Após meses de negociações e tensões públicas, os Estados Unidos e a Ucrânia estão próximos de assinar um acordo que poderá permitir aos americanos explorar os recursos minerais do território ucraniano. O entendimento é apresentado como uma contrapartida pela continuidade do apoio financeiro e militar de Washington a Kiev, no contexto da guerra contra a Rússia. No entanto, horas antes da esperada assinatura, divergências de última hora ameaçam paralisar o avanço do pacto.

Cerca de duas semanas atrás, os dois governos firmaram um memorando de entendimento estabelecendo um prazo até 26 de abril para concluir as tratativas. Um texto-base foi elaborado, incluindo concessões bilaterais e a promessa de criação de um fundo conjunto de reconstrução. Segundo uma versão preliminar obtida pela agência Reuters, os EUA teriam acesso preferencial aos recursos minerais da Ucrânia — incluindo terras raras, consideradas estratégicas para os setores de defesa e tecnologia — sem, no entanto, receber automaticamente participação sobre esses ativos.

O rascunho também exclui qualquer menção a compensações financeiras pela assistência de bilhões de dólares que os EUA forneceram à Ucrânia desde a invasão russa em fevereiro de 2022. “Eu disse: ‘Ok, queremos algo pelos nossos esforços’. E dissemos: terras raras”, declarou o presidente Donald Trump durante reunião do Gabinete, completando que o acordo permitirá que os EUA “comecem a escavar” no território ucraniano. “E fazer o que temos que fazer.”

Por outro lado, o documento não contempla garantias formais de segurança dos EUA à Ucrânia — um dos pedidos iniciais de Kiev. Em resposta, Trump declarou que a presença de empresas americanas no país serviria como proteção suficiente. “É bom para eles, porque terão uma presença americana no local. Acredito que isso manterá muitos atores mal-intencionados fora do país”, afirmou o presidente nesta quarta-feira (30).

O acordo também propõe a criação de um fundo conjunto, administrado por Washington e Kiev, voltado para a reconstrução da Ucrânia. Os recursos viriam de 50% dos lucros e royalties gerados pela exploração dos recursos minerais. De acordo com o Serviço Geológico dos EUA, a Ucrânia possui reservas de 22 dos 50 minerais considerados críticos para a indústria norte-americana.

“A Ucrânia só contribuirá com novas licenças e royalties sobre os recursos minerais. Essa será a nossa parte, 50% da qual será destinada a esse fundo”, disse o primeiro-ministro ucraniano, Denys Shmyhal. “É um acordo verdadeiramente estratégico e igualitário sobre investimentos conjuntos na reconstrução do país.”

Na manhã desta quarta-feira, Shmyhal demonstrava confiança. Anunciou que a ministra da Economia da Ucrânia, Yulia Svyrydenko, estava a caminho de Washington para assinar o acordo, e afirmou que os detalhes finais haviam sido resolvidos no último fim de semana. “Estamos finalizando os últimos detalhes com nossos colegas americanos. Assim que tudo for concluído, esperamos assinar o acordo nas próximas 24 horas”, declarou à TV ucraniana.

No entanto, segundo o jornal britânico *Financial Times*, Svyrydenko pode retornar a Kiev sem assinar o acordo. Autoridades americanas querem que a ministra formalize não apenas o pacto principal, mas também um termo técnico detalhado sobre o fundo conjunto e um terceiro documento de governança. Fontes da Casa Branca afirmam que, no fim de semana, os ucranianos tentaram reabrir cláusulas que já haviam sido acordadas, especialmente aquelas relativas à transparência e rastreabilidade financeira.

“Todos os três documentos precisam ser assinados hoje, mas os ucranianos estão tentando renegociar pontos fechados. Os EUA estão prontos para assinar”, disse um representante americano à Reuters. O secretário do Tesouro, Scott Bessent, reiterou durante a reunião de Gabinete: “Estamos prontos para assinar esta tarde. É o mesmo acordo fechado no fim de semana. Não fizemos nenhuma mudança.”

Fontes ucranianas, porém, argumentam que não será possível assinar todos os documentos imediatamente, já que certos pontos — como o fundo especial — precisam de aprovação do Parlamento. Um assessor próximo a Svyrydenko, citado pelo *Financial Times*, disse que o governo teme que as exigências americanas levem ao colapso da negociação. “Apesar de estarmos confiantes, a chance de assinar tudo hoje é de apenas 50%”, declarou.

A proposta de Trump para explorar os minerais ucranianos remonta ao início de seu mandato e sempre foi apresentada como uma forma de compensar o apoio financeiro e militar prestado ao país. No entanto, a relação entre o republicano e o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky tem sido marcada por desconfiança e atritos pessoais.

Em 28 de fevereiro, durante uma visita de Zelensky à Casa Branca, os dois líderes protagonizaram um embate público diante das câmeras, com críticas mútuas sobre a condução da guerra. O episódio envolveu ainda o vice-presidente americano J.D. Vance e resultou no cancelamento da assinatura de uma versão anterior do acordo. Zelensky deixou Washington sem firmar o pacto e, em consequência, a ajuda militar foi temporariamente suspensa.

O novo impasse surge em um momento de crescente impaciência por parte de Trump com a ausência de um acordo de paz para encerrar o conflito. O presidente já declarou publicamente que resolveria a guerra “em menos de 24 horas” e, em reuniões recentes, elevou o tom contra Zelensky e seu governo. Além disso, Trump tem questionado se o presidente russo Vladimir Putin estaria de fato comprometido com negociações de paz.

Durante visita recente ao Vaticano para o funeral do Papa Francisco, Trump e Zelensky chegaram a se encontrar brevemente, mas o clima foi descrito por diplomatas como “tenso e frio”. O líder americano tem repetido que, sem avanço concreto nas negociações de paz, pode abandonar as tratativas com Kiev e redirecionar os recursos para outros interesses estratégicos dos EUA.

O desenrolar das próximas horas será crucial para o futuro do acordo mineral e da própria relação bilateral. Um fracasso na assinatura pode intensificar a pressão interna sobre Zelensky, já desgastado pela duração do conflito e pela dificuldade de reconstrução do país. Por outro lado, também pode levar Trump a rever sua política externa, num momento em que o apoio ao envolvimento americano na guerra da Ucrânia sofre crescente resistência no Congresso e entre o eleitorado republicano.

Se assinado, o acordo marcará um novo capítulo na relação entre os dois países, com implicações significativas para a geopolítica da energia, da reconstrução da Ucrânia e da presença estratégica americana no leste europeu. Se fracassar, pode sinalizar o início de um distanciamento entre Kiev e Washington, em plena escalada das tensões no cenário global.

Foto: Roman Pilipey


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