A indicação do advogado-geral da União, Jorge Messias, para uma cadeira no Supremo Tribunal Federal desencadeou uma disputa de bastidores marcada por cálculos divergentes e uma verdadeira guerra de números entre senadores. A votação, prevista para o próximo dia 10, tem alimentado projeções que variam radicalmente dependendo do interlocutor. Enquanto opositores afirmam que Messias dificilmente alcançaria os votos necessários, aliados do indicado garantem que ele tem condições de ser aprovado, ainda que por margem apertada. Para ocupar a vaga no STF, Messias precisa reunir ao menos 41 votos entre os 81 senadores.
Nos bastidores, apoiadores de Davi Alcolumbre (União-AP), presidente do Senado e contrário à escolha, sustentam que Messias teria hoje apenas entre 28 e 31 votos favoráveis. Já interlocutores próximos ao chefe da AGU asseguram que ele alcançaria entre 45 e 47 votos, resultado suficiente para confirmação, embora dentro de um cenário político tenso e imprevisível. O clima de incerteza reflete a fase em que o tradicional “beija-mão” aos parlamentares está a todo vapor, com Messias intensificando contatos para angariar apoio.
Alcolumbre, insatisfeito com a indicação, marcou a sabatina da Comissão de Constituição e Justiça para o próximo dia 10, decisão vista como uma manobra para reduzir o tempo de articulação de Messias. Um aliado do indicado afirmou, sob reserva, que “nas avaliações internas o Messias tem votos para ser aprovado. Não vai dar fácil, mas passa”. Caso se confirme, a votação deve repetir o padrão recente do plenário: Paulo Gonet obteve 45 votos ao ser reconduzido à Procuradoria-Geral da República, enquanto Flávio Dino alcançou 47 votos em dezembro de 2023, apesar da forte mobilização contrária de senadores bolsonaristas.
O histórico do Senado mostra que rejeições de indicados ao Supremo são raras. Desde a República Velha, somente Floriano Peixoto teve nomes barrados — cinco ao todo, todos em 1894. A memória dessas rejeições distantes, contudo, não impede o clima de vigilância e tensionamento que domina a atual indicação.
Um ponto central da disputa envolve o comportamento da bancada do MDB, que conta com 11 senadores e pode definir o resultado. Há dúvidas específicas sobre como votarão Eduardo Braga (AM) e Renan Calheiros (AL), que apoiaram Gonet, mas desejavam Rodrigo Pacheco no STF. O mesmo peso tem o PSD, com 14 senadores. Juntas, as duas bancadas representam quase um terço do plenário e são consideradas decisivas.
Para reduzir resistências entre senadores alinhados ao bolsonarismo, o entorno de Messias aposta no apoio de lideranças evangélicas e na atuação do ministro do STF André Mendonça, que se movimenta para ajudar a construir pontes. A expectativa é que parte daqueles que rejeitaram Gonet possa votar a favor de Messias, já que o AGU teve participação discreta nas investigações dos atos golpistas de 8 de janeiro, ao contrário do procurador-geral, que conduziu denúncias que atingiram Bolsonaro, militares e diversos aliados.
Algumas lideranças acreditam que a confirmação de Messias reforçaria o “bloco conservador” no STF, supostamente capaz de barrar avanços progressistas em temas como descriminalização do aborto e participação de crianças em eventos LGBTQIA+. Essa narrativa, porém, enfrenta resistência dentro do próprio grupo evangélico no Senado, onde Messias não é unanimidade. Um senador desse segmento afirmou: “Eu não o vejo assim. Ele é mais o cara do Lula e até aqui não tinha procurado construir uma relação com o Senado. Não existe evangélico comunista”. Outro senador evangélico, que preferiu anonimato, declarou estar indeciso: “O rótulo não cola nele”.
No campo governista, há avaliação de que a postura de Alcolumbre representa sobretudo uma tática de pressão, descrita por um senador como “colocar dificuldades para vender facilidades”, manobra usada para negociar liberação de emendas, nomeações e espaços estratégicos.
Mais um termômetro da disputa deve surgir nesta quinta-feira, quando o presidente da CPI do INSS, senador Carlos Viana (Podemos-MG), pretende pautar requerimentos para convocar Messias a depor. A oposição tenta questionar a atuação da AGU diante do esquema bilionário de fraudes em aposentadorias, numa tentativa de fragilizá-lo politicamente. A base governista, por sua vez, tem atuado nos bastidores para bloquear as convocações e evitar que o indicado ao STF seja arrastado para o centro do escândalo. A guerra de números, articulações e tensões já está deflagrada — e a votação promete ser um dos capítulos mais decisivos da atual disputa institucional.
Foto: Brenno Carvalho

