Ângela Carrato – Jornalista. Professora do Departamento de Comunicação Social da UFMG. Membro do Conselho Deliberativo da ABI
Quando perguntado sobre os efeitos do tarifaço de Donald Trump para a economia russa, o presidente Wladimir Putin respondeu “nenhum”. Pesadamente taxada pelos Estados Unidos há três anos, a Rússia não para de crescer. Razão pela qual ele emendou com uma frase que surpreendeu. Citando o pensador chinês da antiguidade, Lao Tze, Putin teria dito que o melhor a fazer agora é sentar-se à beira do rio e aguardar o cadáver do inimigo passar boiando.
Não foi Putin, Xi Jinping, Lula, Macron ou Maduro quem transformou Trump em inimigo nº 1 do mundo. Foi ele próprio ao agir pautando-se exclusivamente por sua megalomania, oportunismo e estupidez. Se o seu slogan de campanha “Make America great again” entusiasmou muita gente nos Estados Unidos, não há entre os economistas, sejam liberais ou desenvolvimentistas, quem acredite que o caminho adotado por ele será positivo para o seu país.
Ao contrário. A expectativa é de que o tarifaço, que atingiu até pequenas ilhas no oceano Pacífico, cujos únicos habitantes são pinguins, provoque inflação e desemprego em toda parte e rapidamente redunde em crise nos Estados Unidos. Não falta nem mesmo previsões de que a crise pode ser maior do que a de 1929, cujas consequências para o Tio Sam e parte do Ocidente foram tenebrosas.
Se o tarifaço de Trump provoca reações negativas em todo o mundo, ele pode, por outro lado, se constituir em oportunidade para o crescimento e desenvolvimento de alguns países.
O Brasil pode ser o principal deles.
Trump culpa o mundo pelo elevadíssimo déficit público estadunidense, de U$ 33,4 trilhões, e o caminho que considera acertado para equilibrar as contas é taxar todas as importações. Não vai dar certo, porque as tarifas serão incapazes de zerar o déficit comercial enquanto prevalecer nos Estados Unidos a irresponsabilidade fiscal, com o governo isentando de impostos grandes corporações, não cobrando a dívida de sonegadores e despejando bilhões de dólares em guerras absurdas e injustificáveis.
Está equivocado o raciocínio de Trump de que com as altas tarifas, os estadunidenses passarão a comprar automóveis e outros produtos da indústria local. Antes que isso aconteça, se é que vai acontecer, as tarifas elevarão os preços dos automóveis, eletrodomésticos e alimentos impactando negativamente no padrão de vida da população.
Se Trump quisesse realmente tornar os Estados Unidos e sua população grandes e fortes novamente, o caminho seria com medidas opostas às adotadas. Teria que investir pesadamente em moderna infraestrutura, energia verde, garantir educação e saúde pública para todos e taxar, com impostos mais altos, os milionários e as corporações.
Ele não quer fazer nada disso.
Se independente do partido no poder, a Casa Branca sempre privilegiou os mais ricos, Trump está levando isso às últimas consequências e sem qualquer pudor. Não por acaso estavam na primeira fila, durante a sua posse, os bilionários donos das big techs, a começar por Elon Musk, agora um de seus principais auxiliares.
A principal tarefa de Musk é reduzir o tamanho do estado, mas, na prática, está destruindo o que resta do “welfare state” em seu país, com a extinção de importantes órgãos públicos, a demissão em massa de funcionários e a ampliação dos privilégios para os milionários.
O fato de Trump possuir maioria no Congresso facilita a adoção destas medidas, mas não diminui o impacto delas. Tanto que vem perdendo popularidade de forma muito acelerada antes de completar 100 dias de governo, período em que tradicionalmente a população dá trégua e voto de confiança ao novo presidente.
A reação da maioria dos países será, como está sendo, taxar de volta os Estados Unidos, valendo-se da chamada lei da reciprocidade. O que está longe de ser suficiente para enfrentar o problema. Daí, o caminho mais adequado apresentar-se como sendo a adoção de políticas que combinem a abertura de novos mercados com o fortalecimento do mercado interno.
Exatamente o que tem feito Lula na gestão atual e fez nas anteriores.
