Empresas têm papel estratégico no enfrentamento à violência contra mulheres e meninas no Brasil e devem atuar de forma ativa em três frentes principais: prevenção, intervenção e acolhimento. A avaliação foi feita pelo secretário-executivo do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Rosa, durante evento realizado no Rio de Janeiro, que reuniu representantes do setor público e privado para discutir o tema.
Segundo ele, o setor produtivo precisa ir além do cumprimento de normas legais e assumir protagonismo na transformação cultural necessária para reduzir os índices de feminicídio no país. Dados recentes mostram a gravidade do cenário: cerca de seis mulheres são mortas por dia no Brasil, conforme levantamento do Relatório Anual de Feminicídios. Além disso, milhares de tentativas de assassinato são registradas anualmente, evidenciando um problema estrutural.
Durante o encontro, promovido por Petrobras e Banco do Brasil, o secretário destacou que o enfrentamento à violência de gênero não pode se limitar à punição após o crime. Para ele, é essencial atuar na prevenção, criando ambientes de trabalho seguros e livres de violência.
Márcio Rosa classificou a omissão das empresas como uma falha ética e institucional. Segundo ele, organizações que não oferecem canais seguros de denúncia ou que desestimulam vítimas a relatar abusos acabam contribuindo para a perpetuação da violência. Ele também criticou práticas que expõem vítimas ou deixam de responsabilizar agressores.
O secretário defendeu que as empresas implementem políticas internas robustas e envolvam suas cadeias de fornecedores, ampliando o alcance das ações. Para ele, a mudança cultural só ocorre com medidas concretas e permanentes, que envolvam toda a estrutura organizacional.
Um dos exemplos apresentados no evento foi o trabalho desenvolvido pela empresária Luiza Trajano, fundadora da Magazine Luiza. Ela relatou a criação do Canal Mulher, iniciativa voltada ao apoio de funcionárias vítimas de violência doméstica. O projeto surgiu após o assassinato de uma colaboradora e oferece suporte psicológico, jurídico e social.
Entre as ações adotadas pela empresa estão o pagamento de aluguel para funcionárias em situação de risco e a criação de um botão de denúncia no aplicativo da companhia, que aciona imediatamente o serviço 180. Além disso, a empresa promove treinamentos para que funcionários, incluindo homens, saibam identificar sinais de violência.
Trajano destacou a importância do engajamento masculino no enfrentamento do problema e elogiou iniciativas do governo federal que incentivam essa participação. Para ela, a conscientização deve atingir todos os públicos, independentemente de classe social ou nível de escolaridade.
A presidenta do Pacto de Promoção da Equidade Racial, Wania Sant’Anna, também ressaltou o papel das empresas na transformação social. Segundo ela, o ambiente corporativo pode influenciar comportamentos e contribuir para a conscientização da sociedade.
Ela defendeu que cada empresa utilize seus próprios meios de comunicação para abordar o tema, seja em postos de gasolina, aeroportos ou transportes públicos. A ideia é ampliar o alcance da mensagem e tornar o combate à violência uma pauta permanente.
No âmbito internacional, a Organização das Nações Unidas também incentiva a atuação das empresas por meio de iniciativas como o Pacto Global. A diretora Monica Gregori destacou que as organizações devem adotar medidas concretas para combater diferentes formas de violência, incluindo assédio moral e sexual no ambiente corporativo.
A primeira-dama Rosângela Lula da Silva chamou atenção para o crescimento da violência digital contra mulheres, especialmente nas redes sociais. Segundo ela, o ambiente online tem se tornado um espaço de disseminação de conteúdos misóginos, que reforçam desigualdades e estimulam agressões.
Ela citou casos recentes de violência como exemplos da gravidade da situação e defendeu a criação de políticas públicas e iniciativas privadas que enfrentem esse tipo de comportamento. Para Rosângela, o combate à misoginia deve envolver todos os setores da sociedade.
Representando a Empresa Brasil de Comunicação, o diretor-presidente André Basbaum destacou o papel da mídia pública na promoção do debate. Segundo ele, veículos de comunicação têm responsabilidade na formação de valores e podem contribuir para a construção de uma sociedade mais igualitária.
A diretora de conteúdo da EBC, Antonia Pellegrino, reforçou que a produção de conteúdos pode influenciar o imaginário coletivo e ajudar a transformar realidades. Para ela, é fundamental que a comunicação aborde o tema de forma contínua e responsável.
O evento evidenciou que o enfrentamento à violência de gênero exige ação coordenada entre governo, empresas e sociedade civil. A expectativa é que iniciativas como essas ampliem o debate e contribuam para reduzir os índices de violência no país, promovendo mudanças estruturais e culturais duradouras.
Fabio: Rodrigues-Pozzebom/ Agência Brasil

