A incapacidade da ONU e do CSNU de resolver o conflito israelo-palestino chamaram atenção para o estupor da organização supranacional de nações. Por que motivos a ONU se encontra em dificuldades de atuar na garantia da paz, se esse é o objetivo pelo qual a organização foi criada?

Essas e outras perguntas foram debatidas por especialistas ouvidos pelos jornalistas Melina Saad e Marcelo Castilho, apresentadores do podcast da Sputnik Brasil Mundioka. Eles abordaram as ações dos Estados Unidos mediante o confronto em Gaza.

No início do conflito, diversos países que possuem assentos no Conselho de Segurança das Nações Unidas (CSNU) apresentaram resoluções para o estabelecimento de um cessar-fogo. Uma das medidas com melhor aprovação pelos países-membros foi a do Brasil. No entanto, mesmo após longas negociações, foi vetada pelos Estados Unidos.

O ato foi repercutido ao redor do mundo como um fracasso diplomático da Organização das Nações Unidas (ONU), e autoridades globais acusaram os EUA de monopolizar as negociações de paz.

‘A ONU está descredibilizada’

Na verdade, aponta Wanilton Dudek, doutor em história e professor da Universidade Estadual do Paraná (Unespar), os EUA têm um histórico de desrespeitar a instituição da ONU e sua autoridade.

“A ONU está descredibilizada há muito tempo”, afirmou.

A primeira demonstração muito forte disso foi a guerra do Iraque, quando os EUA, mesmo contra as vontades da ONU, invadiram o Iraque, criando todo aquele conflito que vemos os resultados até hoje.”

Outro ponto abordado pelo especialista foi a ineficácia das sanções impostas pelo CSNU.

Criadas como medidas para prevenir a escalada de conflitos, limitar a proliferação nuclear e combater violações dos direitos humanos, as sanções da ONU podem ser decretadas a Estados ou pessoas.

Essas imposições — que podem variar de econômicas, diplomáticas e militares — devem ser cumpridas por todos os membros da ONU que, além disso, podem ainda impor sanções adicionais.

Ainda que muitas vezes essas medidas acabem incomodando politicamente e impedindo o desenvolvimento econômico de um país, mostraram-se, para Dudek, ineficientes, uma vez que se algum país não cumpre as determinações da ONU, “é como se nada tivesse acontecido”. “Parece que essas determinações ficam somente no campo esporádico”, afirmou.

“Então o que me parece é que a ONU foi criada com bom intuito. O mundo não poderia viver o caos de novo do que foram os conflitos da Primeira e da Segunda Guerra Mundial. Mas, na medida do tempo, ela [a organização] foi enfraquecendo justamente por não demonstrar uma coesão entre os países que a compõem.”

Interesse econômico dos EUA se sobressai

Dudek destaca que, muitas vezes, por trás dessas ações diplomáticas e militares, há questões econômicas, e não ideológicas. Por exemplo, o presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, retirou as sanções comerciais ao petróleo venezuelano.

Com os preços dos hidrocarbonetos cada vez mais influenciados pelo conflito ucraniano, os americanos se viram na necessidade de voltar a se aproximar da Venezuela.

“Quando há a necessidade de resolver as questões econômicas, essa questão ideológica é deixada de lado. Isso é uma característica bem comum dos Estados Unidos.”

Hugo Albuquerque, editor da Autonomia Literária e diretor do Instituto Humanidade, Direitos e Democracia (IHUDD), por sua vez, explica que o controle pela passagem de mercadorias, em especial o petróleo, pelo Oriente Médio, está por trás das últimas ações dos EUA na região.

Quando perguntado se a existência de uma grande reserva de gás estava por trás da possível anexação do norte da Faixa de Gaza por Israel, Albuquerque ressaltou que, na verdade, o projeto pelo controle dos hidrocarbonetos na região é de origem norte-americana.

“Mais importante do que essa reserva de gás é que Israel estava tentando, com o apoio do governo Biden, integrar-se com os países árabes para basicamente se tornar um porto para a exportação de petróleo e gás do Oriente Médio para a Europa, sem que isso passe pelo golfo Pérsico.”

Segundo o analista, o controle do Irã do estreito de Ormuz permite ao país bloquear boa parte da exportação de petróleo do mundo. Nesse contexto, no plano estadunidense, Israel ocuparia o lugar de grande porto de escoamento de petróleo e gás para o resto do mundo.

“Daí o desejo que Israel tinha de se integrar com os países árabes, mas ele preferiu sacrificar isso, pelo menos de modo temporário, para basicamente punir os palestinos.”

Quem e o que pode substituir a ONU?

Ainda que a ONU seja ineficaz, para Dudek não há possibilidade de que outro órgão surja para assumir seu lugar. “Criar outra ordem, outra organização, geraria ainda mais confusão no mundo.”

“Apesar de a ONU hoje estar em um descrédito, eu não acredito que seja necessariamente a instituição da ONU em si, mas os próprios países que ainda mantêm esses assentos permanentes lá.”

Se no final da Guerra Fria os Estados Unidos emergiram como potência hegemônica mundial, o mundo de hoje se desenha cada vez de forma mais multipolar, com atores globais surgindo em diversos cantos do mundo, como o Catar e o Egito, as duas nações responsáveis por conseguir trazer para a mesa de negociação Israel e o Hamas.

Tudo vai demonstrando essa nova configuração total das relações internacionais”, afirmou Dudek.

Outro exemplo da mudança da forma hegemônica do mundo é a mediação da China no reestabelecimento das relações da Arábia Saudita e do Irã.

Não estamos tendo voz de outros países que poderiam estar fazendo as mediações, como é o próprio caso do Brasil […]. Então, eu vejo que uma reforma da ONU hoje seria essencial e urgente, justamente para repensar essas questões.”

No entanto, aponta Dudek, ainda é difícil que um país assuma o protagonismo que os Estados Unidos e a Europa têm na ONU.

“Talvez a proposta deveria ser para além do que é a questão da hegemonia mundial, de ter países do Ocidente e do Oriente, que cada vez mais aparecem como grandes players, como a China já demonstra, como a Rússia tenta fazer, que demonstrem uma certa atitude, que são aquelas pelas quais a ONU foi criada.”


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