Os Estados Unidos e a Coreia do Sul iniciaram nesta segunda-feira seus maiores exercícios militares conjuntos desde 2018, quando o então presidente americano Donald Trump tentou negociar um acordo de desnuclearização com a Coreia do Norte.

O plano, contudo, fracassou diante da resistência do ditador norte-coreano, Kim Jong-un, de fazer maiores concessões antes da suspensão das sanções da ONU e dos EUA a Pyongyang.

Conhecido como Ulchi Freedom Shield, o exercício está previsto para durar até 1º de setembro e deve envolver milhares de militares. Os detalhes não foram divulgados, mas normalmente incluem exercícios de campo envolvendo aviões, navios de guerra e tanques. Há hoje cerca de 35 mil militares americanos nas bases que os EUA mantêm na Coreia do Sul desde o fim da Guerra da Coreia, em 1953.

De acordo com Washington e Seul, as manobras são de defesa e devem incluir exercícios para coordenar forças em resposta a uma hipotética invasão norte-coreana. Uma retaliação de Pyongyang, que há décadas acusa os exercícios de serem um ensaio para um ataque ou uma guerra nuclear, é quase garantida.

Há semanas, o regime de Kim endurece sua retórica indicando que pretende realizar um novo teste nuclear, o sétimo desde 2006 e o primeiro desde que país anunciou, no início do ano, que não observaria mais uma moratória autoimposta há cinco anos.

De acordo com o presidente da Coreia do Sul, Yoon Suk-yeol, as manobras conjuntas incluirão cenários reais, como a proteção de infraestrutura como portos, aeroportos, usinas nucleares e fábricas de semicondutores. Em uma reunião de Gabinete nesta segunda, ele disse que “as guerras de hoje são totalmente diferentes das do passado”.

Yoon, um conservador que assumiu o cargo em maio, prometeu adotar uma política mais linha dura frente a Pyongyang e retomar os exercícios conjuntos em larga escala.

Seu governo disse no mês passado que os aliados voltariam a praticar cenários de guerra em terra, no mar e no ar, substituindo o treinamento nos últimos anos que usava simulações computadorizadas de comando e controle.

Os EUA, a Coreia do Sul e o Japão já haviam realizado um exercício conjunto de defesa antimísseis no Havaí no início deste mês. A demonstração pública de unidade de Tóquio e Seul, dois aliados dos EUA, sinaliza a melhoria das relações bilaterais últimos anos, mesmo diante das disputas decorrentes do domínio colonial do Japão sobre a Península Coreana, de 1910 a 1945.

Pyongyang tenta há décadas alavancar a perspectiva de negociações de desarmamento para reduzir os exercícios militares dos EUA e da Coreia do Sul, algo com que Trump concordou durante suas cúpulas com Kim. Eles se reuniram três vezes, mas não houve resultados concretos para reverter o programa nuclear militar da Coreia do Norte. O regime norte-coreano pedia que o desmantelamento do seu arsenal fosse acompanhado de medidas recíprocas de Washington, que se recusou a adotá-las.

Kim Yo-jong, a poderosa irmã do líder norte-coreano, rejeitou na semana passada o pacote de ajuda econômica oferecido pela Coreia do Sul em troca da desnuclearização de Pyongyang. O plano, disse ela, é o “cúmulo do absurdo”, descartando a possibilidade de negociações presenciais ou de maior engajamento com Seul.

O antecessor de Yoon, Moon Jae-in, evitava irritar Pyongyang e fazer manobras militares públicas que pudessem azedar os laços com a China ou atrapalhar sua reaproximação com os norte-coreanos. Um dos grandes e fracassados objetivos do ex-presidente durante os cinco anos em que esteve no cargo era obter algum tipo de avanço palpável e durável com a Coreia do Norte, especialmente após um período marcado por uma série de testes de mísseis balísticos e, mais grave, de armas nucleares.

Os EUA, o Japão e a Coreia do Sul alertam há semanas que a Coreia do Norte está se preparando para seu primeiro teste nuclear desde 2017. Pyongyang, dizem eles, tenta construir ogivas pequenas o suficiente para que dispositivos táticos atinjam aliados americanos na Ásia. Também almeja aumentar a potência das armas que seriam transportadas por mísseis balísticos intercontinentais, com capacidade para chegar em solo americano.

Qualquer teste serviria também como um lembrete para o presidente Joe Biden de que a situação na Península Coreana é frágil. Há quase seis meses, desde que a invasão russa na Ucrânia eclodiu em 24 de fevereiro, o foco da política externa americana é ajudar Kiev.

Como a maioria dos soldados americanos fica na Coreia do Sul por cerca de 12 meses, os exercícios anuais são normalmente o único momento que os militares dos EUA têm para fazerem exercícios de cenários reais com os aliados. As tropas e os equipamentos de bases em solo americano e japonês às vezes também participam.

Os EUA têm cerca de 28,5 mil soldados na Coreia do Sul e líderes militares de ambos os lados disseram que os exercícios são essenciais para se preparar para quaisquer provocações de Pyongyang. A Coreia do Norte, por sua vez, posiciona grande parte dos seus um milhão de militares na região fronteiriça.