O 9º Congresso internacional sobre culturas – diálogos por uma democracia plural, que está sendo realizado na UFMG até sexta-feira, 10 de novembro, “reforça a proposta da Universidade de promover reflexão sobre a defesa das pluralidades e diversidades como garantia da democracia e formação cidadã”, afirmou o vice-reitor Alessandro Fernandes Moreira, durante abertura do evento, na manhã desta segunda-feira, dia 6, no Conservatório UFMG.

O evento é uma realização da Associação Internacional de Pesquisadores das Culturas (InterCult), em parceria com a Pró-reitoria de Cultura da UFMG e a Universidade Federal da Bahia. Aberto à comunidade, os debates ocorrem presencialmente e também podem ser acompanhados pela plataforma Youtube.

Nesta edição serão apresentados cerca de 400 trabalhos, de dezenas de instituições das várias regiões brasileiras e dos 18 países integrantes da InterCult. “O número de inscritos nos surpreendeu positivamente, ao mesmo tempo que impôs desafios para a realização do evento. Por isso, teremos uma programação em formato híbrido, com realização das mesas-redondas com transmissão on-line diretamente do Conservatório UFMG, enquanto os grupos de trabalho ocuparão, além do Conservatório, o Cento Cultural e o Espaço do Conhecimento”, explica o pró-reitor de Cultura, professor Fernando Mencarelli.

Poder transformador

Segundo o vice-reitor, a transversalidade é uma marca da UFMG .”Por meio das múltiplas dimensões entre as diferentes áreas do conhecimento, poderemos estabelecer outras compreensões e práticas para combater o autoritarismo crescente que abala tanto as democracias jovens quanto as mais consolidadas”, afirmou Alessandro Moreira.

Na avaliação do presidente da InterCult e professor da Universidade da Beira Interior, de Portugal, Urbano Sidoncha, “essa luta ocorre, não apenas com a criação de áreas disciplinares, mas com a convicção do poder transformador das universidades, que atuam por meio de suas dinâmicas e prioridades na aproximação de sua missão com o crescimento cultural, como fez a UFMG, com a criação da Pró-reitoria de Cultura, exemplo pragmático que nos inspira”.

Para a cantora Titane, que fez uma apresentação artística em defesa da vida, dos povos tradicionais e negros e contra os desastres provocados pelo rompimento de barragens de mineração no Estado, “o Congresso é uma oportunidade de criar laços e redes de interlocução entre pessoas e instituições de boa vontade, que acreditam na possiblidade de um mundo melhor”.

“Desde a experiência vivenciada de ocupação das sedes da Funarte, em todo o Brasil, em protesto ao desmonte do Ministério da Cultura, no governo Bolsonaro, percebemos que existe uma porosidade grande nos movimentos sociais, como no MST, para discutir o que a gente chama de culturas. É preciso pontuar a dimensão artística como liberdade individual, aprofundar as reflexões filosóficas sobre a natureza humana, para quebrar paradigmas e entender, por exemplo, que matemática e música fazem uma combinação perfeita”, acrescentou.

A cantora destacou a importância da parceria com as universidades, como a que ocorreu entre a Associação Campo das Vertentes, formada por artistas, técnicos e gestores, com a UFMG, para salvaguarda do acervo do diretor e dramaturgo João das Neves. “Iniciativas como essa, raras no meio artístico, possibilitou que o acervo de um dos mais brilhantes artistas do teatro brasileiro esteja acessível para a sociedade, por meio da Biblioteca Central da UFMG. As universidades são espaços privilegiados de pensamento e de discussão que nos ajudam a percorrer esse longo caminho”, afirmou Titane.

Diálogo e resistência

Durante o primeiro debate da programação, a atriz e vereadora Cida Falabella rememorou os últimos sete anos da política cultural, “marcada por violências e censura, até a extinção do Ministério da Cultura, como ato que feriu a alma da cultura brasileira”. Falabella referendou a fala dos colegas da mesa, sobre o longo e desafiador caminho a percorrer, que segundo ela, “deve passar pela retomada do diálogo, pelo enfrentamento de fake news e pela resistência ao fascismo, que ainda ocorre de maneira sorrateira, nas redes sociais”.

A vereadora destacou também as recentes leis de incentivo à cultura, que homenageiam os artistas Paulo Gustavo e Aldir Blanc, como indicativos de retomada do setor, mas que precisam ser acrescidas de interlocução mais profunda com as áreas da educação, saúde e meio ambiente, reconhecendo, a exemplo do programa Cultura Viva, de Belo Horizonte, os ambientes de cultura presentes nas comunidades locais.

Para a chefe do setor de Pesquisa de Políticas Culturais da Fundação Casa Rui Barbosa, Lia Calabre, as reflexões sobre como a política cultural brasileira pode contribuir para a construção da democracia, deve considerar os desmontes sofridos, para avaliar quais modelos de resistência foram efetivos e o quanto precisamos avançar. Ela frisou “a necessidade de diferenciar o próprio conceito de democracia de democratização, para que se tenha clareza de como, de fato, ocorre a participação e o exercício dos direitos e deveres dos sujeitos e dos estados nesse processo”.

De acordo com o diretor executivo da Fundação Nacional de Artes (Funarte) e egresso da UFMG, Leonardo Lessa, “o compromisso com a defesa da democracia é uma tarefa de governo e precisa superar as barreiras normativas, administrativas e jurídicas, que atualmente representam uma afronta à democratização e fomento da cultura nacional”.

“A defesa da democracia precisa de um capital cultural e precisamos nos embasar na própria Constituição Cidadã, que ousou escrever sobre cultura e preservação do patrimônio”, acrescentou o reitor da Universidade Federal da Bahia, Paulo Miguez.

Precisamos fazer que a cultura esteja presente na dimensão de ensino, de pesquisa e de extensão, que agora ganha reforço com a obrigatoriedade da curricularização da extensão, criando maior espaço para a trama cultural dentro das universidades. Temos grandes possibilidades de construir um capital cultural capaz de garantir a defesa da democracia. No entanto, precisamos fazer que essa perspectiva possa contagiar a todos e mostrar que reencantar a vida passa pela democracia, pela cultura e pelas artes”, concluiu Miguez.


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