A Usina Hidrelétrica de Belo Monte completa nesta terça-feira dez anos de inauguração oficial ainda cercada por críticas de moradores, organizações sociais e especialistas em direitos humanos e meio ambiente. Considerada estratégica para o abastecimento energético do país, a hidrelétrica segue no centro de debates envolvendo impactos sociais, ambientais e econômicos causados na região do Rio Xingu, no Pará.
O empreendimento foi planejado ainda na década de 1970 e ganhou notoriedade internacional após a proposta de desviar grande parte do fluxo do Rio Xingu em um trecho de cerca de 130 quilômetros para abastecimento do reservatório principal da usina. A obra alterou profundamente a dinâmica ambiental e social de comunidades tradicionais da região.
Aos 70 anos, o pescador Élio Alves da Silva afirma que as mudanças provocadas pela construção da usina transformaram completamente sua vida. Morador da antiga comunidade de Santo Antônio, em Vitória do Xingu, ele lembra das primeiras equipes técnicas chegando à região no início da década de 1980 para realização dos estudos de viabilidade da barragem.
Segundo ele, a entrada das empresas provocou abertura de trilhas, desmatamento e explosões com dinamite para análise do terreno. Apesar disso, o pescador recorda que o rio ainda mantinha abundância de espécies de peixes utilizadas na alimentação e no sustento das famílias locais.
Silva relata que pescava espécies como tucunaré, dourada, pacu, jaraqui, curimatá e diversos peixes ornamentais. Com o avanço das obras, porém, os peixes começaram a desaparecer gradualmente e dezenas de famílias receberam ordens para deixar as comunidades tradicionais onde viviam.
Ele afirma que os moradores reivindicavam reassentamento coletivo para manutenção dos vínculos comunitários, mas a promessa não foi cumprida. O pescador recebeu uma pequena propriedade nos arredores de Altamira, enquanto os filhos foram transferidos para locais diferentes sem apoio financeiro permanente.
Segundo Silva, a mudança provocou perda da renda, dificuldades alimentares e até cancelamento da carteira profissional de pescador. Durante parte desse período, afirma ter dependido de ajuda de organizações sociais para conseguir alimentos básicos.
Situação semelhante foi vivida por Sara Lima, moradora da comunidade de Belo Monte do Pontal, em Anapu. Filha de pescadores, ela afirma que cresceu em uma realidade marcada pela fartura de peixes e pela forte relação das famílias com o Rio Xingu.
Diferentemente de Silva, Sara permaneceu na mesma região após a construção da usina. Ainda assim, relata que as mudanças ambientais reduziram drasticamente a capacidade de pesca, comprometendo a renda familiar e a segurança alimentar da comunidade.
Segundo ela, o rio fornecia água limpa e alimento em abundância. Hoje, afirma que moradores enfrentam dificuldades até para obter água potável e passaram a substituir o pescado por alimentos industrializados mais baratos.
Para marcar os dez anos da usina, organizações sociais e entidades ligadas à defesa dos povos tradicionais divulgaram uma carta aberta denunciando agravamento das violações
socioambientais ao longo dos últimos anos. O documento foi assinado por entidades como Associação Interamericana para a Defesa do Ambiente, Conselho Indigenista Missionário, Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira, Movimento Xingu Vivo Para Sempre e Diocese de Altamira.
As organizações afirmam que períodos de seca extrema registrados na Amazônia em 2016, 2019, 2020, 2023 e 2024 agravaram ainda mais os impactos ambientais já existentes na região do Xingu. Segundo o documento, a situação expôs fragilidades estruturais do empreendimento diante das mudanças climáticas.
Em julho de 2025, a Corte Interamericana de Direitos Humanos reconheceu, em parecer consultivo, a obrigação dos países de responderem à emergência climática como parte do direito internacional. O entendimento reforçou discussões sobre proteção de populações atingidas por grandes projetos de infraestrutura.
Segundo a advogada Erina Gomes, do Programa de Direitos Humanos e Meio Ambiente da Associação Interamericana para a Defesa do Ambiente, Belo Monte é considerada pelas organizações sociais um desastre socioambiental.
Ela afirma que muitos dos impactos denunciados ainda no período de construção acabaram se confirmando ao longo dos anos. Entre eles estão alterações permanentes no ecossistema do Rio Xingu, prejuízos às atividades tradicionais de pesca e deslocamento de comunidades inteiras.
As entidades esperam que a análise do caso pela Corte Interamericana produza jurisprudência internacional para evitar repetição de impactos semelhantes em futuros projetos relacionados à chamada transição energética.
Sob administração da concessionária Norte Energia desde 2010, Belo Monte é considerada essencial para o Sistema Interligado Nacional. Segundo a empresa, a usina atende em média cerca de 5% da demanda nacional de energia elétrica ao longo do ano e pode chegar a produzir até 16% da demanda em horários de pico.
A Norte Energia informa que mais de R$ 8 bilhões já foram investidos em compromissos socioambientais previstos no processo de licenciamento ambiental. Entre as ações citadas pela concessionária estão construção de hospitais, unidades de saúde, escolas, bairros residenciais e projetos de reflorestamento.
Apesar disso, organizações sociais e moradores atingidos afirmam que muitas medidas não foram concluídas ou foram insuficientes para reparar os danos causados pela construção da usina.
Sara Lima afirma que pequenos projetos produtivos entregues às comunidades jamais conseguiram substituir a importância econômica, alimentar e cultural do Rio Xingu para as famílias tradicionais da região.
Foto: Joédson Alves/Agência Brasil

