Na sequência do aclamado filme “Coringa”, Joaquin Phoenix retorna como o perturbado e assassino Arthur Fleck, agora mais conhecido como Coringa, no novo longa dirigido por Todd Phillips. Inspirado nos personagens da DC Comics, o filme, intitulado “Coringa: Delírio a Dois”, apresenta uma nova fase para o protagonista, que desta vez, se apaixona por Harley Quinn, interpretada por Lady Gaga. Esse relacionamento marca o tom da sequência, que se desvia do caráter político do primeiro filme para focar em uma narrativa mais íntima e emocional. O filme estreia nos cinemas nesta quinta-feira, 3 de outubro.
A trama inicia com Arthur Fleck preso em um manicômio, aguardando julgamento pelos crimes cometidos no primeiro filme. Grande parte da história se passa em um tribunal, onde a questão central é se Fleck pode ser responsabilizado pelos atos do Coringa, trazendo novamente à tona o tema da dissociação de personalidade. Ao longo do filme, as discussões entre psiquiatras e membros do judiciário tentam desvendar a mente complexa do protagonista.
Apesar do tom delirante que permeia a narrativa, o segundo filme adota um gênero diferente: uma comédia dramática musical, o que explica a escolha de Lady Gaga para o papel de Harley Quinn. Com cenas de música e dança, a dupla protagoniza momentos que se destacam pela coreografia e pela intensidade emocional. No entanto, “Delírio a Dois” não é apenas uma continuação direta, mas sim uma desconstrução do primeiro filme. Enquanto “Coringa 1” mostrava Arthur Fleck se transformando no vilão Coringa, neste segundo filme, o Coringa deseja voltar a ser Arthur, em um dilema interno que complica seu relacionamento com Harley Quinn, que ama o Coringa, não Arthur.
Essa mudança de foco, do político para o pessoal, é uma aposta ousada de Phillips. Em vez de repetir a fórmula de sucesso do primeiro filme, o diretor opta por explorar novas possibilidades. Embora “Coringa 1” tenha sido uma crítica feroz à sociedade, com Gotham City representando um mundo em colapso, onde os marginalizados se revoltavam, “Delírio a Dois” busca um tom mais conciliador, sem, no entanto, perder a intensidade dramática. Essa transformação pode ser vista como uma tentativa de inovar, ao invés de simplesmente entregar mais do mesmo, algo esperado de uma sequência de sucesso.
Joaquin Phoenix, como era de se esperar, continua sendo o ponto alto do filme. Sua atuação é nada menos que brilhante, transmitindo todo o desespero e a luta interna do personagem. Mesmo nos momentos mais emocionais, como quando ele canta “If You Go Away” em uma tentativa desesperada de reconquistar Harley, Phoenix consegue fazer o público simpatizar com Coringa, apesar de sua natureza violenta e criminosa. Essa dualidade entre horror e empatia é o que torna sua interpretação tão marcante.
Lady Gaga também entrega uma atuação sólida como Harley Quinn, especialmente nas sequências musicais, nas quais sua experiência como cantora é bem aproveitada. A química entre Phoenix e Gaga é notável, e ambos contribuem para momentos memoráveis no filme. O visual do filme, com referências aos estilos de Martin Scorsese e Brian De Palma, mantém a energia do primeiro longa, complementando bem a narrativa.
No entanto, nem tudo é perfeito em “Delírio a Dois”. O roteiro apresenta algumas oscilações, e a radicalidade do personagem Coringa nem sempre combina com os momentos em que o filme parece tentar reconciliá-lo com a ideia de redenção. Em um mundo onde a hipocrisia do politicamente correto prevalece, pode-se compreender que um vilão como o Coringa deseje se redimir, mas isso acaba enfraquecendo o impacto político que marcou o primeiro filme.
Apesar dessas limitações, “Coringa: Delírio a Dois” destaca-se como uma produção audaciosa no universo dos super-heróis. E mais uma vez, confirma que, no mundo dos quadrinhos, os supervilões são muitas vezes mais fascinantes que os heróis, mesmo quando tentam se redimir.
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