Não foi só por causa da escolha do general Braga Netto para ser o vice de Jair Bolsonaro no lugar da deputada federal Tereza Cristina (PP-MS) que o desânimo tomou conta do Centrão. A chamada “ala política” da campanha à reeleição está em clima de velório, e a razão é o próprio comportamento de Bolsonaro.

O fato de o presidente anunciar numa entrevista, neste domingo, que havia preterido a ex-ministra da Agricultura em favor do general, só piorou uma situação que já estava azeda desde o final da semana passada. Isso porque o presidente ignorou todas as recomendações do marqueteiro, Duda Lima, para a viagem que faria ao Nordeste entre quinta-feira e o sábado.

Na quarta-feira, Lima e o núcleo duro da campanha, que inclui os ministros Ciro Nogueira e Braga Netto, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e o presidente nacional do PL, Valdemar da Costa Neto, apresentaram ao presidente um plano estratégico detalhado para os próximos 100 dias de campanha.

Entre o final da tarde e a noite de quarta-feira, Lima fez uma apresentação propondo que Bolsonaro dedicasse todas as oportunidades que tivesse no Nordeste para fazer a defesa do Auxílio Brasil e de outras iniciativas que geraram emprego, para tentar virar o voto de eleitores que hoje decidiram abraçar a candidatura do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

A viagem ao Nordeste era fundamental neste trabalho, uma vez que é na região que Bolsonaro enfrenta suas maiores taxas de rejeição. Segundo a última pesquisa Datafolha, 55% dos brasileiros não votariam no atual presidente. Entre os nordestinos, o desprezo alcança a marca de 62%.

O material apresentado ao presidente na quarta-feira continha uma lista de programas, junto com o que o presidente deveria dizer sobre cada um deles nos discursos. Depois de assistir a apresentação, Bolsonaro elogiou o plano e disse ter concordado com tudo.

Mas, nos dias seguintes, o esperado “foco total no social” virou uma sequência de falas a respeito do caso Milton Ribeiro, das suspeitas infundadas do presidente sobre as urnas eletrônicas e da guerra de bastidores com o Supremo do que de programas sociais ou de realizações do governo que acabaram deixadas de lado.

Na sexta-feira, depois da divulgação do áudio em que o ex-ministro da Educação disse à filha que Bolsonaro tinha o “pressentimento” de que haveria uma ação de busca e apreensão, o presidente ainda cancelou um almoço com lideranças políticas da Paraíba.

“O risco de derrota só aumenta”, lamentava, na tarde de ontem, um dos envolvidos na tentativa de coordenar os trabalhos da campanha. “O presidente está fazendo de tudo para perder” – é a avaliação que mais se ouve no entorno de Bolsonaro, mas que ninguém tem coragem de fazer diretamente a ele.

O desânimo é recíproco: Bolsonaro não tem poupado reservadamente críticas ao PL, ao marketing da campanha e à equipe jurídica – e por isso tem ignorado os conselhos que recebe.

Nesse contexto, a decisão de não colocar Tereza Cristina como vice é vista no Centrão como uma oportunidade perdida de criar fatos positivos para “chacoalhar a campanha”.

Além de atrair o eleitorado feminino, outro foco de rejeição ao chefe do Planalto, o Centrão considerava que a imagem de uma mulher com perfil mais político e imagem de realizadora poderia “amenizar” o radicalismo de uma chapa puramente ideológica.

“No nosso planejamento, junho seria o mês da virada, mas até agora só colecionamos problemas”, diz um estrategista da campanha.

Para um general que trabalhou no primeiro escalão do governo, a chapa Bolsonaro-Braga Netto acabou ficando com cara de “‘pão com êpa!”. “É como chamamos na linguagem militar, quando você abre o pão, cheio de expectativas, e não tem nada dentro”, define.