As muitas viagens ao exterior que realizou nos dois primeiros anos deste mandato tiveram esse objetivo. Antes disso, ser um dos fundadores e membro do BRICS também visou fortalecer os laços Sul-Sul do Brasil e reduzir a dependência da nossa economia em relação aos Estados Unidos. É importante lembrar que a mídia corporativa brasileira, historicamente golpista e inimiga de governos progressistas, criticou duramente Lula por tal postura, advertindo dos riscos que o país podia correr ao se aproximar dos asiáticos, em especial da China.
Na recente viagem de Lula ao Japão e ao Vietnã, antes mesmo que aterrissasse em Tóquio, a Folha de S. Paulo anunciava que ele corria sério risco de voltar de mãos vazias. Lula acertou a venda de 20 jatos comerciais da Embraer, um negócio no valor de R$ 10 bilhões, abriu o mercado japonês para a carne brasileira e assinou dezenas de convênios e acordos na área de ciência e tecnologia. Com o Vietnã, as perspectivas comerciais foram igualmente muito boas e há chance de que mais jatos sejam vendidos.
Nem a Folha de S. Paulo e nem os demais veículos da mídia corporativa se deram por vencidos. Continuaram criticando Lula e fazendo de tudo para jogar a opinião pública contra ele. É o caso da avalanche de pesquisas avaliando o governo que passaram a pipocar nesta mídia. Pesquisas encomendadas pelo sistema financeiro e divulgadas para o público como sendo a expressão da realidade.
Essa avalanche de pesquisas, cada uma pior do que a outra no que se refere à avaliação do governo, recordou-me a época em que não passava uma semana sem que o governo Dilma Rousseff fosse avaliado por uma agência de risco. Moody’s e Standard & Poor’s se tornaram nomes frequentes nas manchetes e eram unânimes ao jogar por terra a avaliação positiva do país e ampliar o risco para as empresas que aqui quisessem investir. Curiosamente, quando o golpista Michel Temer assumiu o poder, essas agências desapareceram. E continuaram sumidas ao longo de todo o desastre político, econômico e social que foi o governo Bolsonaro.
Igual tática está de volta agora, por intermédio das pesquisas de opinião e pela postura da mídia em promover combate sem tréguas ao governo Lula ao mesmo tempo em que não divulga as inúmeras conquistas que tem obtido. O balanço de meio de mandato que Lula fez, durante solenidade na última quinta-feira, por exemplo, não mereceu uma única manchete nos autodenominados “jornalões” e nem foi destaque no noticiário das TVs e das rádios.
O fato de o Brasil ter agora a menor taxa de desemprego desde 2012 não parece relevante aos olhos desta mídia. Igualmente irrelevante para ela é nossa economia ter crescido 3,4% em 2024, o quarto maior crescimento do mundo. A pobreza ter tido uma queda de 8,7 milhões de pessoas e programas sociais como Bolsa Família e BPC retomado suas finalidades, não contam, enquanto novos programas como o Pé de Meia para estudantes do ensino médio e o empréstimo consignado para trabalhadores com carteira assinada são citados apenas para críticas.
O que Lula tem feito, no entanto, é exatamente o recomendável para todo país que pretenda se desenvolver e garantir justiça social. Vale lembrar ainda que o governo conseguiu aprovar a reforma tributária e já enviou para o Congresso projeto de lei isentando quem ganha até R$ 5 mil do pagamento do imposto de renda. Até o último momento, a mídia corporativa duvidou que a reforma tributária pudesse ser aprovada e agora trabalha contra a isenção do imposto de renda para 10 milhões de brasileiros.
O argumento que esta mídia não tem coragem de revelar é que prefere que a maioria dos brasileiros continue pagando impostos, enquanto os muito ricos e bilionários simplesmente não pagam nada. Agindo assim, não só defende os próprios interesses – seus proprietários são alguns desses bilionários – como impede que o país venha a ter um mínimo de justiça social.
Não por acaso o Brasil, mesmo integrando o grupo das 10 maiores economias do planeta, é um dos mais desiguais, com alta concentração de renda e de população vivendo na pobreza.
