O ex-presidente Jair Bolsonaro passou a atuar diretamente nos bastidores para tentar reduzir os danos políticos provocados pela crise envolvendo o senador Flávio Bolsonaro e o banqueiro Daniel Vorcaro. Segundo interlocutores próximos à família, Bolsonaro demonstrou preocupação com o desgaste da pré-campanha presidencial do filho e decidiu intervir pessoalmente para reorganizar a estratégia política e de comunicação adotada pelo grupo nas últimas semanas.

Aliados relataram que o ex-presidente avaliou que a demora de Flávio em admitir a dimensão da relação política e financeira com Vorcaro agravou a crise e fortaleceu a percepção de que a campanha reagia de maneira tardia às revelações envolvendo o caso. Nos bastidores, Bolsonaro passou a defender que o filho apresentasse rapidamente uma explicação mais ampla sobre os contatos mantidos com o ex-banqueiro e os negócios ligados ao filme “Dark Horse”, produção inspirada em sua trajetória política.

De acordo com interlocutores ouvidos por aliados do PL, Bolsonaro aconselhou Flávio a “contar toda a verdade” e defender transparência absoluta sobre a participação financeira relacionada ao longa-metragem. Após a conversa com o pai, o senador anunciou publicamente que solicitou à produtora responsável pela obra uma prestação completa de contas, prometendo divulgar as informações dentro de até trinta dias.

A avaliação do ex-presidente sobre a condução da crise passou a ser compartilhada também dentro da coordenação da pré-campanha presidencial. O senador Rogério Marinho, responsável pela articulação política do projeto eleitoral de Flávio, admitiu publicamente que houve falhas no controle da narrativa e afirmou que o grupo deveria ter antecipado esclarecimentos sobre a relação com Vorcaro.

O desconforto de Bolsonaro aumentou na medida em que a crise deixou de atingir apenas a imagem do filho e passou a estimular discussões internas dentro da direita sobre alternativas presidenciais para dois mil e vinte e seis. Segundo aliados, o ex-presidente teme uma fragmentação do PL e o início antecipado de disputas relacionadas ao espólio político do bolsonarismo.

Nos últimos dias, o nome de Michelle Bolsonaro voltou a circular em conversas reservadas entre dirigentes partidários, parlamentares e lideranças evangélicas preocupadas com o desgaste crescente da pré-campanha de Flávio. Interlocutores afirmam que Bolsonaro reagiu reafirmando a intenção de manter a candidatura do filho até o final do processo eleitoral.

Apesar disso, pessoas próximas ao ex-presidente relatam que ele descartou, neste momento, qualquer possibilidade de lançar Michelle ao Palácio do Planalto. Reservadamente, Bolsonaro afirma que a ex-primeira-dama ainda não possui experiência política suficiente para disputar a Presidência da República e sustenta que o projeto desenhado para ela continua sendo uma candidatura ao Senado pelo Distrito Federal.

Além da preocupação eleitoral, Bolsonaro também passou a atuar para conter um novo foco de tensão dentro da própria família. O desconforto aumentou após Michelle evitar uma defesa mais direta de Flávio durante evento do PL Mulher realizado em Brasília. Questionada sobre a crise envolvendo o enteado, ela respondeu apenas que os jornalistas deveriam perguntar diretamente ao senador.

A declaração provocou irritação entre aliados próximos de Carlos e Eduardo Bolsonaro. Segundo interlocutores ligados à família, os dois filhos do ex-presidente interpretaram a postura de Michelle como uma tentativa de preservar a própria imagem política justamente no momento em que o nome dela voltou a ser citado como alternativa presidencial dentro do partido.

Pessoas próximas à ex-primeira-dama afirmam, contudo, que ela tem priorizado os cuidados com Bolsonaro e lembram que a relação dela com os filhos do ex-presidente atravessa períodos de desgaste há anos. Aliados citam, por exemplo, o mal-estar provocado quando Flávio sinalizou apoio a uma aliança com Ciro Gomes no Ceará, movimento criticado publicamente por Michelle nas redes sociais.

O desconforto interno aumentou ainda mais após Michelle fazer comentário sobre o ministro Alexandre de Moraes durante o evento em Brasília. A declaração, considerada excessivamente amistosa por integrantes do entorno bolsonarista, gerou novas críticas reservadas dentro do grupo político.

Segundo aliados próximos, Bolsonaro avalia que uma disputa pública entre Michelle e os filhos neste momento aceleraria o enfraquecimento político da candidatura de Flávio e estimularia movimentos antecipados pela sucessão da liderança conservadora no país.

Integrantes do PL afirmam que o ex-presidente passou os últimos dias realizando conversas reservadas com dirigentes partidários, parlamentares e aliados próximos para evitar novos episódios de exposição pública da crise. A orientação transmitida por Bolsonaro foi para que integrantes da campanha reduzam declarações improvisadas e concentrem a comunicação em temas econômicos e propostas ligadas à segurança pública. Nos bastidores, aliados reconhecem que o caso envolvendo Vorcaro provocou desgaste significativo na imagem de Flávio Bolsonaro junto a setores do mercado financeiro e grupos conservadores. Apesar disso, dirigentes do partido sustentam que ainda existe tempo suficiente para reorganizar a pré-campanha presidencial e recuperar parte da confiança perdida nas últimas semanas.

Aliados afirmam que Bolsonaro continuará acompanhando pessoalmente cada etapa da estratégia eleitoral.

Foto: Gustavo Moreno/STF


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