Réu na ação penal que investiga uma tentativa de golpe de Estado para manter Jair Bolsonaro na Presidência e impedir a posse de Luiz Inácio Lula da Silva, o general Augusto Heleno, ex-ministro do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), negou nesta terça-feira, 10 de junho, qualquer envolvimento no suposto plano golpista. Durante seu interrogatório no Supremo Tribunal Federal (STF), Heleno afirmou que não coordenou ações para espalhar informações falsas contra a legitimidade do sistema eleitoral nem contra a segurança das urnas eletrônicas.
Amparado por seu direito constitucional, Heleno optou por não responder às perguntas formuladas pelo relator da ação, ministro Alexandre de Moraes. No entanto, respondeu aos questionamentos feitos por seu advogado, Matheus Mayer Milanez. O general também negou ter dirigido a Agência Brasileira de Inteligência (Abin) na elaboração de relatórios falsos ou ilegais. Afirmou ainda que nunca discutiu qualquer ação fora da legalidade com Bolsonaro, comandantes militares ou outros integrantes do governo.
Heleno comentou o contexto de declarações polêmicas feitas em uma reunião ministerial gravada em julho de 2022, na qual disse que não haveria “segunda chamada” ou “revisão do VAR” após o resultado das eleições e que eventuais medidas deveriam ser tomadas antes do pleito. Na reunião, afirmou: “Se tiver que dar soco na mesa, é antes das eleições. Se tiver que virar a mesa, é antes das eleições. Depois, será muito difícil que tenhamos alguma nova perspectiva \[em caso de vitória de Lula]”.
Questionado nesta terça-feira por seu advogado, o ex-ministro garantiu que utilizou essas expressões de forma figurada. “Preocupava-me a situação política que estávamos vivendo e acreditava que precisávamos agir antes que isso trouxesse maiores problemas para o sucesso das eleições”, explicou Heleno.
O general também foi questionado sobre um diálogo, durante a mesma reunião, em que mencionou uma conversa com o então diretor interino da Abin, Victor Felismino Carneiro, sobre a criação de um esquema para monitorar as campanhas presidenciais. Na gravação, Heleno disse que o único risco seria o vazamento da iniciativa, o que poderia gerar acusações de infiltração da Abin nas campanhas de adversários de Bolsonaro.
Durante o interrogatório, Heleno explicou que de fato conversou com Victor para garantir que houvesse monitoramento das campanhas por questões de segurança, citando o atentado contra Bolsonaro em Juiz de Fora como precedente. Segundo o general, a intenção era promover a integração entre órgãos de segurança. “Eu realmente conversei com o Victor para que fosse realizado um acompanhamento das campanhas presidenciais, a fim de evitar que acontecesse algo como o que já tinha acontecido com Bolsonaro. Julguei muito importante que houvesse uma integração entre órgãos de segurança”, disse Heleno.
Ele assegurou que não houve qualquer tentativa de infiltração. “Deixei bem claro para o Victor que, conforme manda a Constituição, não podemos infiltrar elementos da Abin nessas atividades. Não havia interesse em mascarar isso. Até porque não era nossa intenção infiltrar agentes, o que, tecnicamente, nem seria possível. A ideia era acompanhar de perto o que acontecia e agir para evitar situações que prejudicassem o andamento das campanhas”, afirmou.
Por fim, Heleno rejeitou a interpretação conspiratória que a Procuradoria-Geral da República (PGR) atribuiu a anotações encontradas em uma caderneta apreendida em sua casa pela Polícia Federal. Segundo o general, o conteúdo da agenda nunca foi compartilhado com ninguém.
Foto: Ton Molina/STF

