Desde março, a Agência Brasileira de Inteligência (Abin) deixou de acompanhar as viagens nacionais e internacionais do presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva (PT). A interrupção das atividades, segundo fontes internas, foi motivada por cortes no orçamento da agência, comprometendo o setor de Inteligência de Proteção, responsável por planejar e executar ações de segurança relacionadas aos deslocamentos presidenciais.

Criado durante o governo de Jair Bolsonaro (PL) e formalizado por decreto na gestão Lula, o setor estava vinculado ao Departamento de Operações de Inteligência da Abin. A reformulação recente, promovida pelo atual diretor da agência, Luiz Fernando Corrêa, elevou a equipe ao nível de coordenação-geral, ampliando sua estrutura e destacando sua importância estratégica. No entanto, em março, a verba destinada ao setor foi cortada, e ferramentas cruciais para as operações de inteligência foram retiradas, deixando a equipe ociosa.

Até então, o grupo realizava visitas prévias aos locais de eventos presidenciais e permanecia até o retorno do chefe do Executivo, desempenhando papel fundamental na proteção preventiva. Hoje, essa atribuição é parcialmente coberta pela Secretaria de Segurança Presidencial, ligada ao Gabinete de Segurança Institucional (GSI), que mantém um setor de Análise de Risco. Apesar disso, servidores relatam que a ausência da Abin representa uma lacuna na segurança presidencial.

A atual direção da Abin minimiza a situação, apontando que a agência contribuiu para eventos relevantes, como o G20, com visitas técnicas a 31 locais onde estiveram ministros e chefes de Estado. Contudo, a Abin tem enfrentado desafios internos desde o início da gestão Lula, com sua reputação abalada por investigações da Polícia Federal (PF) sobre uma suposta estrutura paralela de espionagem na administração anterior.

A PF afirma que agentes envolvidos nesse esquema ainda ocupam cargos estratégicos na Abin e acusa a atual gestão de dificultar investigações. Em resposta, a Abin nega qualquer relação com a chamada “Abin paralela” e garante ter colaborado integralmente com as apurações, que ainda estão em andamento.

O diretor da PF, Andrei Rodrigues, responsável pela segurança de Lula durante a campanha eleitoral, afirmou em julho que não podia confirmar se a Abin ainda estava contaminada por práticas ilícitas. Esse clima de rivalidade entre a PF e a Abin é reflexo de uma disputa que marcou o início do governo Lula, quando houve debates sobre qual órgão seria responsável pela segurança presidencial.

No fim, Lula decidiu manter o GSI no comando da segurança, em um modelo híbrido que inclui participação da PF e, em alguns casos, de policiais estaduais. A PF também criou, em 2023, um setor voltado à proteção de autoridades, vinculado à Diretoria de Proteção à Pessoa, instituída após tensões com o GSI.

A perda de relevância da Abin na proteção presidencial gera preocupações, especialmente diante dos desafios de segurança enfrentados pelo governo. Apesar dos esforços para reestruturar a agência, a falta de verba e os conflitos internos seguem limitando sua atuação, enquanto o GSI e a PF assumem papéis cada vez mais decisivos na segurança do presidente.

Foto: Ricardo Stuckert/PR


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