Uma decisão técnica que será tomada pelo Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico (CMSE) até o fim de junho poderá influenciar diretamente o valor da conta de luz dos brasileiros, a inflação de 2027 e a competitividade da economia nacional. O debate envolve os parâmetros de aversão ao risco utilizados na operação do sistema elétrico e ganhou destaque após a reunião do comitê realizada em 13 de maio.
Na ocasião, a definição foi adiada para permitir estudos complementares sobre os impactos do Leilão de Reserva de Capacidade (LRCap) de 2026, cuja homologação trouxe novos elementos para a análise. O CMSE solicitou avaliações adicionais ao Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) e à Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE) antes de tomar uma decisão definitiva.
No centro da discussão está o chamado CVaR, parâmetro utilizado para orientar a operação do sistema e definir o grau de conservadorismo adotado na gestão dos reservatórios. Atualmente, o setor opera com o modelo conhecido como par (15;40), considerado bastante conservador e que resulta em maior utilização de usinas termelétricas, mesmo em cenários com elevada segurança energética.
Especialistas do setor defendem a adoção do par (15;30), considerado menos conservador, mas ainda dentro dos critérios de segurança estabelecidos pela Curva de Referência (CRef), que determina os níveis mínimos prudenciais de armazenamento. Segundo estudos apresentados ao CMSE, o novo parâmetro manteria o sistema dentro da faixa considerada segura, sem comprometer o abastecimento.
A diferença econômica, porém, seria significativa. De acordo com as análises discutidas no setor, a adoção do modelo (15;30) poderia reduzir em cerca de R$ 5,4 bilhões os custos associados à geração termelétrica. O impacto estimado nas tarifas seria uma redução próxima de 1%, além de contribuir para diminuir em mais de 0,11 ponto percentual a inflação medida pelo IPCA.
O argumento dos defensores da mudança ganhou força após o Leilão de Reserva de Capacidade de 2026 contratar aproximadamente 19 gigawatts de potência adicional. Essa capacidade foi adquirida justamente para garantir segurança ao sistema em momentos de necessidade, funcionando como uma espécie de seguro energético.
Nesse contexto, analistas afirmam que o risco de insuficiência de potência foi reduzido, tornando menos necessária a manutenção de parâmetros excessivamente conservadores. Segundo essa avaliação, insistir no modelo atual significaria impor custos adicionais aos consumidores sem ganhos proporcionais em segurança energética.
Além dos impactos sobre a conta de luz, o debate envolve a atração de investimentos. Representantes do setor argumentam que energia mais cara reduz a competitividade da indústria brasileira e dificulta a instalação de projetos intensivos em consumo elétrico, como data centers e grandes empreendimentos industriais.
A expectativa agora é pela decisão do CMSE, que deverá definir se mantém os critérios atuais ou adota parâmetros considerados mais eficientes. O resultado poderá influenciar não apenas as tarifas de energia, mas também a inflação e o ambiente de investimentos do país nos próximos anos.
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