Pesquisas qualitativas para o pleito presidencial indicam que caminhos viáveis para o candidato Lula (PT) conquistar indecisos incluem um discurso acolhedor e empático.

Esses levantamentos mostram que muitos dos que não decidiram o voto, especialmente mulheres, de faixa salarial entre dois e cinco salários mínimos, e jovens, estão propensos a escolher alguém em que vejam essas qualidades, afirma a cientista política Camila Rocha, que há anos conduz pesquisas qualitativas sobre o assunto.

“São pessoas que não gostam de política, não têm nem vontade de votar e não enxergam que essa eleição é muito definidora, seja para suas vidas ou para o país como um todo”, afirma ela .

“Para elas, tanto faz se ganha Lula ou Bolsonaro. Não dependem de programas do governo, sentem que ele não fala com elas e precisam ser mobilizadas para se envolverem, apesar de não gostarem do assunto”, afirma a pesquisadora.

Pesquisas qualitativas são feitas por meio de conversas mais longas de uma a mais de duas horas com grupos de pessoas semelhantes. Elas permitem um mergulho mais profundo na mentalidade desses grupos do que as pesquisas quantitativas, como o Datafolha, que buscam análises estatísticas.

Sobre o Datafolha, Rocha ressalta que não leu em profundidade o último levantamento, mas desconfia do dado publicado de que 75% dos eleitores teriam já decido o voto. “Historicamente, a tendência é grande parte do eleitorado se decidir no último minuto, o que pode tornar tudo mais acirrado”, aponta.

“Para muita gente não é bizarro estar indeciso entre esses dois nomes”, diz ela, que reitera:

“É muito clara a tendência de crescimento do Bolsonaro, ele vem subindo de forma consistente, o que pode inviabilizar definições no primeiro turno, uma possibilidade que está cada vez mais distante.”

Qual a abordagem?

Mas como então falar com quem não gosta e não quer falar de política? Rocha explica:

“É muito consensual a ideia de que o Bolsonaro é desumano, principalmente entre as mulheres, mesmo antes da pandemia. Depois da covid, aumentou muito e se tornou algo que pode mobilizar. Elas dizem que em um evento terrível como a pandemia preferem ter um líder com humanidade do que um que faz piada com quem sofre e até promove a morte.”

“Outro ponto citado é a necessidade de unir o país, após anos de polarização nos quais famílias e grupos sociais foram divididos e pouco dialogaram. Nesse aspecto, Bolsonaro é visto como alguém que estimula a radicalização, sem acolher quem pensa diferente”, explica. “E Bolsonaro tem outro aspecto problemático: o autoritarismo. Há um consenso de que o presidente precisa conversar com pessoas variadas e ele não faz isso. Sua exaltação da ditadura, símbolos militares também não é vista com bons olhos por esse público indeciso e apolítico.”

Os auxílios poderiam alterar a favor de Bolsonaro a balança do voto evangélico, hoje bem mais dividido do que em 2018, quando foi em peso para Bolsonaro.

“Em termos de economia, é difícil conquistar os votos de parte desse eleitorado que não se beneficia dos programas sociais e, portanto está aberto a se identificar mais pelos valores.” Mesmo assim, Rocha diz que a economia pode, sim, afetar indiretamente o público indeciso mais pobre, pentecostais, que deve sentir a entrada de dinheiro na economia, via auxílios recém-aprovados que acabam um mês após as eleições. “Eles pensam: se ele está suprindo as necessidades do povo financeiramente e seus valores se alinham em sua maioria aos meus, voto nele.”

Religião e corrupção

Por outro lado, Lula teria que ajustar o discurso para transmitir acolhimento, mas não exagerar. A possibilidade de outro “mensalão”, com alianças prejudiciais ao país com políticos tidos como corruptos, é um temor real entre essa fatia do eleitorado. Apesar dos fatos – bilhões de reais liberados por Bolsonaro para parlamentares amigos, via orçamento secreto, escândalos dos mais variados em sua administração, do MEC a compra de vacinas – o rótulo de corrupto não “colou” no presidente aos olhos desse público, que enxerga o petista como mais propenso “a fazer acordos escusos”.

Uma possível casca de banana para o PT e seus simpatizantes é transmitir a ideia de superioridade em relação aos evangélicos, que votaram em peso no atual presidente em 2018, e hoje estão divididos. “Muitos dos que votaram no Bolsonaro e cogitam votar de novo precisam se sentir acolhidos se decidirem mudar e votar no Lula. Se sentirem que vão ser ridicularizadas, esquece.”

“Se as pessoas sentirem que seus líderes religiosos são desprezados por um candidato, o raciocínio lógico é que ele as despreza também, e elas seriam mais imbecis ainda se o seguirem.”


Paola Tito