremo Tribunal Federal se tornou o grande inimigo dos bolsonaristas, diz estudo. A corte ocupa a posição por causa das decisões que permitiram ao atual presidente Lula (PT) disputar as eleições de 2022, entendidas como arbitrariedades pelos entrevistados. Para eles, o país vive “uma ditadura de toga” e medidas como o fechamento do STF são tidas como válidas.

Se, há dez anos, as novas direitas celebravam a condenação de petistas no julgamento do mensalão realizado no STF, atualmente veem a corte como aparelhada pelas indicações do PT. Fabrício Amorim, cientista político

Para o professor, a narrativa “requenta” discurso usado no golpe de 1964. Rocha afirma que, há 60 anos, a tomada do poder pelos militares foi entendida pela direita como um “contragolpe” para evitar a ascensão do comunismo no Brasil. “Hoje, os eleitores de Bolsonaro veem como ameaças o STF e outras instituições que, na verdade, asseguram a democracia”, diz ele.

Alexandre de Moraes é alvo de ódio entre os entrevistados. Após uma maioria conservadora ser eleita para o Congresso Nacional em 2022, muitos dos participantes do estudo acreditavam que pedidos de impeachment contra Moraes e outros ministros do Supremo prosperariam — o que, até o momento, não aconteceu.

A presença do ex-presidente em aglomerações e a recusa em usar máscara foram criticadas por seus eleitores. Eles enxergavam risco de vida real na covid-19. Entretanto, os entrevistados pelo estudo criticaram STF, governadores e prefeitos pelas medidas que restringiram a circulação e disseram que Bolsonaro acertou em não deixar a economia para depois.

No começo da pandemia, correram entre os bolsonaristas boatos sobre falsas mortes. Esses boatos perderam o sentido com o tempo, porque as mortes começaram a ganhar rosto. A covid deixou claro o limite a partir do qual a manipulação de informação não funciona mais, que é a finitude da vida. Isso é muito claro para todos nós. João Cezar de Castro Rocha, especialista em extrema direita e professor titular da Uerj

Para bolsonaristas, casais homossexuais são famílias. Porém, os entrevistados compreendem que as famílias desse tipo não são “tradicionais“. Para eles, a família “tradicional” é formada por homem e mulher, liderada pelo homem, e deve ser preservada.

Há uma preocupação especial em relação às crianças. Para eleitores do ex-presidente, elas devem ser protegidas a qualquer custo, e o contato com questões relacionadas ao sexo deve ser mediado única e exclusivamente pela família.

Termo olavista é desconhecido, mas ideias do guru estão difundidas. Os entrevistados não sabiam o que era “marxismo cultural”, mas criticaram o uso, por artistas, de recursos disponibilizados por meio da Lei Rouanet e o suposto sequestro da mídia e das universidades pelo “pensamento de esquerda” — ideias em sintonia com o que pensava Olavo de Carvalho.


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