A fala do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) sobre o papel estratégico do Brasil no fornecimento de minerais críticos aos Estados Unidos provocou reação de políticos de esquerda e integrantes do governo Luiz Inácio Lula da Silva. Durante participação na Conferência de Ação Política Conservadora (CPAC), no Texas, no sábado, o parlamentar afirmou que o país pode ser “a solução” para reduzir a dependência americana da China em terras-raras.
— O Brasil é a solução para que os Estados Unidos não dependam mais da China em terras-raras e minerais críticos — disse o senador, pré-candidato à Presidência da República.
A declaração foi alvo de críticas de governistas, que acusaram Flávio Bolsonaro de defender uma relação de submissão aos interesses americanos. A ministra da Secretaria de Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, afirmou que episódios como esse mostram que adversários do governo não recuam de posições que classificou como prejudiciais ao país.
— Os vendilhões da pátria não tomam jeito — escreveu nas redes sociais.
O deputado federal Guilherme Boulos (PSOL-SP) também criticou a fala do senador e afirmou que ela representa “o fato mais grave das eleições de 2026 até aqui”. Segundo ele, Flávio Bolsonaro teria se comprometido publicamente a entregar recursos estratégicos do país em troca de apoio externo.
— Este cidadão está oferecendo as riquezas e o futuro do povo brasileiro a uma potência estrangeira em troca de apoio. Entenderam o que vai estar em jogo em outubro? — questionou Boulos.
O deputado Lindbergh Farias (PT-RJ) classificou o posicionamento como traição e chamou o senador de “traidor da pátria” e “vendilhão de Trump”, acusando-o de atuar em favor de interesses estrangeiros ao tratar recursos naturais brasileiros como ativos disponíveis ao exterior.
A fala de Flávio Bolsonaro ocorreu no mesmo discurso em que pediu monitoramento internacional das eleições brasileiras e criticou o governo Lula. O senador tem intensificado agendas no exterior como parte da estratégia de se projetar como nome da direita para a disputa presidencial de 2026.
No campo geopolítico, o tema das terras-raras ganhou relevância nos últimos anos diante da disputa entre Estados Unidos e China. Os minerais são essenciais para a produção de tecnologias como baterias, turbinas e equipamentos eletrônicos, e atualmente os chineses dominam grande parte da cadeia global de produção e processamento.
As terras-raras são um conjunto de 17 elementos químicos da tabela periódica. Apesar do nome, são encontrados no solo e em minerais, mas em baixas concentrações, tornando sua extração complexa, cara e ambientalmente sensível. Em depósitos extensos, aproveita-se pouco.
O Brasil concentra a segunda maior reserva de terras-raras do mundo, atrás apenas da China. Dados do Serviço Geológico do Brasil indicam que o país reúne cerca de 23% das reservas globais desses elementos. Além disso, o país se destaca pela qualidade dos depósitos de argila iônica, comparável às reservas estratégicas chinesas na província de Jiangxi.
Entre os minerais estratégicos estão lítio, nióbio, cobalto, grafite e terras-raras. O Brasil detém cerca de 8% das reservas mundiais de lítio e 93,1% das reservas de nióbio, usadas na produção de ligas metálicas para indústria e setor aeroespacial.
Para especialistas, esses minerais críticos vão exercer papel geopolítico semelhante ao do petróleo no século XX. O desenvolvimento rápido de tecnologias avançadas, de baterias de carros elétricos e painéis fotovoltaicos a semicondutores e armamentos, aumentou a demanda global por minerais críticos.
Eles são cada vez mais importantes para a transição energética e para a inovação tecnológica. O crescimento de baterias de carros elétricos, painéis solares, turbinas eólicas, semicondutores e equipamentos de defesa elevou a necessidade desses insumos no mundo.
No setor militar, terras-raras e outros minerais críticos são essenciais em equipamentos sensíveis e estratégicos, como radares, sistemas de comunicação, mísseis guiados, equipamentos de visão noturna e componentes eletrônicos de alta precisão.
A corrida internacional por esses recursos reforça a importância do Brasil como fornecedor estratégico fora da Ásia. Especialistas afirmam que decisões políticas internas sobre exploração e exportação terão impacto direto na posição do país na geopolítica global, influenciando acordos comerciais e alianças estratégicas.
O debate sobre a gestão e proteção desses recursos naturais será central para candidatos, governos e setores produtivos, pois envolve não apenas ganhos econômicos, mas também soberania, segurança nacional e desenvolvimento tecnológico de longo prazo.
Foto: Geraldo Magela/Agência Senado

