Por Lucas Bombana

Beneficiados por um ambiente de retomada das atividades após a paralisação provocada pela pandemia, os quatro grandes bancos (Itaú Unibanco, Bradesco, Santander e Banco do Brasil) reportaram um lucro líquido consolidado de R$ 81,632 bilhões em 2021.

O valor nominal (sem descontar a inflação) representa um crescimento de 32,5% na comparação com 2020, segundo levantamento elaborado pela provedora de informações financeiras Economatica –um recorde, tendo ficado ligeiramente acima do pico anterior de R$ 81,508 bilhões registrado em 2019.

Ajustado pela inflação, medida pelo IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo), o lucro consolidado dos quatro grandes bancos em 2021 é o quarto maior da série histórica. Por esse critério, o melhor resultado até aqui foi obtido pelo quarteto em 2019, de R$ 93,761 bilhões.

Segundo analistas de mercado, o resultado do último ano foi influenciado pela própria base de comparação mais fraca de 2020, fragilizada pela pandemia, bem como pelo crescimento de dois dígitos das carteiras de crédito às pessoas físicas e jurídicas de um modo geral.

“Na pandemia, os bancos fizeram mais provisões para devedores duvidosos, que é basicamente tirar um pouco do dinheiro dos lucros e provisionar para uma inadimplência maior. E no ano passado, com a melhora da economia, eles reverteram parte dessas provisões”, afirma Bruce Barbosa, sócio-fundador da empresa de análise de investimentos Nord Research.

Pedro Galdi, analista da Mirae Asset Wealth Management, diz que os grandes destaques positivos ficaram por conta dos números de Itaú e Banco do Brasil.

“O melhor resultado em minha avaliação foi o do BB, com forte crescimento de receita e da carteira de crédito, mantendo o índice de inadimplência comportado”, afirma Galdi.

“A visão que fica depois da temporada de balanços dos bancos é de que as ações do BB estão muito descontadas frente aos pares privados”, acrescenta o analista da Mirae, lembrando ainda que os resultados de Bradesco e Santander vieram um pouco abaixo do consenso de mercado, com queda nos principais indicadores de rentabilidade.

Depois de um ano marcado pela recuperação dos lucros, a expectativa para 2022 é de que o baixo crescimento do PIB (Produto Interno Bruto), somado aos juros altos, provoque um arrefecimento no ritmo de expansão das carteiras, com aumento nos níveis de inadimplência, diz João Daronco, analista da Suno Research.

“Para 2022, o principal ponto de atenção é como o índice de inadimplência irá se comportar”, afirma Daronco, acrescentando que os próprios bancos sinalizaram esperar um aumento das contas em atraso.

“O cenário macro é diferente em 2022 daquele que observamos em 2021. E a gente vem de um crescimento de carteira importante nos últimos anos. Estamos sempre comparando o crescimento do ano contra o ano anterior, e como tivemos um ano muito forte em 2021, é natural que haja um arrefecimento em 2022, seja pela base de comparação, seja pelo que estamos vendo de perspectiva macro olhando para frente”, afirmou o presidente do Itaú Unibanco, Milton Maluhy Filho, após a divulgação do balanço trimestral.

Na mesma toada, o presidente do Bradesco, Octavio de Lazari Jr., assinalou que a incerteza sobre a capacidade do governo Bolsonaro de equilibrar as contas públicas, bem como a inflação pressionada e os juros altos, devem afetar a recuperação da economia neste ano.

“Infelizmente, ainda existem incertezas fiscais e a inflação elevada, um fenômeno global, e com algum tempero local, que acabaram levando a uma forte alta de juros. O aperto da política monetária já causou efeitos em 2021 e certamente deverá afetar a recuperação da economia em 2022”, afirmou o executivo.

Sérgio Rial, presidente do conselho de administração do Santander Brasil, também comentou esperar por uma desaceleração do crédito, em especial em linhas mais dependentes do patamar em que se encontram os juros.

“Acho que a gente vai ver naturalmente uma desaceleração no crédito imobiliário, quando comparamos com os últimos dois anos. Essa desaceleração vai ocorrer”, afirmou Rial.

No caso do BB, o presidente do banco, Fausto Ribeiro, afirmou nesta terça-feira (15) que a instituição irá focar sua atuação em linhas de maior risco e rentabilidade, de modo a manter a lucratividade da operação.

“Vamos explorar linhas mais rentáveis. A ideia é investir bastante no não correntista”, afirmou Ribeiro. Nesse sentido, o presidente do BB citou o CDC (Crédito Direto ao Consumidor) Não Consignado e o cartão de crédito entre as linhas que devem receber um enfoque maior por parte do banco nos próximos meses.

Segundo Rafael Bevilacqua, estrategista-chefe da Levante, ainda que o ritmo de crescimento dos bancos aponte para um arrefecimento neste ano, as ações do setor na Bolsa se encontram em níveis atraentes.

“Devemos ver os lucros dos bancos crescendo uma média ao redor de 20% em 2022, e são ativos negociados a múltiplos baixos na Bolsa”, diz Bevilacqua.

Ele lembra que a rotação em curso motivada pela alta dos juros em escala global, de ações de alto crescimento de tecnologia para negócios de caráter mais cíclico, deve contribuir para um desempenho positivo das ações do setor bancário ao longo do ano.

“Os bancos foram deixados um pouco de lado pelos investidores nos últimos anos pela percepção de que as fintechs iriam tomar o mercado. E elas atingiram, de fato, um número absurdo de clientes, mas que ainda não se tornaram rentáveis, enquanto os bancos continuam crescendo suas receitas”, afirma o estrategista da Levante.

Fonte: Folhapress


Avatar