Na noite desta sexta-feira (25), os candidatos à prefeitura de Belo Horizonte, Fuad Noman (PSD) e Bruno Engler (PL), enfrentaram-se no último debate antes do segundo turno, promovido pela TV Globo. O encontro foi marcado por trocas de acusações e tensões, que permeavam até mesmo a discussão de temas fundamentais para a cidade, como mobilidade urbana e a limpeza da Lagoa da Pampulha. Ambos os candidatos buscaram se diferenciar, com Noman ressaltando sua experiência de gestão e Engler defendendo posturas conservadoras e de renovação, em uma disputa que reflete o cenário eleitoral polarizado na capital mineira.

De acordo com a última pesquisa Datafolha divulgada, Fuad lidera com 46% das intenções de voto, enquanto Engler aparece logo atrás, com 39%, evidenciando uma disputa acirrada. A margem de erro da pesquisa é de três pontos percentuais, e a decisão do eleitorado de Belo Horizonte permanece imprevisível, com ambos os candidatos buscando convencer os eleitores indecisos.

Durante o debate, Fuad Noman focou em destacar sua experiência administrativa e enfatizou sua capacidade de liderança adquirida ao longo de sua trajetória pública. Além de listar realizações em sua gestão, que incluem melhorias em áreas como infraestrutura e saúde, Noman procurou apresentar-se como o candidato mais estável e capacitado para enfrentar os desafios da cidade. Ele também procurou associar seu oponente a uma postura irresponsável, sugerindo que Engler se apoia em “fake news” para manipular a opinião pública.

Em um dos momentos mais fortes de sua fala, Noman mencionou que sua vivência de longos anos no setor público o coloca em uma posição de entendimento e empatia com as necessidades reais da população. O prefeito destacou que sua experiência permite identificar as necessidades concretas dos moradores de Belo Horizonte e, portanto, construir políticas públicas que efetivamente atendam à cidade. Em uma de suas falas mais críticas, Noman sugeriu que Engler carece de vivências que o sensibilizariam para as questões da cidade: “Não sei se ele tem a experiência de ter pegado um ônibus, ido a um posto de saúde. Isso me preocupa muito”, apontou o prefeito, questionando a capacidade de Engler em lidar com temas complexos da administração pública.

Bruno Engler, por sua vez, enfatizou uma postura de renovação e crítica à atual gestão, apresentando-se como o candidato da mudança. Engler criticou as políticas de Noman, chamando algumas das iniciativas de “obras inúteis” e acusando o prefeito de gastar recursos de maneira indevida na área Centro-Sul da cidade, o que, segundo ele, favorece apenas as regiões mais ricas. Em seu discurso, Engler adotou uma postura conservadora, buscando atrair eleitores insatisfeitos com a gestão atual e defendendo propostas que ele considera inovadoras para Belo Horizonte, especialmente no campo da segurança pública.

Uma de suas principais críticas à administração de Noman foi o projeto de ciclovia na Afonso Pena, que ele classificou como um desperdício de recursos em uma via íngreme, que beneficiaria poucos cidadãos. Engler defendeu que, como prefeito, pretende direcionar investimentos para as áreas mais necessitadas, buscando uma cidade mais equilibrada e justa.

Outro ponto controverso do debate envolveu o livro “Cobiça”, publicado por Fuad Noman em 2020, quando ainda era secretário da Fazenda na gestão de Alexandre Kalil. Engler trouxe o livro como objeto de crítica, classificando-o como “pornográfico” e mencionando uma cena específica de violência sexual. Noman rebateu, negando as alegações de conteúdo inadequado, afirmando que o livro é voltado para quem aprecia literatura e não deveria ser objeto de ataque político. “Livro é pra quem gosta de livro. Não vou discutir isso”, respondeu o prefeito, tentando minimizar a questão e focar nos temas de administração da cidade.

O episódio do livro tem sido usado por Engler para tentar associar Fuad a temas polêmicos, em uma estratégia para desviar o debate das pautas políticas para questões de valores. Engler aproveitou o momento para criticar a ciclovia da Afonso Pena e afirmou que “obras inúteis” como essa não terão continuidade em sua gestão.

A segurança pública foi um dos temas centrais do debate, com Engler enfatizando que, se eleito, promoverá uma série de medidas para enfrentar a criminalidade em Belo Horizonte. Ele destacou que pretende aumentar o efetivo da guarda municipal e implementar rondas ostensivas para proporcionar maior segurança à população. Engler aproveitou para alfinetar Fuad, dizendo que o atual prefeito se isenta de responsabilidade ao atribuir a questão da segurança unicamente ao governo estadual. Fuad, em resposta, afirmou que parcerias com a polícia e a guarda municipal já estão sendo implementadas e que pretende fortalecer essas ações.

No tocante à mobilidade urbana, tema apontado pelas pesquisas como uma das principais preocupações dos eleitores, ambos os candidatos apresentaram propostas para resolver o problema. Noman defendeu a continuidade das melhorias no transporte público e propôs a contratação de uma consultoria internacional para desenvolver um novo contrato de concessão para os ônibus da cidade, visando garantir maior qualidade e acessibilidade. Engler, em contrapartida, criticou a atual situação do transporte e prometeu realizar uma revisão completa do sistema, acusando Noman de viver “no país das maravilhas” ao ignorar o estado precário dos ônibus em Belo Horizonte.

Um dos momentos de maior tensão do debate envolveu a relação de cada candidato com o governo federal. Fuad Noman expressou receio quanto à capacidade de Engler de manter um diálogo eficaz com o presidente Lula (PT) caso fosse eleito. Engler, por sua vez, rebateu, afirmando que, se eleito, pretende seguir o exemplo do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, e manter uma postura pragmática, de diálogo com o governo federal, mas sem alinhamento político direto. Engler também mencionou que conta com o apoio do governador Romeu Zema (Novo), um aliado conservador que o apoia nesta segunda etapa da campanha.

Durante o debate, os candidatos também se acusaram mutuamente de receber financiamento de setores econômicos influentes. Engler afirmou que Noman tem ligações com proprietários de ônibus, enquanto o prefeito acusou Engler de receber apoio de mineradoras, alegações que ambos os candidatos negaram.

Outro ponto relevante abordado no debate foi a infraestrutura das escolas municipais e o Auto de Vistoria do Corpo de Bombeiros (AVCB). Engler questionou Noman sobre a ausência de AVCB em 60% das escolas municipais, alertando para o risco de acidentes, em um paralelo com a tragédia no Ninho do Urubu. Noman respondeu que está empenhado em melhorar a infraestrutura escolar, mas destacou as limitações que enfrentou desde o início de sua gestão.

No tema das creches e da educação infantil, Engler criticou a falta de vagas nas creches municipais e sugeriu que o atual prefeito adota uma postura de desconsiderar problemas existentes na cidade. Noman, por sua vez, defendeu sua gestão, enfatizando os esforços feitos para expandir o número de vagas e melhorar as condições das instituições de ensino.

Com o debate, os eleitores de Belo Horizonte foram expostos a duas propostas de governo opostas: de um lado, Fuad Noman, que se apoia em sua experiência administrativa e defende a continuidade e aperfeiçoamento das políticas públicas; do outro, Bruno Engler, que promete uma administração conservadora e questiona a necessidade de certas políticas atuais. A decisão, no entanto, caberá aos eleitores, que definirão o futuro de Belo Horizonte no segundo turno.