Os efeitos da guerra no Oriente Médio provocaram forte impacto sobre preços no Brasil e levaram o Índice Geral de Preços – Mercado a registrar alta de 2,73% em abril, maior variação mensal desde maio de 2021. Conhecido como inflação do aluguel, o indicador acelerou de forma expressiva em relação aos 0,52% registrados em março e interrompeu sequência de cinco meses de deflação no acumulado em 12 meses.
Divulgado pelo Fundação Getúlio Vargas, o índice refletiu sobretudo a pressão exercida pelo encarecimento do petróleo e dos combustíveis, impulsionado pela instabilidade geopolítica envolvendo a região do Estreito de Ormuz, rota estratégica para o mercado global de energia.
Segundo o economista Matheus Dias, do Instituto Brasileiro de Economia, todos os componentes do indicador sentiram efeitos diretos do conflito. A pressão foi percebida tanto nos custos de produção quanto nos preços ao consumidor e na construção civil.
O maior impacto veio do Índice de Preços ao Produtor Amplo, responsável por 60% da composição do IGP-M. O indicador subiu 3,49% em abril, também no maior nível desde maio de 2021. A alta foi puxada por matérias-primas e insumos ligados à cadeia petroquímica, afetados pela elevação internacional dos derivados de petróleo.
No mercado doméstico, combustíveis tiveram papel central na aceleração inflacionária. A gasolina registrou alta média de 6,29%, enquanto o óleo diesel subiu 14,93%. Como o diesel é fundamental para o transporte de cargas, seu aumento também pressiona fretes e amplia impactos sobre alimentos e outros bens.
Essa transmissão de custos apareceu no Índice de Preços ao Consumidor, que avançou 0,94% em abril. Entre os itens que mais pressionaram o bolso das famílias também aparecem leite longa vida, tomate e tarifa de energia elétrica.
O grupo transportes foi um dos mais afetados, com alta média de 2,26%, refletindo a escalada dos combustíveis. Analistas apontam que esse tipo de choque tende a irradiar pressões por vários segmentos da economia, ampliando efeitos secundários sobre preços.
O conflito internacional é apontado como principal vetor desse movimento. A tensão na região produtora de petróleo elevou receios de restrições logísticas e redução da oferta global, impulsionando preços internacionais. Como petróleo e derivados são commodities precificadas globalmente, seus impactos se propagam inclusive em países produtores como o Brasil.
O governo federal tem adotado medidas para conter a escalada dos combustíveis, incluindo ações tributárias e apoio a importadores e produtores. Ainda assim, o repasse aos índices de preços vem sendo percebido em diferentes cadeias econômicas.
Outro componente do IGP-M, o Índice Nacional de Custo da Construção, também avançou e subiu 1,04% em abril, contribuindo para a pressão geral do indicador.
O comportamento do IGP-M é acompanhado com atenção porque o índice costuma ser referência para reajustes de contratos imobiliários, além de influenciar correções em tarifas e alguns serviços públicos. A alta registrada reacende preocupações sobre impactos para consumidores e empresas nos próximos meses.
Economistas observam que o avanço do índice pode ainda influenciar expectativas sobre inflação e política monetária, em momento em que o mercado acompanha decisões do Banco Central do Brasil sobre juros.
A coleta de preços do indicador foi realizada em cidades como Belo Horizonte, Brasília, Porto Alegre, Recife, Rio de Janeiro, São Paulo e Salvador, entre 21 de março e 20 de abril.
A leitura predominante é que a alta do IGP-M reflete choque externo com efeitos internos relevantes e reforça o desafio de conter pressões inflacionárias em ambiente de incerteza internacional. Caso o conflito se prolongue, especialistas admitem novas pressões sobre combustíveis e cadeias produtivas, mantendo o índice sob atenção.
Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

