O Instituto Nacional de Câncer (INCA) reforçou o alerta sobre os riscos do consumo de produtos derivados do tabaco entre adolescentes e jovens durante evento realizado na última quinta-feira (28), em referência ao Dia Mundial sem Tabaco, celebrado em 31 de maio. Especialistas reunidos pela instituição defenderam medidas mais rígidas para conter o avanço dos cigarros com sabor e aroma, além dos dispositivos eletrônicos para fumar, apontados como importantes portas de entrada para a dependência de nicotina.

O diretor-geral do INCA, Roberto Gil, afirmou que o Brasil enfrenta atualmente um desafio mais amplo do que o combate ao cigarro tradicional. Segundo ele, a preocupação agora envolve toda a indústria da nicotina, que vem utilizando novas tecnologias e estratégias de mercado para atrair consumidores mais jovens.

“Me impressiona a desinformação que a gente ainda tem, porque um produto que mata um em cada dois usuários, isso não é um produto que podia existir”, declarou.

A campanha deste ano tem como tema “Desmascarando o apelo – combatendo a dependência de nicotina e tabaco” e busca chamar atenção para estratégias comerciais utilizadas pela indústria fumageira para ampliar o número de consumidores, especialmente entre crianças, adolescentes e jovens adultos.

Entre os principais alvos das campanhas de conscientização estão os cigarros aromatizados e os dispositivos eletrônicos para fumar, conhecidos popularmente como vapes e pods. Esses produtos costumam utilizar sabores doces, refrescantes e aromas variados para tornar o consumo mais atrativo, especialmente para quem nunca teve contato com o tabaco.

O Ministério da Saúde avalia que a presença desses aditivos contribui para facilitar a iniciação ao consumo de nicotina. Além dos sabores, os dispositivos eletrônicos costumam apresentar design moderno, diferentes cores e forte presença em ambientes digitais e redes sociais frequentadas por adolescentes.

Dados da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) mostram a dimensão do problema. Segundo a entidade, cerca de 2,6 milhões de adolescentes entre 13 e 15 anos utilizam produtos derivados do tabaco no continente americano. Outros 2 milhões fazem uso de cigarros eletrônicos.

Além dos impactos sobre a saúde, o tabagismo gera custos significativos para o sistema público. Estudo apresentado pelo INCA em 2025 aponta que o Brasil pode gastar até R$ 153 bilhões por ano com doenças relacionadas ao consumo de tabaco e seus derivados.

A secretária-executiva da Comissão Nacional para a Implementação da Convenção-Quadro da Organização Mundial da Saúde para o Controle do Tabaco, Vera Luiza da Costa e Silva, destacou que o mercado vem passando por uma transformação global.

Segundo ela, o consumo tradicional de cigarros está sendo substituído por novos produtos à base de nicotina sintética, sais de nicotina e tecnologias desenvolvidas para aumentar o potencial de atração entre os jovens.

O que a gente tem é um transicionamento dos cigarros para drogas com mais tecnologia, para nicotina sintética e produtos que aumentam muito a atratividade para as futuras gerações”, afirmou.

Desde 2012, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) mantém em vigor a Resolução da Diretoria Colegiada nº 14, que proíbe a utilização de aditivos responsáveis por conferir sabor, aroma, cor ou características capazes de aumentar a atratividade dos produtos derivados do tabaco.

A medida busca reduzir o interesse inicial pelo consumo e dificultar a iniciação ao fumo. No entanto, a norma vem sendo alvo de questionamentos judiciais por parte da indústria fumageira, que argumenta que a proibição comprometeria parte significativa da produção nacional de cigarros.

Um estudo divulgado pelo INCA durante o evento contesta essa avaliação. Publicada na revista científica Tobacco Control, a pesquisa utilizou dados da própria Anvisa para analisar os produtos registrados no mercado brasileiro.

Segundo o levantamento, aproximadamente metade das marcas de cigarros manufaturados registradas no país em 2025 não continha os aditivos proibidos pela regulamentação. Para os pesquisadores, o resultado demonstra que existe viabilidade técnica e econômica para a produção sem esses componentes.

O pesquisador André Zsklo, um dos autores do estudo, afirmou que a resistência da indústria está mais relacionada a interesses comerciais do que a limitações produtivas.

O que a gente está mostrando é que há viabilidade logística e de produção. O que não há é interesse mercadológico das indústrias de colocar um produto sem esses aromas e sabores que favorecem a iniciação ao fumo”, explicou.

Roberto Gil também defendeu uma decisão definitiva do Supremo Tribunal Federal para consolidar a validade nacional da norma e impedir novas contestações judiciais.

Segundo ele, o tabagismo tem atingido cada vez mais pessoas em faixas etárias mais jovens, tornando-se um desafio importante para pediatras, educadores e profissionais de saúde.

A coordenadora da Política de Prevenção e Controle do Câncer Infantojuvenil do Ministério da Saúde, Suyanne Camille Caldeira Monteiro, ressaltou que impedir o primeiro contato com a nicotina é uma das principais estratégias para reduzir o número de dependentes no futuro.

Não há dispositivo eletrônico para fumar seguro. Esse é um ponto especialmente sensível quando falamos de adolescentes e adultos jovens”, afirmou.

O tabaco continua sendo um dos principais fatores de risco para doenças crônicas não transmissíveis, incluindo câncer, diabetes, enfermidades cardiovasculares e doenças respiratórias. No Brasil, as ações de prevenção e combate ao tabagismo são coordenadas pelo Programa Nacional de Controle do Tabagismo, desenvolvido pelo Ministério da Saúde em parceria com o INCA.

Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil


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