A família Bolsonaro e seus aliados têm transferido parte da disputa política brasileira para o exterior. Diante do avanço das investigações no Supremo Tribunal Federal (STF), que já resultaram em prisões e denúncias contra diversos apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), setores da direita vêm buscando respaldo fora do país. O movimento ganhou novo fôlego com a eleição de Donald Trump à Presidência dos Estados Unidos neste ano.

No centro dessa ofensiva internacional está o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP). Ele anunciou na semana passada uma licença de seu mandato parlamentar para permanecer nos Estados Unidos. A justificativa apresentada foi a necessidade de atuar por sanções a autoridades brasileiras, principalmente em resposta a decisões do STF, que os bolsonaristas alegam serem autoritárias. Antes da licença, Eduardo já havia assumido a Secretaria de Relações Internacionais do PL, tentando ainda presidir a Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional da Câmara dos Deputados — sem sucesso.

Um aliado de Eduardo afirmou, sob reserva, que ele perdeu interesse em continuar no Brasil após ser desaconselhado a chefiar a comissão parlamentar, medida que visava evitar atritos com o Supremo. Diante disso, teria decidido que poderia ser mais útil atuando diretamente dos Estados Unidos, estreitando laços com figuras influentes da política norte-americana, especialmente do Partido Republicano.

A proximidade com Trump é vista como seu maior trunfo. Eduardo já foi recebido por Trump em seu escritório na Trump Tower, participou do baile de gala da posse presidencial e esteve em um evento com o ex-presidente norte-americano em Washington, em fevereiro. Esses contatos têm servido como plataforma para ampliar sua atuação internacional. Além disso, outros parlamentares brasileiros têm se engajado nessa agenda, como Marcel van Hattem (Novo-RS), Bia Kicis (PL-DF), Carla Zambelli (PL-SP) e Gustavo Gayer (PL-GO).

Esses políticos têm feito visitas regulares aos Estados Unidos para denunciar o que chamam de “perseguição judicial” no Brasil. Reuniões com parlamentares americanos, ativistas e formadores de opinião são comuns. Em novembro de 2023 e março de 2024, ocorreram encontros voltados justamente a dar visibilidade internacional às ações do STF contra apoiadores de Bolsonaro.

No mês passado, integrantes da bancada bolsonarista se reuniram com Pedro Vaca Villarreal, relator especial para Liberdade de Expressão da Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), para relatar o que consideram uma escalada autoritária do STF. Eles argumentam que ministros do tribunal estariam comprometendo a democracia brasileira ao cercear o direito de expressão de vozes conservadoras.

Essa ofensiva política internacional não se limita aos Estados Unidos. Figuras de outras nacionalidades também se alinham ao discurso bolsonarista, como os argentinos Javier Milei e Fernando Cerimedo, os portugueses Sérgio Tavares e André Ventura, além do espanhol Hermann Tertsch. Do lado norte-americano, nomes como Elon Musk, Jason Miller, Michael Shellenberger e Tucker Carlson têm repercutido a narrativa da direita brasileira.

Após o anúncio de seu autoexílio, Eduardo recebeu apoio público de parlamentares americanos. O deputado Rich McCormick (Partido Republicano, Geórgia) publicou em suas redes sociais que o afastamento do brasileiro é um sinal preocupante sobre o estado da democracia no país. Ele lembrou que, juntamente com a deputada Maria Elvira Salazar (Flórida), enviou uma carta a Trump pedindo a aplicação da Lei Global Magnitsky contra o ministro Alexandre de Moraes, do STF. A legislação autoriza os Estados Unidos a aplicar sanções contra autoridades estrangeiras acusadas de violar direitos humanos, inclusive impedindo-as de entrar em território americano e congelando seus bens no exterior.

“A ida de Eduardo Bolsonaro aos Estados Unidos evidencia a deterioração da democracia no maior país da América do Sul”, escreveu McCormick, ignorando o fato de que Eduardo não foi formalmente acusado ou indiciado, e que sua viagem foi uma escolha pessoal. Outros políticos americanos também manifestaram apoio ao deputado brasileiro. Shane David Jett, senador estadual de Oklahoma, afirmou que o ministro Moraes está “brincando com fogo”. Já Matt Gaetz, republicano da Flórida e aliado de Trump, classificou a situação brasileira como um “golpe judicial”.

O Foro de Madrid, aliança internacional da direita criada com o objetivo de conter o avanço da esquerda, publicou nota dizendo que o governo Lula ameaça Eduardo Bolsonaro e aumenta a repressão contra opositores. Segundo o grupo, o Brasil vive uma escalada autoritária comparável à de regimes antidemocráticos.

Para a antropóloga Isabela Kalil, coordenadora do Observatório da Extrema Direita, a atuação internacional de Eduardo Bolsonaro não é algo isolado, mas parte de uma rede articulada desde os atos golpistas de 8 de janeiro de 2023. A partir daquele episódio, a direita radical brasileira passou a se integrar de forma mais orgânica à extrema direita global.

Com a ascensão do trumpismo, especialmente por meio da atuação de Steve Bannon, ex-estrategista de Trump, passou-se a construir uma rede de cooperação internacional. Ele viajou à Europa, articulou grupos e ajudou a consolidar um movimento transnacional da extrema direita”, afirmou Kalil.

Ela destaca que, durante o governo Bolsonaro, o Brasil ainda não ocupava uma posição de tanto destaque nesse circuito. Isso mudou após a tentativa de invasão às sedes dos Três Poderes, episódio comparado à invasão do Capitólio, nos Estados Unidos, em 6 de janeiro de 2021. A semelhança entre os episódios serviu para reforçar a conexão ideológica e estratégica entre os dois movimentos.

Outro marco dessa inserção internacional foi a suspensão da rede X (antigo Twitter) no Brasil, em agosto de 2024, determinada por decisões judiciais. A medida, vista como censura por bolsonaristas, acentuou ainda mais os discursos de perseguição e reforçou o apelo à comunidade internacional.

A anistia aos presos por envolvimento nos ataques de janeiro de 2023 virou uma das principais bandeiras do movimento, defendida publicamente por Eduardo e seus aliados. Eles argumentam que os detidos são presos políticos e que suas punições representam um desrespeito às garantias constitucionais.

A aposta em uma atuação internacional revela uma tentativa da extrema direita de sobreviver politicamente, mesmo diante da perda de espaço no cenário institucional brasileiro. Resta saber se essa estratégia renderá frutos concretos ou se será apenas mais um capítulo de uma disputa que, embora transnacional, ainda tem raízes firmes no solo brasileiro.

Foto: Reprodução/Eduardo Bolsonaro


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