Após a intensa mobilização do Palácio do Planalto para defender a tese de que a derrubada do decreto que aumentava o Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) favorecia os mais ricos, a ministra das Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, fez um movimento para reduzir as tensões e repudiou publicamente, em postagem nas redes sociais, os ataques virtuais direcionados ao presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB). O líder do governo na Câmara, José Guimarães (PT-CE), também se posicionou na mesma direção, mesmo com o governo mantendo o tom firme ao defender o conceito de “justiça tributária”.

A pressão sobre o Congresso cresceu nas redes sociais, com discursos que sugeriam que os parlamentares estariam protegendo os mais privilegiados em prejuízo dos mais pobres. Embora integrantes do governo não tenham atacado diretamente a cúpula do Congresso, perfis alinhados à esquerda intensificaram as críticas.

“O debate, a divergência, a disputa política fazem parte da democracia. Mas nada disso autoriza os ataques pessoais e desqualificados nas redes sociais contra o presidente da Câmara, deputado Hugo Motta, o que repudio. Não é assim que vamos construir as saídas para o Brasil, dentre as quais se destaca a justiça tributária. O respeito às instituições e às pessoas é essencial na política e na vida”, afirmou Gleisi.

Nas redes sociais, circula um vídeo com um personagem criado por inteligência artificial chamado “Hugo Nem se Importa”, que simula um jantar com empresários e faz piadas sugerindo que o presidente da Câmara defende exclusivamente interesses dos mais ricos. “Meus amigos empresários, hoje é sobre vocês. Esquece o povo. A nova lei é simples: mais lucro para cima e conta de luz cara para baixo”, diz o personagem, atribuindo ao deputado frases que nunca foram ditas por ele.

Na segunda-feira, Hugo Motta participou de um jantar na casa do ex-governador de São Paulo João Doria. A presença foi amplamente explorada pela militância de esquerda nas redes sociais. No vídeo que satiriza o deputado, uma mulher menciona o jantar e diz que ali estaria sendo discutido o congelamento do salário mínimo.

Assim como Gleisi, o líder do governo na Câmara, José Guimarães, enfatizou que o resultado desfavorável na votação do decreto do IOF “não pode ser usado como justificativa para ataques pessoais” a Motta. “O que devemos continuar priorizando é a disputa de ideias no campo social, engajando a sociedade na compreensão dos esforços que o governo vem realizando para taxar os super-ricos e promover justiça social e tributária. É com base nesse diálogo público e transparente que construiremos os consensos necessários com a Câmara dos Deputados, onde tramitam inúmeros projetos de interesse nacional”, destacou Guimarães, que também manifestou solidariedade a Motta.

Na semana anterior, aliados do governo aumentaram os ataques ao Congresso nas redes sociais. A Frente Povo Sem Medo, por exemplo, publicou imagens das Casas Legislativas em chamas, acompanhadas da hashtag #congressoinimigodopovo.

“A falsa preocupação do Congresso e do centrão com corte de gastos não é sobre responsabilidade fiscal e sim sobre o brasileiro continuar a pagar a farra dos supersalários, para aumentar número de deputados e defender interesses da elite”, escreveu a Frente Povo Sem Medo em uma de suas postagens no Instagram, rede em que possui pouco mais de 20 mil seguidores. Conteúdos semelhantes foram divulgados no perfil do grupo na rede X.

Conforme revelou a colunista Bela Megale, do jornal O Globo, Motta tem demonstrado insatisfação com o fato de o governo ter acionado o Supremo Tribunal Federal (STF) para tentar reverter, por via judicial, a decisão do Congresso que derrubou o aumento do IOF.

Segundo interlocutores, uma das reclamações de Motta direcionadas a integrantes do governo é a ausência de reconhecimento pelo esforço da Câmara em aprovar três medidas provisórias no mesmo dia da votação que resultou na derrota do governo sobre o IOF.

“Vocês só ligam pra reclamar, nunca fazem um gesto pra agradecer”, disse Motta a diferentes auxiliares do presidente Lula.

Cerca de uma semana depois, Gleisi utilizou as redes sociais para reconhecer a atuação do Congresso na aprovação da Medida Provisória que autoriza o uso de até R$ 15 bilhões do Fundo Social do pré-sal para habitação popular e permite ao governo leiloar óleo e gás excedente, com potencial de arrecadação de até R$ 20 bilhões.

Muito importante para o país a aprovação, semana passada pela Câmara dos Deputados e ontem pelo Senado Federal, da Medida Provisória do Fundo Social. Isso vai permitir que os recursos do Fundo sejam aplicados também no financiamento à habitação, com uma nova faixa do Minha Casa Minha Vida. E a medida também permite a antecipação da venda do petróleo excedente, gerando recursos de mais de R$ 15 bilhões para este ano e no próximo. O governo do presidente Lula agradece esta grande contribuição do Congresso Nacional para o Brasil e segue dialogando para fazer o país avançar“, escreveu Gleisi.

Hugo Motta está em Lisboa para participar de um evento que reúne autoridades dos três poderes, promovido por um instituto ligado ao ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal. Antes de embarcar, o presidente da Câmara indicou que pretende “dar um tempo” antes de retomar conversas com Lula ou com representantes do governo. O retorno de Motta ao Brasil está previsto para o fim da semana.

Foto: Gil Ferreira/SRI

 

 


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