O presidente Luiz Inácio Lula da Silva pretende avançar, no próximo sábado, na conclusão de um acordo bilateral com a Índia voltado à cooperação em minerais críticos e terras raras. A negociação será discutida em reunião com o primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, e é considerada estratégica para ampliar a inserção do Brasil em cadeias globais de valor ligadas à transição energética e às novas tecnologias.
O Brasil detém a segunda maior reserva mundial de terras raras, conjunto de minerais essenciais para a fabricação de veículos elétricos, painéis solares, smartphones, equipamentos de alta tecnologia, motores aeronáuticos e sistemas de defesa. Apesar desse potencial, a produção global desses insumos é hoje fortemente concentrada na China, que domina a maior parte da extração e do processamento.
Esse cenário ganha relevância adicional em meio às disputas tarifárias travadas tanto pelo Brasil quanto pela Índia com os Estados Unidos, durante o governo do presidente Donald Trump. A concentração chinesa e as tensões comerciais têm levado grandes economias a buscar alternativas para diversificar fornecedores e reduzir riscos geopolíticos associados ao acesso a minerais estratégicos.
A Índia, por sua vez, vem investindo na ampliação da produção doméstica e em programas de reciclagem de minerais críticos, além de buscar parceiros internacionais para diversificar sua carteira de suprimentos. Nesse contexto, o Brasil surge como um aliado relevante, tanto pela disponibilidade de recursos quanto pelo alinhamento político em fóruns multilaterais.
Segundo fontes oficiais, Lula pretende assinar um memorando de entendimento sobre minerais críticos durante os encontros com Modi. O gesto faz parte de uma estratégia mais ampla de fortalecimento das relações comerciais e diplomáticas entre os dois países, que vêm ampliando o diálogo em áreas como energia, indústria, defesa e inovação tecnológica.
O presidente brasileiro chegou a Nova Délhi na quarta-feira acompanhado de vários ministros e de uma expressiva comitiva empresarial, que inclui executivos de grandes companhias nacionais. A presença do setor privado reforça o interesse do governo em transformar acordos políticos em oportunidades concretas de investimento e cooperação industrial.
Especialistas indianos avaliam que a parceria com o Brasil complementa iniciativas já firmadas pela Índia com Estados Unidos, França e União Europeia no campo das cadeias globais de suprimentos. Para analistas do setor energético e ambiental, alianças com países do Sul Global são fundamentais para garantir acesso diversificado a recursos naturais e para influenciar as novas regras do comércio internacional.
Com quase 1,5 bilhão de habitantes, a Índia é atualmente o país mais populoso do mundo e figura como o décimo principal destino das exportações brasileiras. O comércio bilateral superou US$ 15 bilhões, o equivalente a cerca de R$ 78 bilhões, em 2025. O Brasil é hoje o principal parceiro comercial da Índia na América Latina.
No ano passado, os dois governos estabeleceram como meta elevar o comércio bilateral para US$ 20 bilhões, aproximadamente R$ 104,5 bilhões, até 2030. A cooperação em minerais críticos é vista como um dos vetores capazes de impulsionar esse crescimento, ao lado de setores tradicionais como energia, agronegócio e indústria pesada.
Além da pauta econômica, Lula e Modi devem discutir as dificuldades do cenário econômico global e as tensões no sistema de comércio multilateral, agravadas pelas tarifas impostas pelos Estados Unidos a produtos brasileiros e indianos em 2025. Essas medidas estimularam uma aproximação maior entre Brasília e Nova Délhi em defesa do multilateralismo.
Recentemente, Washington suspendeu uma tarifa adicional de 25% sobre produtos indianos, condicionando a medida à redução das compras de petróleo russo por parte da Índia e ao aumento da importação de energia dos Estados Unidos. O tema também deve aparecer nas conversas bilaterais.
Autoridades brasileiras afirmam que o encontro permitirá uma troca ampla de pontos de vista sobre os desafios do comércio internacional e da governança global. Entre os principais produtos exportados pelo Brasil para a Índia estão açúcar, petróleo bruto, óleos vegetais, algodão e minério de ferro.
A demanda indiana por minério de ferro cresce com a expansão acelerada de sua infraestrutura e de seu parque industrial, em um momento em que o país desponta como candidato a se tornar a quarta maior economia do mundo. Paralelamente, empresas brasileiras ampliam sua presença no mercado indiano, como demonstra o acordo firmado em janeiro entre o grupo Adani e a Embraer para a fabricação de helicópteros.
Durante a visita, Lula também participou de uma cúpula sobre inteligência artificial em Nova Délhi, defendendo a criação de um sistema de governança global, multilateral e inclusivo para a tecnologia. Após a agenda na Índia, o presidente seguirá para a Coreia do Sul, onde terá encontros oficiais e participará de um fórum empresarial bilateral.
Foto: Ricardo Stuckert/PR

