A pesquisa “O que pensam os deputados”, divulgada pela Genial/Quaest, aponta uma queda expressiva na avaliação positiva da atuação do presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), ao longo dos últimos seis meses. Em junho, 68% dos parlamentares classificavam sua atuação de forma positiva. No levantamento mais recente, esse índice recuou para 55%, representando uma perda de treze pontos percentuais no período analisado.
O recuo é ainda mais significativo entre deputados que se declaram governistas. Nesse grupo, a aprovação caiu de 77% para 44%, revelando um desgaste acentuado da relação entre Motta e a base alinhada ao Palácio do Planalto. Entre os parlamentares independentes, a avaliação positiva também diminuiu, passando de 82% para 70%. Já na oposição, o cenário permaneceu relativamente estável, com leve oscilação positiva, de 47% para 49%, indicando que a imagem do presidente da Câmara pouco se alterou nesse campo político.
A percepção dos deputados ouvidos pela pesquisa coincide com decisões recentes tomadas por Motta no comando da Casa. Em um gesto interpretado como aproximação com a base bolsonarista, ele colocou em pauta o projeto de lei da dosimetria, que prevê a redução de penas para os condenados pelos atos de 8 de janeiro e pode beneficiar diretamente o ex-presidente Jair Bolsonaro, condenado no âmbito da trama golpista.
No dia seguinte, Motta também pautou a análise da cassação dos mandatos dos deputados Glauber Braga (PSOL-RJ) e Carla Zambelli (PL-SP). No caso de Braga, o plenário decidiu por uma suspensão de seis meses. Já Zambelli teve o mandato mantido em votação na Câmara, decisão que posteriormente foi anulada pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, que decretou a perda do cargo. A deputada encontra-se presa na Itália após deixar o Brasil depois de ser condenada pela invasão hacker ao sistema eletrônico do Conselho Nacional de Justiça.
Outro fator que contribuiu para o desgaste foi o rompimento político entre Motta e o líder do PT na Câmara, Lindbergh Farias (RJ). A relação entre os dois se deteriorou após sucessivos atritos, incluindo a condução do PL Antifacção, cuja relatoria foi entregue à oposição. O conflito se intensificou quando Lindbergh afirmou que Motta “está perdendo as condições de presidir a Câmara”, após a retirada de Glauber Braga da cadeira da presidência durante sessão que antecedeu a análise de sua cassação.
O levantamento também avaliou a percepção dos deputados sobre a relação entre a Câmara e o governo federal. Para 50% dos entrevistados, essa relação é considerada negativa, percentual semelhante ao registrado anteriormente. Entre parlamentares independentes, porém, houve melhora significativa, com a avaliação negativa caindo de 65% para 44%. Entre deputados do Centro, a rejeição também diminuiu, passando de 40% para 33%.
No que diz respeito à interlocução do governo com o Congresso, a ministra da Secretaria de Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, foi apontada como a principal responsável pelo diálogo com a Câmara por 21% dos deputados. Em seguida aparece o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, que ocupou anteriormente o cargo. Uma parcela de 29% afirmou que a articulação é feita por “outros” interlocutores, enquanto 14% disseram não haver interlocutor definido e 18% não souberam responder. A pesquisa também mediu a rejeição aos ministros, com Rui Costa, da Casa Civil, liderando com 43%, seguido por Fernando Haddad, da Fazenda, com 42%.
Questionados sobre o cenário eleitoral de 2026, 43% dos deputados afirmaram que o presidente Lula deve ser o favorito, enquanto 42% apostam na vitória da oposição. A divisão também aparece na avaliação sobre a influência de Jair Bolsonaro: 42% acreditam que a direita pode eleger um candidato sem o ex-presidente, e outros 42% discordam.
Em relação às pautas do governo, a maioria dos deputados se mostrou favorável à regulamentação do trabalho em aplicativos, à tarifa zero no transporte público e à segunda etapa da reforma tributária. Para cumprir a meta fiscal, 90% defenderam a redução dos supersalários e o aumento da taxação das apostas esportivas. A PEC da Segurança Pública também registrou avanço, com 49% favoráveis. A pesquisa ouviu 167 deputados, com margem de erro de sete pontos percentuais.
Foto: Bruno Spada / Câmara dos Deputados

