Por Geraldo Elísio (Repórter)

Morreu uma das mais desagradáveis figuras humanas (?) que conheci e entrevistei como repórter, o cabo Anselmo, da Marinha de Guerra do Brasil. Em 64 ele foi apontado como um comunista pronto a promover a quebra da hierarquia das Forças Armadas Brasileiras.

Nos idos de 64 eu era chefe de reportagem da XYU-4, Rádio Cultura de Sete Lagoas, linda cidade do Quadrilátero Ferrífero de Minas Gerais, localizada há poucos quilômetros da Capital, Belo Horizonte. Diga-se de passagem, à esquerda considerava o marujo um bastião nas lutas pelas reformas.

Havia programado para a noite assistir um filme no extinto Cine Rivelo, porém antes de deixar o trabalho recebi um telefonema do ex-prefeito daquela cidade, o professor doutor José Antônio de Vasconcelos Costa me convidado para um jantar que ocorreria na residência dele, com a presença “de personalidades importantes”.

Entre eles o general Carlos Luís Guedes e outros oficiais de patente superior. Atendendo a sugestão dele, o doutor Vasconcelos, também professor de Direito Internacional da UFMG, eu levei o meu gravador. Ao chegar à residência dele observei o grande número de militares. Guedes, fisionomia preocupado e carrancudo.

O uísque servido à vontade bem como giravam as conversas contra o governo de João Goulart. Nunca bebi ou fumei, sendo fácil perceber a razão daquele encontro social. Lá pelas tantas o médico doutor Afonso Viana indagou sobre o perigo de o cabo Anselmo liderar uma revolução de esquerda.Não consegui dormir.

E foi surpreendido com a risada de um capitão chamado Tomé a dizer;

– Não se preocupe não. Ele é dos nossos.

Ao acordar, fui ao Diretório da União Estudantil Secundarista e contei o episódio. Fui chamado de alienado e pediram para não repetir o que havia dito. Fiquei calado e me despedi. Décadas depois Inês Etienne Romeu denunciou pela primeira vez a dupla militância do cabo José Anselmo dos Santos.

E foi seguida tempos depois pelo repórter carioca Octávio Ribeiro, o Pena Branca que trouxe o mesmo caso à luz. Em fins de 2011 o próprio Anselmo participou de um Roda Viva da TV Cultura de São Paulo, da Fundação Padre Anchieta, confessando sem arrependimento o seu deplorável papel.

Ele entregou também outro grupo de militantes esquerdistas ao delegado Sérgio Paranhos Fleury, do DOPS paulista. Chacinados sumariamente. Entre o grupo a chilena Soledad Barret Viedma, então grávida dele, o cabo Anselmo.

Tempos depois, ao conversar com o ex-guerrilheiro urbano e de selva, Gilberto de Faria, sociólogo, psicanalista, professor e jornalista residente em Belo Horizonte, militante do Partido Comunista Brasileiro – PCB – tempos mais tarde tendo migrado para a Vanguarda Popular Revolucionária – Var Palmares – onde, ao lado do capitão Carlos Lamarca, lutou no Vale da Ribeira, até ser exilado para o Peru, onde integrou o Movimiento de Izquierda Revolucionaria – Mir – “Anselmo foi de fato agente duplo.”

Segundo o depoente, a informação mais segura veio do serviço secreto cubano, no auge da Operação Condor, desenvolvida no Cone Sul da América do Sul.

No Chile, o cabo Anselmo chegou a fazer uma reunião com um grupo de esquerdistas e ele, em gesto teatral, sacou da sua arma e a colocou em cima de uma mesa pedindo que quem acreditasse naquilo o matasse ali mesmo. Segundo Gilberto ninguém se dispôs a executá-lo e somente depois da denúncia de Inês o assunto voltou a ser questionado.

Este resumo foi escrito a partir do texto constante das páginas 49, 50, 51, 52, 53 do capítulo O golpe de 64, do meu livro Baú de Repórter – Memórias do Jornalismo Analógico – Editora Neutra – editado em 2018.

Com prefácio da jornalista e professora da Escola de Comunicação da Universidade Federal de Minas Gerais e do também jornalista e igualmente administrador público Mauro Werkema. E “orelha” do advogado João Augusto de Moraes Drummond.

A todas as pessoas citadas nesta matéria automaticamente é garantido o direito da resposta no espaço tamanho e corpo.