O acerto da política econômica do governo Lula passa a ficar mais nítido agora, diante do tarifaço de Trump. Até aqueles, inclusive setores de esquerda, que o criticaram durante o Acordo Mercosul-União Europeia, sob o argumento de que seria uma capitulação do Brasil diante do poderio da indústria do velho continente, já começam a mudar de ideia.
A pesada taxação imposta por Trump aos produtos dos países europeus tem tudo para abrir mercado para o Brasil junto a eles. O mesmo pode ser dito em relação às exportações do agronegócio brasileiro para a China e demais países asiáticos.
O autoisolamento econômico dos Estados Unidos propicia uma nova configuração que em muito favorece o Brasil e demais países latino-americanos, se tiverem capacidade para perceberem isso.
Não por acaso, o presidente Lula deve viajar para Tegucigalpa, em Honduras, onde, na quarta-feira (9/4) participará da IX Cúpula de Chefes de Estado e de Governo da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (CELAC). Lá serão discutidas pautas como a integração regional, o combate às mudanças climáticas e a segurança alimentar e, claro, como enfrentar a nova realidade econômica imposta por Trump.
Enquanto isso, a mídia corporativa, na contra mão de qualquer compromisso com o Brasil e os interesses do povo brasileiro, parece lamentar que a taxação para os produtos brasileiros tenha sido de “apenas” 10%, mostrando-se inconformado por este valor ser o mesmo aplicado aos produtos argentinos. Certamente ela torcia para que a taxação aos produtos brasileiros fosse muito maior do que os argentinos, apostando no “valor” da amizade entre o presidente argentino, Javier Milei, e Trump.
Mais uma vez, a mídia corporativa brasileira dá mostras de não entender nada de economia e, menos ainda de política internacional.
Nessas áreas não há amigos ou inimigos. Há interesses e, por isso, cada governante deve pensar, em primeiro lugar, nos compromissos que tem para com a sua população e o o seu país.
O compromisso de Trump é com os milionários e é essa a razão de fundo de suas ações. Já o compromisso de Lula é com a melhoria da condição de vida dos brasileiros. Razão pela qual enfrentou e continuará enfrentando o ataque e a tentativa de desestabilização por parte da extrema-direita golpista, dos bilionários e da mídia.
Mesmo o Brasil e o mundo tendo mudado muito e apresentarem-se bem diferentes dos dois mandatos anteriores de Lula, a população não vai demorar a perceber quem está do seu lado e quem joga contra ela. A política econômica de Lula, no sentido de desenvolver e fortalecer o mercado interno está correta e os resultados já são visíveis. O mesmo podendo ser dito de suas ações na arena internacional.
Trump, por sua vez, está apenas acelerando o declínio do império americano. Dificilmente alguém poderia imaginar que seria um ocupante da Casa Branca a adotar ações tão desastrosas e drásticas para o seu próprio país.
Os Estados Unidos não afundarão sozinhos. Junto irá a mídia corporativa brasileira, que insiste em agir como se sua capital fosse Washington. Junto também irão as big techs que, mesmo apoiando incondicionalmente Trump, perderam, num único dia, mais de U$ 3 trilhões, após o anúncio do tarifaço.
Ao contrário do que apontam as pesquisas encomendadas pela “Faria Lima”, quem está afundando é Trump e quem vai dar a volta por cima é Lula, os BRICS e os países do Sul Global.
VEXAME – A mídia corporativa brasileira pagou o maior mico na última quinta-feira. Divulgou, com o maior alarde, que o influenciador Felipe Neto havia lançado sua pré-candidatura à presidência da República. Para tanto, baseou-se apenas num vídeo postado pelo próprio influenciador em suas redes sociais. No vídeo, Felipe Neto aparece trajando roupa preta e repetindo trechos do livro 1984, de George Orwell. Best-seller internacional por várias décadas, o livro de Orwell é leitura recomendada para qualquer pessoa de cultura mediana e é de conhecimento obrigatório para jornalistas. No entanto, profissionais renomados e focas caíram na pegadinha. Veículos que se dizem comprometidos com a apuração dos fatos mostraram que não apuram nada. Para eles, tanto faz fato ou fake.
Felipe Neto, autor da pegadinha, deve estar rindo até agora.
