Após o hiato provocado pela pandemia da Covid-19, o Festival Internacional de Teatro, Palco e Rua de Belo Horizonte – FIT BH voltou a ocupar a cidade neste sábado (5), seguindo em cena até o dia 11 de novembro, com um rol de atrações que, em seu conjunto, celebra as raízes do povo brasileira e a sua latinidade. O tema é “Raízes – Arte, Existência e Nossa Latinidade”.
A 15ª edição contempla mais de 30 montagens, de grupos e artistas de BH e Região Metropolitana, bem como de outros estados brasileiros. Como de praxe, também haverá espetáculos internacionais.
As atrações ocupam teatros, ruas e espaços alternativos da capital. Pela primeira vez, o festival vai disponibilizar montagens em transmissão online – em paralelo à programação presencial –, com vistas a ampliar o acesso.
Além das mostras com recorte da cena contemporânea e da Mostra Cena em Tela, serão oferecidas atividades de formação, pesquisa e criação (Territórios dos Saberes e Ocupação João das Neves), exposição e rodadas de negócios e networking.
A curadoria do 15º FIT BH é assinada pela atriz, curadora e diretora artística Andreia Duarte Figueiredo; pelo professor e pesquisador Marcos Alexandre e pela atriz, diretora e professora Yara de Novaes. “Nós, curadores, nos guiamos muito pelo aspecto de como pensar a produção artística a partir das epistemologias do sulear”, conta Andreia.
E o que seria esse sulear? “Poderia ser, por exemplo, o olhar para os povos originários, para a diversidade deles e como abordam ou praticam a ideia de arte. Ou o ponto de vista da negritude, como os artistas negros se colocam na produção artística, que discussões trazem, por que as trazem. E, ainda, as questões LBGTQI+, da mulher, num aspecto histórico, social, artístico, nas imbricações estéticas sobre o que atravessam, como se dão no ser; no ser mulher, no ser travesti, no ser denominado como ‘periférico’ nas relações hegemônicas. A gente faz um traço buscando todas abordar essas questões e, num espectro mais amplo, pensando a latinidade, uma vez que essas insurgências são muito próximas às registradas em países como Chile, Peru e México”.
Os temas citados permeiam as obras, que, por sua vez, ao serem apreciadas, abrem possibilidades de discussão, “para que possam reverberar na gente como possibilidade nos propiciar rever a nossa própria vida, nosso estar no mundo, as nossas criações artísticas”, prossegue Andreia. O olhar para a riqueza da diversidade, entende a curadora, pode transformar. “Incita o espectador a estar nesses lugares que não são os impostos para a gente no cotidiano”.
Diversidade
A 15ª edição do FIT BH se norteou pela diversidade das produções teatrais. Assim, ao lado de produções locais, espetáculos de estados como o Rio Grande do Norte, Rio de Janeiro, Bahia, Ceará, São Paulo e Paraíba, além de produções da Argentina, do Chile e do México.
Como exemplos, os grupos Barca dos Corações Partidos (RJ) e Movimento Negro de Picadeiro (SP), a atriz, diretora e dramaturga Renata Carvalho (SP), a atriz Jéssica Teixeira (CE) e o ator Fábio Osório (BA), que trazem a Belo Horizonte suas mais recentes produções.
Tendo como ponto de partida o trágico incêndio do Museu Nacional (2018), a Cia Brasileira de Movimento e Som – Barca dos Corações Partidos celebra uma década de existência com o espetáculo “Museu Nacional”, no qual os componentes contam e cantam o inventário de um museu – que, como aponta o material enviado à imprensa, poderia ser a metáfora de um país – em escombros.
“AnonimATO”, por sua vez, é o primeiro espetáculo de rua da tradicional Cia. Mungunzá de Teatro. Numa espécie de cortejo que percorrerá 100 metros em linha reta, a montagem coloca em cena oito personagens para falar de pessoas anônimas que constituem a alma de uma cidade.
Renata Carvalho apresenta “Manifesto Transpofágico”, um monólogo onde reflete sobre a construção social que permeia o imaginário sobre pessoas trans e travestis. Já Fábio Osório traz a performance “Bola de Fogo”, em que, transformado em baiana do acarajé, prepara e vende tanto o seu acarajé quanto a sua criação artística.
Grupos de teatro da capital marcam presença na programação do FIT BH 2022. Entre eles, Teatro Negro e Atitude, Grupo Galpão, Quatroloscinco e Oficcina Multimédia. O Teatro Negro e Atitude apresenta “À Sombra da Goiabeira”, uma história de rupturas na relação entre um “pai” e um “‘filho” – homens negros.
O Galpão apresenta o celebrado “Nós”, que marca o encontro do grupo com o diretor Márcio Abreu. Já o Quatroloscinco encena seu espetáculo mais recente, “Tragédia”, uma leitura contemporânea para “Antígona”, de Sófocles. O Grupo Oficcina Multimédia apresentará de maneira on-line as montagens “Aldebaran” e “Macquinária 21”, ambas integrantes da chamada “Trilogia da Crueldade”.
Outras companhias de destaque da cena belo-horizontina, Toda Deseo, Grupo Oriundo de Teatro e Divinas Tetas apresentarão suas montagens mais recentes, todas de 2022.
Em “Trilogia de Traumas”, o Toda Deseo apresenta a junção de três trabalhos solos de integrantes do grupo, construídos a partir de experiências autobiográficas de cada um dos artistas.
O Grupo Oriundo de Teatro também traz um solo autobiográfico para a programação, com “Death Lay – na vida tem jeito pra tudo”, que reflete sobre o direito de viver e de morrer com dignidade no Brasil.
Já “Ladeira a Bausch”, do Divinas Tetas, por meio das linguagens da palhaçaria, do teatro e do circo-cabaré, busca ampliar a visão da sociedade sobre questões envolvendo sexualidade e gênero.

